A capacidade instalada acumulada de micro e minigeração distribuída (MMGD) no Brasil deverá alcançar 72,5 GW em 2030, de acordo com a segunda revisão quadrimestral das previsões de carga para o Planejamento Anual da Operação Energética (PLAN) 2026-2030, elaborada pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).
A nova estimativa representa um aumento de 5 GW, ou 7,4%, em relação aos 67,5 GW projetados na primeira revisão quadrimestral, divulgada em abril. Naquele momento, a previsão já havia sido reduzida em 1,9 GW, ou 2,8%, em relação ao PLAN 2026-2030 original.
A segunda revisão, portanto, recoloca a projeção em uma trajetória de crescimento, mas ainda abaixo do cenário inicialmente previsto no planejamento, caso a comparação seja feita com as premissas originais.
A revisão também atualiza a estimativa de geração associada à MMGD. A geração média projetada passa de 8.536 MW médios em 2026 para 11.240 MW médios em 2030, considerando a base existente e a expansão prevista.
Novas premissas para a MMGD
A mudança na projeção resulta da atualização do conjunto de premissas utilizado no planejamento, e não da atuação isolada de um único fator.
Entre os elementos considerados favoráveis à expansão da MMGD estão o avanço do armazenamento de energia, os sistemas grid zero, o crescimento dos veículos elétricos, o benefício do Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (Reidi) para projetos de minigeração e a existência de demanda reprimida por eletricidade.
O armazenamento aparece nesse cenário associado aos incentivos estabelecidos pela Lei nº 15.269/2025. A tecnologia pode ampliar as possibilidades de gerenciamento da geração local e do consumo, especialmente em um sistema no qual as restrições de conexão passam a ser um dos fatores relevantes para a expansão da MMGD.
Os fatores positivos, contudo, coexistem com obstáculos econômicos, regulatórios e de infraestrutura que continuam sendo considerados nas projeções.
Acesso à rede permanece como desafio
Entre os fatores que podem limitar a expansão da MMGD estão as restrições de acesso associadas à inversão de fluxo de potência, que dificultam a conexão de novos sistemas em determinados pontos das redes de distribuição.
A projeção também considera o aumento gradual da cobrança do Fio B, previsto na Lei nº 14.300, além das incertezas regulatórias para o período posterior a 2028. Na primeira revisão, esses elementos haviam contribuído para a redução da previsão de MMGD para 2030.
As taxas de juros elevadas também permanecem entre os fatores de pressão sobre o mercado. O cenário considera ainda possíveis impactos da reforma tributária, mudanças na tarifa branca e a possibilidade de aplicação de cortes de geração à MMGD.
O conjunto de restrições mostra que a expansão projetada não depende apenas da demanda por sistemas fotovoltaicos, mas também da capacidade das redes de distribuição de receber novos projetos e da evolução das condições econômicas e regulatórias.
Carga do SIN também é revisada para cima
A nova projeção de MMGD ocorre em paralelo a uma revisão para cima da expectativa de carga do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Para 2030, a carga projetada passou de 98.824 MW médios na primeira revisão para 101.947 MW médios na segunda, aumento de 3,2%. A taxa média de crescimento da carga entre 2026 e 2030 passou de 4% para 4,5% ao ano.
A revisão incorpora uma aceleração da demanda esperada de data centers, cuja carga projetada para 2030 aumentou de 3.457 MW médios na primeira revisão para 5.653 MW médios na segunda.
A nova estimativa para os centros de dados também está muito acima daquela considerada no PLAN original. Naquele estudo, a carga projetada para esses empreendimentos em 2030 era de 2.157 MW médios.
A segunda revisão considera, na base utilizada pelas instituições, 27 contratos de data centers já assinados e 30 pedidos que haviam recebido parecer de acesso favorável. A carga dos empreendimentos com contratos assinados é considerada integralmente, enquanto os projetos com parecer favorável têm 50% da carga incorporada ao cenário.
A evolução da carga e da MMGD, portanto, ocorre simultaneamente em um sistema elétrico no qual tanto a oferta descentralizada quanto novas grandes cargas passam a ter maior peso no planejamento.
Geração distribuída avança em todas as regiões
A geração associada à MMGD deverá crescer ao longo de todo o horizonte do planejamento. Para 2030, a projeção de geração média é de 5.868 MW médios no Sudeste/Centro-Oeste, 2.386 MW médios no Nordeste, 2.001 MW médios no Sul e 985 MW médios no Norte.
O Sudeste/Centro-Oeste, portanto, concentra pouco mais da metade da geração média projetada para a MMGD no final do horizonte.A distribuição regional reflete tanto a concentração da geração distribuída já instalada quanto a evolução esperada da carga e das condições de expansão da rede.
De 67,5 GW a 72,5 GW
A sequência das revisões mostra uma mudança nas expectativas para a MMGD ao longo de 2026. No PLAN 2026-2030 original, a capacidade acumulada prevista para 2030 era maior. Na primeira revisão quadrimestral, a estimativa foi reduzida para 67,5 GW, em meio a fatores como a evolução da cobrança do Fio B e incertezas regulatórias.
Agora, a segunda revisão acrescenta 5 GW à projeção e leva a estimativa para 72,5 GW.
O resultado combina vetores de expansão — como armazenamento, sistemas grid zero, novas aplicações da eletricidade e demanda reprimida — com restrições que permanecem presentes, especialmente em relação ao acesso às redes, ao custo de capital e ao ambiente regulatório.
A nova projeção reforça a importância de soluções de flexibilidade, armazenamento e gestão da geração local para a integração da MMGD ao sistema elétrico, em um cenário de crescimento simultâneo da geração distribuída e de novas cargas.



