A nona edição do Latam Mobility México 2026 foi o palco para que o diretor-geral da Flix México, Carlos Magaña, fizesse uma apresentação sobre as macrotendências do transporte de passageiros, na qual compartilhou sua visão sobre o estado atual e o futuro da indústria do transporte em nível global.
Durante sua intervenção, Magaña apresentou dados reveladores sobre o tamanho do mercado, as três forças que estão transformando o setor (sustentabilidade, tecnologia e intermodalidade) e os desafios específicos que o México enfrenta para acelerar sua transição para um modelo mais competitivo, inovador e sustentável.
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Flix: 13 Anos de História e Presença em 46 Países
Carlos Magaña iniciou sua apresentação contextualizando a magnitude da Flix, empresa alemã que surgiu há 13 anos a partir da regulamentação do mercado de transporte na Alemanha. Desde então, a companhia cresceu até operar em 46 países, com uma rede que conecta mais de 8.700 destinos e que transportou cerca de 600 milhões de passageiros em todo o mundo.
Magaña destacou que a Flix chegou ao México em maio de 2025 com um modelo asset-light (ativos leves), por meio do qual a empresa se encarrega do planejamento de rotas, do marketing, das vendas e dos padrões de serviço, enquanto os operadores locais mantêm a operação diária, a contratação de motoristas e as permissões e autorizações.
O executivo da Flix prosseguiu com uma contextualização da magnitude da indústria do transporte de passageiros em nível global. Segundo dados da The Business Research Company, o mercado de transporte terrestre de passageiros passou de 704,31 bilhões de dólares em 2025 para 763,43 bilhões de dólares em 2026, com uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 8,4%.
Para dimensionar esse valor, Magaña o comparou com outros setores: 1,5 vezes o valor da indústria de smartphones, sete vezes o valor da indústria cinematográfica global e comparável ao valor da indústria da aviação. Além disso, citou projeções da Deloitte que estimam que até 2030 essa indústria alcançará um valor de 1,7 trilhão de dólares.

Sustentabilidade: O Primeiro Pilar da Transformação
A primeira das três macrotendências identificadas por Magaña foi a sustentabilidade. O executivo foi claro ao afirmar que o modelo atual baseado em “extrair, produzir, consumir e descartar” é obsoleto, e que a indústria está migrando para um paradigma de “reduzir, reutilizar, reciclar e regenerar”.
Magaña ofereceu uma visão comparativa de como diferentes regiões do mundo estão abordando esse desafio. Na Europa, particularmente na Escandinávia, a legislação está desempenhando um papel fundamental como incentivo para a transição. Na Ásia, especificamente na China, as linhas de produção estão sendo significativamente modificadas para produzir veículos com energias limpas. O objetivo global é claro: até 2035, espera-se que 90% dos novos motores deixem de ser de combustão, e até 2040 busca-se alcançar zero emissões.
No entanto, o executivo levantou uma pergunta pertinente: “O que a América Latina e o México estão fazendo a respeito?“. A resposta, segundo Magaña, é que a região apresenta uma defasagem significativa em comparação com a Europa e a Ásia, embora encontros como os da Latam Mobility representem espaços cruciais para acelerar o diálogo e a ação.
No caso específico do México, Magaña ressaltou que o transporte de passageiros representa entre 25% e 30% das emissões de gases de efeito estufa, um percentual superior à média mundial de 16%. Por isso, a transição para frotas mais limpas (sejam elétricas, híbridas, de hidrogênio ou de gás) deve estar alinhada com as metas ambientais e regulatórias do país.
O executivo também destacou que as vendas globais de veículos elétricos alcançaram 20 milhões de unidades em 2025, e estima-se que até 2026 crescerão mais 22%. No entanto, esse número ainda representa apenas 25% das vendas totais de veículos, o que evidencia uma significativa área de oportunidade.
Entre os desafios estruturais que freiam uma adoção mais agressiva, citou as baterias e as matérias-primas, a capacidade da rede elétrica, a infraestrutura de carregamento e, sobretudo, o preço para tornar essa transição acessível.

Tecnologia e Inovação: Digitalização, IA e Automação
A segunda macrotendência abordada por Magaña foi a tecnologia e a inovação. O executivo explicou que o desenvolvimento tecnológico está mudando não apenas o comportamento do consumidor, mas também a forma como as empresas desenvolvem sua proposta de valor. No setor de transporte, identificou três áreas fundamentais de impacto:
A primeira é a digitalização baseada em dados. Os principais elementos são o uso de cartões inteligentes, o GPS nas frotas, os sensores IoT, as câmeras e outros dispositivos que geram informações para um monitoramento em tempo real.
Tudo isso facilita a otimização de rotas, as reservas online e o pagamento por aproximação, e mencionou casos práticos em cidades como Singapura e Londres, referências no uso de analítica avançada para a gestão de frotas de transporte de passageiros.
A segunda área é a inteligência artificial (IA) e o aprendizado de máquina, aplicados à otimização de rotas, à manutenção preditiva, à gestão de demanda e à segurança operacional. Magaña citou exemplos na Escandinávia, onde a IA controla a sincronização de semáforos urbanos, e em Barcelona, onde é utilizada para detectar infrações em faixas exclusivas e coordenar semáforos.
A terceira área é a automação e a internet das coisas, e mencionou que empresas como a Waymo já estão testando robotáxis em ambientes urbanos com resultados satisfatórios. Da mesma forma, a infraestrutura urbana já integra sensores de conectividade que permitem pedágio urbano e estacionamento inteligente.
Intermodalidade: A Conectividade como Fortaleza
A terceira macrotendência identificada por Magaña foi a intermodalidade. O executivo ressaltou que a era unidimensional ficou para trás, e hoje existem múltiplos exemplos de conectividade entre serviços.
Na Alemanha, por exemplo, os viajantes podem comprar uma passagem de trem junto com um voo da Lufthansa para chegar a uma cidade satélite. No aeroporto de Amsterdã, já existe uma solução integrada com a estação ferroviária.
No caso do México, Magaña apontou que a intermodalidade está se tornando relevante por meio dos hubs de conectividade, que permitem soluções como a chegada de ônibus e a conexão com bicicletas ou táxis.
O executivo também mencionou a aliança entre a Flix e o Trem Maia, anunciada em janeiro de 2026, que permite aos viajantes comprar passagens do Trem Maia por meio da plataforma da Flix, fortalecendo a conectividade multimodal no sudeste do México.

O Mercado Mexicano: Terceiro do Mundo, mas com Freios Estruturais
Ao entrar na análise do mercado mexicano, Magaña ofereceu dados claros. O México é o terceiro maior mercado do mundo em transporte de passageiros por ônibus, superado apenas pela Índia e pela China, com um valor estimado de 150 bilhões de pesos. Isso se explica pela quantidade de cidades (mais de 46 com mais de 500.000 habitantes), pela extensão geográfica e pela distribuição de renda, que nem sempre permite à população comprar um automóvel ou viajar de avião.
Segundo pesquisas da Secretaria de Infraestrutura, Comunicações e Transportes (SICT), nove de cada 10 passageiros que viajam o fazem de ônibus, o que torna esse meio o mais importante do país.
No entanto, Magaña identificou quatro freios importantes no mercado mexicano. O primeiro é a defasagem na inovação, derivada de uma concentração da oferta em que mais de 90% das rotas são fornecidas e operadas por um pequeno grupo de operadores. Esse comportamento, apontou, bloqueou de forma sistêmica o desenvolvimento de inovação e resultou em preços muito altos em comparação com outros mercados.
O segundo freio é a experiência limitada do consumidor. Magaña explicou que hoje o consumidor busca soluções integrais com uma experiência ponta a ponta, desde o processo de pré-compra até o trajeto e o pós-viagem, mas no México a oferta está muito concentrada na venda de passagens e na experiência de deslocamento.
O terceiro freio é o impacto ambiental. O executivo reiterou que o transporte de passageiros no México representa entre 25% e 30% das emissões de gases de efeito estufa, o que evidencia uma oportunidade significativa para a transição para frotas mais limpas.
O quarto freio é a desconexão entre os incentivos e a realidade do mercado. O executivo apontou que, embora as pequenas e médias empresas representem 98% da capacidade produtiva do país, os incentivos estão muito mais concentrados nos grandes agentes do mercado.
O Modelo da Flix
Diante desse panorama, Magaña apresentou o modelo de negócio da Flix como uma alternativa para dinamizar o mercado mexicano. A empresa opera sob um esquema de parceria com pequenos e médios empresários, no qual a empresa contribui com o planejamento de rotas, o marketing, as vendas e os padrões de serviço, enquanto o operador local se encarrega da operação diária, da contratação de motoristas e das permissões e autorizações.
O mecanismo de remuneração é um dos elementos centrais do esquema: a Flix propõe que o operador receba até 70% da receita líquida gerada por cada passagem vendida, ou uma renda mínima mensal garantida, o que for maior.
Essa estrutura busca reduzir a exposição dos operadores às flutuações da demanda e oferecer um fluxo de caixa mais previsível, ao mesmo tempo que permite à Flix ampliar sua rede por meio de ativos que pertencem aos seus parceiros.
Magaña destacou que o México conta com cerca de 27.800 permissionários de passageiros, dos quais 84% operam frotas com menos de cinco unidades, 15% correspondem a empresas com entre seis e 100 ônibus, e menos de 1% possuem mais de 100 unidades.
“Dos 27.800 permissionários de passageiros existentes no país, cerca de 84% operam frotas com menos de cinco unidades. É um mercado com um potencial gigantesco, cuja concentração nas mãos de poucos tem limitado o crescimento dos pequenos empresários“, apontou Magaña.

Evoluir ou Desaparecer: A Mensagem Final
No encerramento de sua apresentação, Carlos Magaña foi categórico: “No transporte de passageiros há dois caminhos: evoluir ou desaparecer“. Citando uma frase que considera poderosa, apontou que “as empresas que não inovam não desaparecem de repente, vão se tornando irrelevantes aos poucos“.
Além disso, afirmou que o México é um mercado fértil onde, se a indústria privada, os reguladores, os diferentes agentes e o consumidor se alinharem para acelerar a transformação, o país poderá experimentar um avanço significativo alinhado com o que se está vendo em outros mercados. A Flix, ressaltou, “já optou pela inovação” e está “muito satisfeita com o mercado mexicano“.
A apresentação da Flix no Latam Mobility México 2026 deixou uma conclusão inequívoca: o transporte rodoviário de passageiros é uma indústria de escala global que está sendo transformada pela sustentabilidade, pela tecnologia e pela intermodalidade, e o México, como terceiro maior mercado do mundo, tem a oportunidade e a responsabilidade de acelerar sua própria transição.
O modelo da Flix, baseado na parceria com operadores locais e em uma abordagem asset-light, posiciona-se como uma alternativa viável para dinamizar um mercado que, apesar de seu tamanho, carrega uma defasagem estrutural que exige a colaboração de todos os agentes para ser superada.
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