Microrredes solares ainda são minoria na Pan-Amazônia, mas estudo aponta modelo para expansão

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As microrredes solares ainda representam uma parcela reduzida dos projetos de eletrificação implantados na Pan-Amazônia, mas reúnem características que podem servir de referência para ampliar o acesso à energia em comunidades isoladas. É o que mostra o estudo “Políticas públicas e experiências de acesso à energia: da agenda internacional às soluções comunitárias na Pan-Amazônia“, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).

Em entrevista exclusiva à pv magazine Brasil, o analista de projetos do instituto, Fabio Galdino dos Santos, detalhou dados técnicos levantados durante a pesquisa e explicou por que essas experiências podem orientar futuras políticas públicas para a região.

Entre os 223 projetos-piloto avaliados pelo IEMA, apenas seis são microrredes solares. Todas utilizam sistemas de armazenamento em baterias e, juntas, somam 77 kWp de potência instalada, com geração anual mínima estimada em 87 MWh. Considerando todos os projetos analisados pelo estudo, a capacidade instalada alcança aproximadamente 519 kWp, com geração anual de cerca de 660 MWh.

“A participação das microrredes solares mapeadas foi de seis projetos. Todas elas possuem armazenamento”, afirmou Santos.

Segundo ele, embora ainda pouco numerosas, essas iniciativas demonstram o potencial da combinação entre geração fotovoltaica e armazenamento para atender localidades onde a expansão da rede elétrica convencional é complexa ou economicamente inviável.

Lítio avança, mas chumbo-ácido ainda predomina nas microrredes

Fabio Galdino dos Santos. Analista de projetos do IEMA. | Imagem: IEMA

O levantamento também mostra que não há uma tecnologia dominante quando se considera o conjunto dos projetos avaliados. Foram identificadas 136 baterias de íon de lítio e 135 baterias de chumbo-ácido, indicando uma divisão praticamente equilibrada entre as duas tecnologias.

Nas microrredes solares, entretanto, o cenário ainda favorece as baterias convencionais: quatro das seis instalações utilizam chumbo-ácido, enquanto duas empregam baterias de íon de lítio.

De acordo com o analista do IEMA, a escolha está diretamente relacionada às características técnicas e à infraestrutura disponível para o descarte dos equipamentos. As baterias de íon de lítio têm sido adotadas nos projetos mais recentes por apresentarem maior durabilidade e um tempo de vida útil bastante mais ampliado”, explicou.

Por outro lado, ele observa que a tecnologia chumbo-ácido continua apresentando uma vantagem importante para projetos em regiões remotas.”As baterias de chumbo-ácido possuem um processo de logística reversa e reciclagem muito mais estabelecido no Brasil em comparação com as de lítio, cujo processo de logística reversa ainda precisa ser estruturado e nem sempre é economicamente viável”, disse.

Vila Limeira é referência para novos projetos

Entre as iniciativas analisadas pelo IEMA, a microrrede implantada na Vila Limeira, na Amazônia brasileira, foi apontada como um dos principais exemplos para futuras expansões. Desenvolvido pelo WWF em parceria com órgãos públicos e a própria comunidade, o sistema combina geração fotovoltaica, baterias de lítio e um gerador a diesel utilizado apenas como backup.

Para Santos, o diferencial do projeto vai além da tecnologia empregada. “Trata-se de uma solução construída em conjunto com a comunidade, que inclui um modelo de gestão e um fundo comunitário destinado à reposição periódica das baterias”, afirmou.

Segundo ele, essa estrutura aumenta a sustentabilidade do empreendimento e reduz o risco de descontinuidade após o encerramento dos investimentos iniciais.

Gargalo está na implantação, não na regulamentação

Ao contrário do que frequentemente é apontado no setor elétrico, o IEMA não considera que a regulamentação seja hoje o principal entrave para ampliar as microrredes na Amazônia. “As resoluções normativas da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já são muito bem definidas e contemplam uma gama ampla de soluções, mas as dificuldades logísticas fazem com que, em alguns casos, as distribuidoras levem mais de um ano e meio para concluir a construção das microrredes”, explicou.

Lições para o Luz para Todos

As experiências analisadas pelo estudo também trazem recomendações para a nova etapa do Programa Luz para Todos. Um dos principais aprendizados está na participação das comunidades desde o planejamento dos projetos.

“Os diagnósticos foram construídos junto com as lideranças locais para dimensionar os sistemas de acordo com a demanda real”, disse.

Essa abordagem ganha importância com a ampliação do programa para atender usos produtivos da energia. Segundo o analista, “o envolvimento comunitário na fase de construção do diagnóstico é um caminho fundamental para que a política pública obtenha resultados satisfatórios”, afirmou.

Em reportagem publicada anteriormente, o estudo do IEMA identificou cerca de 5 milhões de pessoas sem acesso à energia elétrica pública e de qualidade na Pan-Amazônia e constatou que 99,7% dos projetos avaliados reduziram o consumo de diesel, reforçando o potencial das soluções renováveis para eletrificação de comunidades isoladas.

Embora o instituto não pretenda repetir a avaliação dos mesmos projetos, Santos informou que o próximo passo será ampliar o mapeamento de experiências de eletrificação em outras regiões. “Nossa intenção é expandir as avaliações de projetos-piloto na Amazônia e, futuramente, também para o Nordeste”, concluiu.

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