Siemens, Mercado Libre e Estafeta Mexicana Debatem Barreiras e Oportunidades da Eletromobilidade no México

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Enquanto no Brasil uma coalizão liderada pela Volkswagen já eletrifica o corredor Rio de Janeiro–São Paulo, e na Colômbia as empresas avançam na rota Bogotá–Cartagena, no México a pergunta deixou de ser se o transporte de carga pode ser eletrificado. A pergunta agora é quem dará o primeiro passo.

Por isso, no âmbito do Latam Mobility México 2026, a conversa “Aposta de Grandes Empresas pela Eletrificação do Transporte” reuniu Siemens, Mercado Libre e Estafeta Mexicana para responder a essa pergunta com números, compromissos e um roteiro concreto.

A moderação ficou a cargo de Isabel Studer, presidente e diretora executiva da Sustentabilidade Global, que abriu o painel com uma afirmação crítica: “A transição energética é uma transformação industrial. Não vai acontecer até que as empresas invistam.”

Além disso, enfatizou que essa transformação deve ser equitativa, pois do contrário o México continuará sendo um mercado com muitas pessoas, mas muito pequeno para que as novas tecnologias sejam acessíveis, e contextualizou a urgência de eletrificar o transporte de carga apontando a volatilidade do diesel e os compromissos corporativos de sustentabilidade.

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Três Empresas, Três Apostas, uma Mesma Direção

Fernando Sierra, gerente de Sustentabilidade Ambiental do Mercado Libre, foi o primeiro a quebrar o gelo com um número contundente: a empresa já opera 4.500 veículos elétricos na América Latina, dos quais 1.000 circulam no México como parte da icônica frota de vans amarelas que distribuem pacotes todos os dias. Antes do fim do ano, o Mercado Libre incorporará 150 veículos adicionais.

“Estamos apostando muito forte na eletromobilidade”, afirmou Sierra. Mas por trás desse número há uma batalha interna que o executivo descreveu sem rodeios: convencer a área financeira. “Temos que demonstrar que, sobretudo na última milha, o TCO está caindo e já é mais competitivo”, explicou. A chave, disse, está em que o contexto tecnológico muda rápido: os veículos têm cada vez mais autonomia e melhor desempenho, e a diferença de custo em relação à combustão se reduz mês a mês.

Verónica Sobrino, gerente jurídica de Operações da Estafeta Mexicana, tomou a palavra para trazer a conversa para o dia a dia de uma empresa que, como ela mesma destacou, “opera 365 dias por ano, 24 horas por dia”. A empresa conta com 35 unidades de última milha (entre Sprinter, Vans e bicicletas 100% elétricas) e já opera duas unidades de Transporte Federal de Carga 100% elétricas.

Sobrino revelou que o eixo que guiou a migração foi uma questão social, mas que o fator financeiro foi igualmente determinante: “Saber quanto já estávamos gastando em diesel e gasolina foi um fator super importante”. Seu depoimento trouxe uma dimensão pouco comum nos painéis de eletromobilidade, o olhar jurídico e contratual de uma empresa que não pode parar suas operações nem por um segundo.

Bernardo Flores Reyes, Machine Builder Account Manager da Siemens, elevou a ambição com um compromisso global: a Siemens tem a meta de que 100% de sua frota esteja eletrificada até 2030, e no fim de 2025 já alcançava quase 60%. “A eletrificação não é algo que vai acontecer no futuro, mas algo que pode ser decidido a partir de agora”, sentenciou.

Do seu posto, o papel da Siemens é claro: colocar na mesa as ferramentas e tecnologias para fechar a lacuna e democratizar a eletrificação, de modo que qualquer empresa, independentemente de seu tamanho, possa participar, seja como fornecedora ou como consumidora.

As Barreiras Reais: Autonomia, Contratos e um Arcabouço Regulatório que Não Chega

Quando Isabel Studer perguntou sobre as barreiras, Verónica Sobrino não hesitou em enumerá-las com precisão. A primeira é a autonomia: “Percorremos distâncias muito grandes. Rotas México–San Luis, México–Monterrey. As unidades de transporte federal de carga nem sempre dão esse desempenho e teríamos que fazer paradas estratégicas para carregar.”

A segunda é a questão contratual: “Ainda há essa questão de quem é o responsável. O que acontece se uma bateria estraga? O que acontece se o carregador já não funciona? Quantos carregadores deveríamos ter?” E a terceira, talvez a mais urgente, é o arcabouço regulatório. “Hoje não há uma definição de tarifas. Onde está na lei que diga que estes são os carregadores públicos e estes são os privados? Não está.” Sua conclusão foi direta: “O governo não está nos apoiando na migração para essas tecnologias mais limpas. Precisamos dessa aliança.”

Fernando Sierra complementou o diagnóstico a partir de um modelo híbrido no qual o Mercado Libre não apenas opera frota própria, mas também depende de transportadoras terceirizadas. “Estamos entendendo com elas quais incentivos precisamos colocar para que eletrifiquem sua frota”, explicou.

E esses incentivos já estão tomando forma: contratos de maior duração para mitigar o risco do investimento, prioridade na atribuição de rotas, prioridade em licitações e o aproveitamento da escala do Mercado Libre para negociar preços preferenciais com fabricantes, locadoras e donos de infraestrutura de carregamento. “Nesse ponto estamos entendendo caso por caso com cada transportadora quais são os incentivos que precisamos colocar”, detalhou.

Bernardo Flores Reyes acrescentou uma barreira que costuma passar despercebida: a infraestrutura compartilhada. “Se cada um busca ser dono de sua própria infraestrutura, os investimentos crescem, há picos de demanda e há tempos ociosos em que a infraestrutura não é usada”, advertiu. Sua proposta é clara: compartilhar infraestrutura de carregamento para tornar a eletrificação muito mais eficiente e acessível para todas as empresas, independentemente de seu tamanho.

O Task Force que Busca Eletrificar o Corredor México–Querétaro

Isabel Studer apresentou então a iniciativa que busca transformar essas reflexões em ação: o Task Force de Infraestrutura de Carregamento, um espaço pré-competitivo lançado em julho deste ano que reúne fabricantes de veículos, empresas de infraestrutura de carregamento, donos de carga e representantes setoriais.

O primeiro projeto estratégico será o corredor México–Querétaro, um dos eixos logísticos mais movimentados do país e porta de entrada para o norte e para o Bajío. Uma pesquisa aplicada entre as empresas participantes revelou que, em conjunto, as frotas planejam eletrificar 350 veículos de carga de longo percurso até 2027. “Diziam que não há demanda. Como não há demanda? Isso foi apenas uma pesquisa com 10 empresas”, destacou Studer.

A moderadora foi enfática sobre um ponto: “Não precisamos que o governo invista. Precisamos de certeza de que há essa demanda. A tecnologia existe, a demanda existe, a oferta existe.”

E acrescentou: “Não é que não vamos trazer o governo. É que todo mundo espera que o governo inicie a ação e que depois algo aconteça magicamente para nós. Por isso não vai acontecer.”

Latam Mobility México 2026

A Colaboração como Única Via Possível

Fernando Sierra descreveu o valor do Playground de Eletromobilidade com uma frase que resume o espírito do painel: “A eletromobilidade, como toda nova inovação disruptiva, não será possível sem a colaboração.”

Para o executivo do Mercado Libre, a maior contribuição desse espaço é construir juntos os dados que permitam tomar decisões corretas. “Ainda há muitos mitos na eletromobilidade. Um de nossos fornecedores de transporte de longo percurso está trazendo veículos novos que têm muito mais autonomia do que se acredita”, afirmou.

Verónica Sobrino concordou e foi além: “A eletrificação de unidades não é somente responsabilidade das transportadoras. É de toda a cadeia de suprimentos.” A executiva da Estafeta Mexicana insistiu na necessidade de trazer para a mesa a Secretaria de Energia, a Comissão Nacional de Energia e a CFE como aliadas estratégicas. “Começamos com cinco, seis, sete empresas, mas amanhã podemos ser 50”, projetou, lembrando um dado que dimensiona o desafio: 80% dos produtos que são movimentados no México o são por transporte rodoviário de cargas.

Bernardo Flores Reyes trouxe o olhar da Siemens sobre as PMEs, que representam mais de 99% dos estabelecimentos empresariais no México. “Nossa proposta de valor é disponibilizar toda a tecnologia para que diversas pequenas e médias empresas mexicanas possam construir seus próprios carregadores”, explicou.

O objetivo, disse, é reduzir as barreiras de entrada (tempos, recursos, engenharia) para que a eletrificação seja verdadeiramente democrática e a cadeia de suprimentos não dependa apenas de tecnologia estrangeira. “Do México podemos agregar esse valor”, destacou.

Isabel Studer encerrou o painel com um convite aos participantes para se juntarem à pesquisa técnica do Task Force de Infraestrutura de Carregamento e para agendar reuniões para explorar como cada empresa pode contribuir. “Se você não tem informação, não há mercados. Se queremos ter um mercado, precisamos de informação”, concluiu. A mensagem final foi inequívoca: a eletrificação do transporte de carga no México não esperará que o governo atue. As empresas já estão em movimento.

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