O mercado brasileiro de armazenamento de energia vive uma mudança de patamar. Após anos marcado por projetos-piloto e aplicações pontuais, o setor começa a entrar em uma fase de consolidação, impulsionado pela expansão da demanda, pelo amadurecimento tecnológico e pela expectativa em torno dos primeiros leilões específicos para baterias.
Essa é a avaliação de do diretor executivo Comercial e de Novos Negócios da UCB Power, Vinicius Berná, que define 2025 como o ano da “inflexão comercial” do armazenamento no Brasil e 2026 como o início de sua institucionalização.
“Minha leitura é que 2025 representou a inflexão comercial do mercado brasileiro, enquanto 2026 está sendo o ano da sua institucionalização. O armazenamento deixa de ser formado predominantemente por projetos-piloto e passa a contar com portfólios replicáveis, projetos maiores, novos modelos de negócio e uma perspectiva concreta de contratação utility-scale por meio dos primeiros leilões específicos para armazenamento”, afirma Berná.
Segundo o executivo, esse movimento é confirmado pelos números mais recentes do setor. Com base em dados da Greener, Berná afirma que fabricantes e provedores de soluções receberam pedidos equivalentes a 730 MWh em 2025, volume semelhante ao acumulado dos cinco anos anteriores. Apenas no primeiro trimestre de 2026 foram registrados mais 504 MWh em novos pedidos, elevando o volume de sistemas vendidos ou contratados no país para aproximadamente 1,9 GWh. O diretor ainda, entretanto, que esse indicador não corresponde à capacidade efetivamente instalada, estimada em 852 MWh no levantamento público mais recente da consultoria.
A aceleração da demanda também se reflete na operação da própria UCB Power. Segundo Berná, a produção de baterias estacionárias de lítio-ferro-fosfato (LFP) passou de aproximadamente 47,9 mil unidades em 2024 para 53 mil unidades em 2025, crescimento de cerca de 10%.
LFP permanece dominante, mas evolução vai além da química

Na avaliação do executivo, a tecnologia LFP continuará predominando nos próximos anos no mercado brasileiro de armazenamento estacionário, acompanhando uma tendência observada globalmente.
Segundo Berná, embora ainda não exista uma base pública consolidada sobre a participação de cada química no Brasil, a tecnologia responde pela maior parte dos novos projetos e representou cerca de 90% das novas instalações globais de armazenamento por baterias em 2025.
“A liderança da LFP é explicada pela combinação de custo competitivo, longa vida em ciclos, boa estabilidade térmica, eficiência, maturidade industrial, ampla disponibilidade de fornecedores e maior bancabilidade. Para aplicações estacionárias, ela oferece hoje uma relação muito favorável entre segurança, desempenho e custo total de propriedade”, afirma Berná.
O executivo avalia que a próxima etapa da evolução tecnológica não será definida apenas pelo desenvolvimento de novas químicas.
Embora as baterias de sódio apareçam como a principal tecnologia emergente para aplicações estacionárias — especialmente pela maior disponibilidade de matérias-primas —, Berná acredita que elas ainda precisarão avançar em escala industrial, cadeia de suprimentos, densidade energética e competitividade antes de disputar espaço com a LFP. Segundo ele, a UCB Power já possui experiência prática com essa tecnologia em projetos de microrredes na Amazônia.
Além das baterias de sódio, o executivo destaca as baterias de fluxo e outras soluções de longa duração como tecnologias promissoras para aplicações específicas.
“As próximas grandes evoluções não estarão somente na química das baterias. Sistemas de gerenciamento de energia (EMS) mais inteligentes, monitoramento remoto, cibersegurança, segurança contra incêndio e inversores com capacidade grid-forming serão cada vez mais relevantes para diferenciar um sistema completo e confiável”, afirma.
Utility-scale, infraestrutura crítica e microrredes lideram oportunidades
Na avaliação da UCB Power, o crescimento do armazenamento brasileiro deverá ocorrer em diferentes frentes, cada uma impulsionada por necessidades específicas.
O segmento utility-scale aparece como o principal vetor de expansão em volume, impulsionado pelos futuros leilões de reserva de capacidade, que deverão criar contratos de longo prazo e reconhecer formalmente o armazenamento como um ativo estratégico para a segurança e a flexibilidade do sistema elétrico.
Outra frente considerada prioritária envolve consumidores comerciais, industriais e de infraestrutura crítica, como data centers, hospitais, telecomunicações, indústrias e grandes empreendimentos comerciais.
“Nesses clientes, o armazenamento combina backup, redução de demanda na ponta, deslocamento de carga, integração com geração solar e melhoria da qualidade da energia. São aplicações em que o benefício econômico não depende apenas da arbitragem tarifária, mas também do prejuízo evitado com interrupções”, afirma Berná.
O executivo também destaca o potencial dos sistemas isolados e das microrredes, especialmente em regiões onde a substituição parcial ou total da geração a diesel pode gerar benefícios econômicos, ambientais e sociais, além de ampliar o acesso confiável à eletricidade. O mercado residencial, por sua vez, deve continuar crescendo associado principalmente à geração fotovoltaica e à busca por soluções de backup, embora permaneça mais dependente do perfil tarifário, do acesso ao financiamento e da percepção de valor atribuída pelo consumidor à autonomia energética.
Queda dos preços amplia competitividade
A redução dos preços das baterias continua sendo um dos principais fatores de expansão do mercado.
Segundo Berná, dados da BloombergNEF mostram que o preço médio global dos packs destinados ao armazenamento estacionário atingiu US$ 70/kWh em 2025, redução de aproximadamente 45% em relação ao ano anterior. No Brasil, o benchmark da Greener para um sistema de 500 kW/1 MWh caiu de cerca de R$ 1,88/Wh em 2025 para R$ 1,73/Wh em 2026, redução adicional próxima de 8%.
O executivo ressalta, entretanto, que o custo de um projeto vai além do preço das baterias, envolvendo inversores, sistemas de gerenciamento (BMS e EMS), climatização, proteção contra incêndio, obras civis, serviços de implantação e manutenção ao longo da vida útil.
“Não existe uma bateria vencedora para todas as aplicações. A escolha deve considerar o ciclo de uso, a autonomia necessária, o espaço disponível, a manutenção, a criticidade da carga e o custo total ao longo da vida útil”, afirma Berná.
Segundo ele, embora as baterias de chumbo-ácido continuem competitivas em aplicações de backup de curta duração e baixa frequência de ciclagem, a tecnologia LFP torna-se cada vez mais vantajosa quando analisado o custo total de propriedade, especialmente em projetos com uso intensivo, maior autonomia ou restrições de espaço.
Leilões podem estruturar uma indústria nacional
Para o diretor da UCB Power, o primeiro leilão brasileiro específico para armazenamento representa mais do que uma oportunidade de contratação de novos projetos. Na avaliação do executivo, a iniciativa poderá estabelecer uma referência de preços, atrair investimentos, estruturar fornecedores e acelerar o desenvolvimento de padrões técnicos, regulatórios e de segurança para todo o setor.
Ele considera positiva a proposta de separar um produto destinado a sistemas com baterias de fabricação nacional de outro aberto à concorrência geral, por entender que o modelo preserva a competição ao mesmo tempo em que estimula o desenvolvimento da cadeia produtiva brasileira.
“Mais do que contratar os primeiros projetos, esperamos que os leilões criem um mercado tecnicamente disciplinado, financeiramente sustentável e capaz de desenvolver uma cadeia industrial duradoura no país”, conclui o diretor executivo Comercial e de Novos Negócios da UCB Power.



