Os dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) sobre o comércio bilateral dos países nos nove primeiros meses do ano mostram trajetórias distintas para duas tecnologias da transição energética. Enquanto as importações de veículos eletrificados dispararam, principalmente antes de um aumento no imposto de importação, que ocorreu em julho, as compras de painéis solares caíram um terço. Ao todo, considerando todos os setores da economia, o comércio bilateral atingiu US$ 143,3 bilhões, com superávit brasileiro de US$ 26,1 bilhões.
Veículos eletrificados
As importações brasileiras de veículos elétricos da China cresceram 341% entre janeiro e setembro de 2026, na comparação com igual período de 2025, alcançando cerca de US$ 2,4 bilhões. Já as compras de híbridos plug-in avançaram 89%, para US$ 2,87 bilhões, enquanto as de híbridos convencionais cresceram 248%, somando US$ 641 milhões.
Juntas, as três categorias de eletrificados responderam por cerca de 10% das importações brasileiras provenientes da China. O país concentrou 86% das compras externas brasileiras de veículos eletrificados.
A análise mensal das importações reflete uma mudança na política tarifária brasileira. As compras cresceram de forma contínua de janeiro a junho, quando atingiram US$ 1,87 bilhão. Em julho, caíram para US$ 22 milhões, após a elevação das alíquotas para 35%, ante percentuais anteriores que variavam entre 25% e 30%.
No entanto, nos meses seguintes, as importações voltaram a crescer. A retomada indica a continuidade das compras após o choque inicial provocado pela mudança tarifária, embora os dados do período não permitam concluir, isoladamente, quais fatores explicam a recuperação.
Importações de painéis solares recuam
Na direção oposta à dos veículos eletrificados, as importações brasileiras de painéis solares chineses somaram US$ 747 milhões entre janeiro e setembro, queda de 33,3% em valor e de 40% em peso na comparação anual.
Os equipamentos elétricos também tiveram participação relevante na pauta de importações brasileiras provenientes da China, representando 9,6% das compras do segmento de indústria de transformação, segundo o levantamento.
Na distribuição regional do comércio, Santa Catarina se destacou como o segundo maior estado importador de produtos chineses, com compras concentradas, entre outros itens, em equipamentos elétricos e painéis solares. O Espírito Santo, terceiro maior importador estadual de produtos chineses, teve destaque na aquisição de veículos eletrificados.
Exportações de petróleo e lítio crescem
Além das importações de tecnologias associadas à transição energética, o comércio bilateral foi marcado pelo avanço das exportações brasileiras de petróleo bruto. As vendas do produto para a China cresceram 49% em valor, atingindo o recorde de US$ 21,8 bilhões, e 27% em volume, para 39,7 milhões de toneladas.
A China absorveu metade de todo o petróleo bruto exportado pelo Brasil no período. O produto respondeu por 25,8% das exportações brasileiras destinadas ao mercado chinês, consolidando sua importância na pauta bilateral.
O Rio de Janeiro liderou as vendas brasileiras para o país asiático: 89% do petróleo exportado à China teve origem no estado. O produto representou 94% das exportações fluminenses destinadas ao mercado chinês.
O relatório também registrou crescimento de 339% nas exportações brasileiras de espodumênio, mineral rico em lítio utilizado na fabricação de baterias, que alcançaram US$ 172,3 milhões. A China absorveu 97% das vendas externas brasileiras do produto, originado quase integralmente em Minas Gerais.
A combinação de importações de veículos eletrificados e equipamentos para geração solar com exportações de petróleo e minerais utilizados em baterias evidencia a diversidade dos fluxos comerciais ligados à energia entre os dois países. Enquanto o Brasil amplia as vendas de matérias-primas e combustíveis, a China mantém posição central no fornecimento de tecnologias para a eletrificação dos transportes e a geração renovável.
Comércio bilateral supera US$ 143 bilhões
No conjunto dos setores, as exportações brasileiras para a China cresceram 12% nos nove primeiros meses de 2026, alcançando US$ 84,7 bilhões. As importações avançaram 9,9%, para US$ 58,6 bilhões, resultando em superávit comercial brasileiro de US$ 26,1 bilhões.
O comércio bilateral totalizou US$ 143,3 bilhões no período, consolidando a China como principal parceiro comercial do Brasil.
Além do petróleo e dos produtos associados à transição energética, o desempenho das exportações foi influenciado pela abertura do mercado chinês para produtos como DDG, coproduto da produção de etanol de milho, e sorgo. Na direção contrária, as exportações brasileiras de carne bovina para a China recuaram 8,5%, em meio à aplicação de cotas e sobretaxas pelo país asiático.
Os resultados mostram que a relação comercial entre Brasil e China combina a expansão de mercados ligados à eletrificação com a continuidade da dependência de commodities na pauta exportadora brasileira. No setor energético, os números também revelam trajetórias distintas: enquanto as compras de veículos eletrificados chineses avançaram, as importações de painéis solares diminuíram no acumulado do ano.



