O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) definiu diretrizes para validar os modelos computacionais utilizados em estudos elétricos de usinas solares fotovoltaicas, eólicas e sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS). O procedimento estabelece critérios para verificar se as simulações representam adequadamente o comportamento dos equipamentos reais e prevê que a validação seja realizada uma única vez por família de equipamentos, sem necessidade de repetição para cada empreendimento. O processo e os principais requisitos estão resumidos no infográfico publicado pelo ONS.
Os modelos computacionais são representações matemáticas que permitem simular como uma usina reage a diferentes condições da rede elétrica, como variações de tensão e frequência ou perturbações no sistema. Essas análises ajudam o ONS a avaliar o comportamento das instalações e a identificar possíveis limitações para a operação segura do Sistema Interligado Nacional (SIN).
A confiabilidade dessas simulações depende da qualidade dos modelos fornecidos pelos fabricantes e agentes responsáveis pelos empreendimentos. Quando a representação computacional não corresponde ao comportamento real dos equipamentos, os estudos podem apresentar resultados imprecisos e comprometer a avaliação das condições de operação da rede.
O tema ganhou relevância com o aumento da participação de fontes renováveis conectadas por inversores. Em relatório de planejamento da operação, o ONS já apontou divergências entre o desempenho informado pelos agentes e o comportamento real de usinas renováveis, com impactos na utilização dos recursos de geração e no escoamento de energia.
Validação em duas etapas
As diretrizes propostas pelo ONS estabelecem dois níveis de validação, denominados N1 e N2. O primeiro compara o comportamento do equipamento real com sua representação computacional detalhada, enquanto o segundo verifica a compatibilidade entre esse modelo e outra representação utilizada nos estudos dinâmicos do sistema elétrico.
No nível N1, os testes comparam o equipamento real com o modelo de transitórios eletromagnéticos, desenvolvido no ambiente de simulação PSCAD. O objetivo é verificar se o modelo reproduz adequadamente as respostas elétricas observadas no equipamento.
No nível N2, o modelo eletromagnético é comparado com um modelo fasorial dinâmico de sequência positiva, utilizado em outras análises da rede. A etapa busca assegurar a compatibilidade entre as representações computacionais empregadas nos estudos elétricos.
Os dois níveis exigem arquivos de simulação, registros dos testes, manual do modelo e relatório de validação. Também há entregáveis específicos para cada etapa, incluindo modelos PSCAD no N1 e modelos ANATEM/Organon no N2.
Validação única por família de equipamentos
Uma das principais mudanças propostas é permitir que a validação seja realizada uma única vez por família de equipamentos, considerando o mesmo fabricante e a mesma versão. Com isso, o procedimento não precisará ser repetido para cada empreendimento que utilize equipamentos enquadrados nessas condições.
A medida pode reduzir a duplicação de testes e análises técnicas por fabricantes e desenvolvedores de projetos, além de padronizar a documentação utilizada pelo operador. A validação do modelo, entretanto, não elimina automaticamente os demais estudos e requisitos aplicáveis à conexão de cada empreendimento.
As regras também estabelecem critérios para validar o controlador da usina, conhecido pela sigla PPC (Power Plant Controller), responsável por coordenar a operação dos inversores de uma planta solar ou dos aerogeradores de um parque eólico.
No N1, a validação do controlador pode ser realizada em conjunto com o inversor ou aerogerador ou em processos separados. No N2, a análise deve considerar o conjunto integrado.
Baterias devem ser validadas em modo Grid-Forming
Para os sistemas de armazenamento de energia em baterias, o ONS estabelece que a validação seja realizada no modo Grid-Forming. Nessa configuração, o inversor pode estabelecer referências de tensão e frequência, contribuindo para o comportamento elétrico da rede.
Já o modo Grid-Following, no qual o equipamento acompanha as referências estabelecidas pela rede, é considerado uma condição degradada para a finalidade prevista nas diretrizes. Por isso, o documento dispensa a entrega de modelo e a validação específica nessa condição.
A orientação ganha relevância com a perspectiva de expansão dos sistemas de armazenamento no Brasil, incluindo projetos que poderão contribuir para a flexibilidade operacional e o suporte à rede elétrica.
Contribuições do setor
O ONS disponibilizou o Guia de Validação para usinas eólicas, fotovoltaicas e BESS, além da Nota Técnica ONS NT-ONS DPL 0436/2026, que apresenta requisitos mínimos para modelos de equipamentos baseados em eletrônica de potência utilizados em estudos de transitórios eletromagnéticos.
Os documentos estão disponíveis no portal SINtegre, na seção de integração de instalações e estudos pré-operacionais. Segundo informações divulgadas sobre a iniciativa, fabricantes e agentes do setor podem encaminhar dúvidas sobre as diretrizes até 10 de novembro de 2026. O ONS prevê publicar respostas em um documento de apoio até 30 de novembro.
A proposta busca aumentar a consistência dos modelos utilizados nos estudos elétricos e tornar mais uniforme o processo de avaliação técnica de equipamentos conectados ao SIN por meio de eletrônica de potência.



