A YOU.ON espera fornecer em torno de 1 GW de sistemas de armazenamento em baterias com conteúdo local para projetos contratados durante o primeiro leilão de reserva de capacidade voltado para sistemas de baterias no Brasil. Para cumprir com as regras de nacionalização definidas pelo BNDES para a concorrência que acontece no dia 2 de dezembro, a empresa brasileira de engenharia fechou um acordo vinculante com a chinesa Hyperstrong.
O diretor e fundador da YOU.ON, Giorgio Seigne, disse à pv magazine Brasil que a solução credenciada junto ao BNDES — a primeira a obter o código Finame atestando o cumprimento das exigências de conteúdo local — segue a rota 1 da metodologia de nacionalização do banco.
Essa rota permite importar o bloco de corrente contínua (DC) do sistema de armazenamento, incluindo as baterias e os sistemas de conversão de potência (PCS) que, no caso da solução da YOU.ON, são fabricados e testados na China.
A escolha reduz os riscos associados à integração de equipamentos ainda sem histórico de fabricação no país. “Uma coisa é uma bateria fabricada e testada numa fábrica chinesa que já entregou gigawatts-hora para o mundo todo. E outra coisa é comprar uma bateria que, por mais que tenha uma origem reconhecida, será montada no Brasil pela primeira vez”, diz Seigne.
Já o bloco de corrente alternada (AC) do sistema, que reúne transformadores, cubículos de média tensão, painéis elétricos e centrais de alarme, entre outros componentes, exige o desenvolvimento de fornecedores locais. Parte dos equipamentos que compõem esse bloco precisa ter o próprio credenciamento no BNDES. Para outros itens, a comprovação pode ser feita por nota fiscal de compra, desde que a operação tenha ocorrido no Brasil. Os serviços, por sua vez, devem ser prestados por empresas com CNPJ no país.
O executivo menciona a necessidade de comprovação documental das informações apresentadas, incluindo propostas formais de fornecimento e evidências da capacidade produtiva dos parceiros. A análise também considera a estrutura fabril, os equipamentos, a equipe técnica e o histórico de entregas dos fornecedores.
“O código CFI representa que todo o processo, toda a cadeia produtiva foi analisada e validada pelo BNDES”, afirma.
Seigne ressalta que nem todos os serviços entram no cálculo do índice, o que exige planejamento na escolha dos fornecedores e na composição do sistema.
No caso da solução da YOU.ON, o desenvolvimento da cadeia nacional e credenciamento junto ao BNDES levou quase seis meses, segundo o diretor da empresa.
Expansão da capacidade de fornecimento
Além de identificar parceiros e comprovar sua capacidade junto ao banco, a empresa também buscou alternativas de fornecedores para cada componente, de modo a não depender de um único, caso a demanda do leilão ultrapasse a estimativa inicial.
Nesse sentido, uma comitiva da YOU.ON estava na China no final de outubro, acompanhada pela parceira Hyperstrong, para identificar possíveis novos acordos que permitiriam ampliar a capacidade de fornecimento para 2 GW a 2,5 GW.
“Encontramos na Hyperstrong o match perfeito para o leilão de reserva de capacidade”, disse Seigne. Ele cita que a integradora chinesa está entre as três maiores do mundo e tem sistemas instalados em escala de gigawatts-hora na Ásia, Europa e Estados Unidos.
Uma solução de engenharia

Além do fornecimento do sistema credenciado, a YOU.ON aposta no seu know-how de engenharia para o sucesso no leilão. A companhia assume a responsabilidade pelos serviços de construção civil, montagem mecânica e eletromecânica, instalação, logística, supervisão, comissionamento, partida, operação e treinamento, em um pacote de entrega full-turnkey.
A integração dos equipamentos é uma das principais responsabilidades da empresa, que precisa compatibilizar protocolos de comunicação, parâmetros operacionais, hardware e software, além de adaptar o sistema às normas e ao código de rede brasileiros.
“Não adianta você ter os melhores componentes e eles não estarem compatibilizados, não terem uma comunicação harmônica entre eles, uma parametrização bem-feita, adaptação ao grid code brasileiro e às normas brasileiras”, cita Seigne.
Continuidade do desenvolvimento da indústria
O volume estimado pela EPE no Plano Decenal de Expansão de Energia de 2025 (PDE) apontava para uma necessidade de potência superior a 4GW para o segundo semestre de 2028.
Seigne avalia que tal escala, prevista para o LRCAP, exige uma adaptação da indústria nacional. Fabricantes existentes de equipamentos como transformadores, por exemplo, poderão precisar ampliar turnos, equipes, estoques e capacidade de produção para atender a encomendas maiores e aos cronogramas dos projetos.
Pelo calendário do leilão, os contratos com os vencedores devem ser assinados por volta de abril de 2027, com entrada em operação comercial prevista para 1º de agosto de 2028. Isso deixaria cerca de 16 meses para fabricar, importar, nacionalizar, transportar, instalar e testar os equipamentos.
Seigne considera o prazo viável, mas ressalta que a logística precisa ser planejada de acordo com a localização de cada projeto, as condições de transporte até o local de instalação e eventuais limitações climáticas.
A continuidade da contratação de baterias no Brasil, na avaliação dele, será importante para consolidar a cadeia local. As regras dos próximos leilões, porém, devem exigir maior nacionalização: a rota 1, que permite importar as baterias e os PCS, não estará disponível em uma eventual nova concorrência em 2028.
“A recorrência dos leilões é absolutamente necessária”, afirma Seigne. Para ele, a demanda por armazenamento continuará crescendo, mas a indústria precisará acompanhar a evolução tecnológica e ampliar gradualmente a participação da produção nacional.



