O mercado automotivo brasileiro vive uma transformação sem precedentes. Pela primeira vez, o volume de veículos importados emplacados no país no acumulado do ano superou as vendas da marca líder do mercado, a Fiat.
Segundo dados recentes da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) , entre janeiro e julho de 2026, foram registrados 344.100 veículos importados (somando leves e pesados), contra 320.200 com o emblema da Fiat. Num hipotético ranking, os importados como um todo seriam os líderes absolutos de vendas.
As importações já representam 22,7% do mercado em julho de 2026, ante 18,6% em 2025 e 17,7% em 2024. O crescimento dos veículos produzidos fora do país é contundente: nos sete primeiros meses do ano, as importações aumentaram 25,7% em relação ao mesmo período de 2025. Só em julho, foram importadas 63.500 unidades – 40,5% a mais que no mesmo mês do ano anterior.
A China é a grande protagonista dessa onda importadora. De janeiro a julho, 180.500 veículos foram emplacados no Brasil, o que representa um crescimento impressionante de 105,4% sobre o mesmo período de 2025. Os veículos chineses já respondem por 52,4% do total das importações automotivas do período.
Em contraste, a Argentina – historicamente a maior fornecedora de veículos importados para o Brasil – registrou uma queda de 16,8% em seus embarques no acumulado do ano, totalizando 101.100 unidades. O México , por sua vez, enviou 23.800 veículos, com crescimento de 29,8%.
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Julho Registra o Melhor Mês do Ano
O mês de julho foi particularmente positivo para o setor. Foram emplacados 279.500 veículos novos – o melhor desempenho mensal do ano – com crescimento de 14,9% em relação a julho de 2025 e de 2,6% na comparação com junho.
Nos sete primeiros meses de 2026, o mercado brasileiro acumula 1,7 milhão de emplacamentos, um avanço de 17,9% sobre o mesmo período do ano anterior.
A produção nacional também cresceu: as montadoras fabricaram 253.900 veículos em julho, 5,9% a mais que no mesmo mês de 2025. No acumulado do ano, a produção alcançou 1,63 milhão de unidades, com crescimento de 8,3%.
Esse desempenho coloca o Brasil na segunda posição mundial em crescimento produtivo, atrás apenas da Índia (14,5%) e à frente do Japão (2,9%), enquanto Estados Unidos e China registraram retrações.

Eletrificados Alcançam Participação Recorde
Um dos dados mais relevantes do relatório da Anfavea é o crescimento exponencial dos veículos eletrificados (híbridos e elétricos). Em julho, esses modelos alcançaram uma participação recorde de 23,5% das vendas totais de veículos leves. Há um ano, essa fatia era inferior a 11%.
No acumulado de janeiro a julho, foram emplacados 308.000 veículos eletrificados leves – um crescimento de 120,8% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O dado mais revelador é a composição desse crescimento: as importações de veículos a combustão caíram 6,8% , enquanto as de eletrificados avançaram 78,4% – o que confirma que o atual crescimento das importações está diretamente ligado à transformação tecnológica do mercado.
Igor Calvet foi direto ao apontar o momento que a indústria atravessa: “enquanto se necessitam apenas algumas semanas para trazer um veículo produzido em outro país e colocá-lo à venda aqui, nacionalizar sua produção exige mais de um ano”.
E os números respaldam essa preocupação. Das 121.000 unidades de eletrificados “nacionais” comercializadas no período, apenas 53.000 foram efetivamente fabricadas no país, enquanto 68.000 resultaram de operações de montagem CKD (completamente desmontadas) e SKD (semidesmontadas). Os outros 186.000 eletrificados chegaram completamente prontos do exterior.
Calvet destacou que “esse volume de quase 350 mil importados é maior que a produção no período da maioria das fábricas de nossas associadas, o que indica que poderíamos estar gerando mais demanda para nossas fábricas e fornecedores e, portanto, mais empregos”.

Importação como Ponte ou como Ameaça?
O dirigente também alertou sobre o impacto: se para fabricar um veículo completo no Brasil são necessários dez trabalhadores, em operações CKD e SKD são necessários apenas dois a três. Um cenário que, se generalizado, poderia significar uma queda de 70% nos empregos gerados.
O crescimento das importações não é, em si, negativo. A importação pode representar a primeira etapa de um processo de industrialização – permitindo conhecer o mercado, construir marca, ganhar escala e preparar o terreno para investimentos futuros.
De fato, a China está sabendo aproveitar essa oportunidade como nenhum outro país, e alguns fabricantes chineses já anunciaram sua intenção de não apenas vender veículos no Brasil, mas produzi-los localmente.
O desafio para o Brasil, no entanto, é encontrar o equilíbrio certo: permitir que as empresas usem a importação para introduzir tecnologias e formar mercado, mas que, à medida que os volumes aumentem, haja um estímulo progressivo à produção local.
Em contraste com o dinamismo das importações, as exportações brasileiras de veículos seguem em queda. Nos sete primeiros meses de 2026, foram exportadas 255.900 unidades – 20,8% menos que as 323.000 registradas no mesmo período de 2025. O principal fator é a retração da demanda argentina, que caiu 35,4% no acumulado do ano.
Com exceção da Colômbia, foram registradas quedas nos embarques brasileiros para todos os demais países da América Latina.
Como destacou Igor Calvet, a política industrial deve atuar na janela de vulnerabilidade que se abriu – não fechando o mercado ou impedindo a concorrência , mas criando condições para que o extraordinário crescimento do mercado brasileiro também se traduza em investimento produtivo local.
O espaço ideal para as montadoras na América Latina
O Tour Latam Mobility 2026 chegará a Santiago, no Chile, no dia 25 de agosto, reunindo especialistas e atores estratégicos para continuar fortalecendo o ecossistema de mobilidade sustentável na região.
O evento terminará na Cidade do México nos dias 12 e 13 de outubro, juntamente com o Climate Economy Forum, em um encontro que reunirá líderes do setor para continuar impulsionando a transição para sistemas de transporte mais eficientes, sustentáveis e de baixas emissões na América Latina.
A transição já está em curso. O Tour 2026 do Latam Mobility será o ponto de encontro para acelerar decisões, conectar atores‑chave e construir, de forma colaborativa, a mobilidade sustentável da América Latina.

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