Mercado brasileiro de armazenamento acumula 1,2 GWh em novos contratos só em 2026

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O mercado brasileiro de armazenamento de energia em baterias (BESS) registrou 1,2 GWh em novos contratos em 2026, crescimento de aproximadamente 50% em relação aos 820 MWh contabilizados em 2025. Com isso, o volume acumulado de contratos chegou a 2,7 GWh, segundo o Estudo Estratégico de Armazenamento de Energia 2027 da Greener.

“A base ainda é pequena. A gente atingiu o primeiro GWh de capacidade e agora está construindo a cadeia. E construindo também o conhecimento para que, de fato, a gente possa ampliar essas aplicações e a viabilização de novos sistemas de armazenamento aqui no Brasil”, disse o CEO da Greener, Márcio Takata, durante webinar de divulgação do estudo.

O mercado brasileiro ainda representa uma parcela pequena do setor global. Para efeito de comparação, a Greener identificou que as novas instalações de sistemas de armazenamento em baterias no mundo devem alcançar 158 GW em 2026, alta de 41% em relação ao ano anterior. Estados Unidos, Alemanha, Itália, China e Austrália concentram aproximadamente 80% da capacidade global acumulada.

Aplicações comerciais, off-grid e microrredes impulsionam o mercado

Os sistemas comerciais e industriais de média tensão responderam por 511 MWh em novos contratos em 2026, ante aproximadamente 400 MWh no ano anterior. Apesar de sua participação relativa ter diminuído, de 51% para 42% do mercado, o segmento continuou crescendo em volume absoluto e deve permanecer como uma das principais aplicações nos próximos anos, avalia a Greener.

As soluções são utilizadas principalmente para reduzir a demanda no horário de ponta, otimizar o consumo de energia e garantir continuidade operacional. A combinação de diferentes benefícios, como controle de demanda, arbitragem tarifária e backup, pode melhorar a viabilidade econômica dos projetos.

O crescimento mais expressivo, porém, ocorreu em outros segmentos. As aplicações residenciais off-grid superaram as expectativas da consultoria, com mais de 200 MWh em contratos durante o ano. As microrredes também apresentaram aceleração, especialmente em propriedades rurais e localidades onde a rede elétrica não está disponível ou não oferece confiabilidade suficiente para atender às necessidades dos consumidores.

Nesses casos, as baterias podem ser integradas a sistemas fotovoltaicos e geradores a diesel para reduzir o consumo de combustível e melhorar a continuidade do fornecimento. A demanda por soluções para sistemas isolados também deve permanecer relevante, especialmente em estados como Pará, Acre, Amapá, Amazonas e Maranhão, onde há necessidade de ampliar o atendimento elétrico em regiões remotas.

Outro destaque foi o avanço das aplicações à frente do medidor, que abrangem projetos de geração, transmissão e distribuição. A expectativa é que os projetos de armazenamento associados às redes ganhem relevância nos próximos anos, especialmente com a contratação de capacidade por meio de leilões centralizados.

Redução de custos e engenharia são determinantes para a viabilidade

A queda dos preços das baterias tem contribuído para ampliar o conjunto de aplicações economicamente viáveis. A Greener apresentou como exemplo os sistemas híbridos residenciais compostos por inversor de 5 kW, bateria de 5 kWh e módulos fotovoltaicos com potência de 4 kWp. O investimento nessa configuração passou de aproximadamente R$ 44 mil em 2020 para menos de R$ 30 mil em 2026.

A redução dos custos, entretanto, não elimina os desafios de viabilidade. Diferentemente de um sistema fotovoltaico convencional, um projeto de armazenamento exige dimensionamento específico, integração de equipamentos, sistemas de controle e uma avaliação detalhada do perfil de consumo do cliente.

Para uma solução comercial e industrial de referência, composta por um gabinete de bateria de 261 kWh e potência de 100 kW a 125 kW, a consultoria estima um CapEx de R$ 1.788 por kWh instalado. Desse total, aproximadamente 71% correspondem aos equipamentos e 29% aos serviços de engenharia e instalação.

O investimento estimado para um sistema dessa configuração fica, portanto, na faixa de R$ 400 mil a R$ 500 mil. O cálculo considera os equipamentos e os serviços necessários à instalação do BESS, mas não inclui eventuais adequações da infraestrutura elétrica do consumidor, que podem elevar significativamente o custo final.

A participação dos serviços no investimento evidencia a importância da engenharia para a competitividade dos projetos. Entre os componentes considerados no cálculo estão baterias e sistema de gerenciamento (BMS), conversores de potência (PCS), sistema de gerenciamento de energia (EMS), refrigeração, segurança, instalação e comissionamento.

Desafios comerciais

A dificuldade de demonstrar o retorno financeiro aparece como um obstáculo comercial. Segundo a Greener, uma pesquisa com empresas do setor identificou uma taxa média de conversão de apenas 4% nas propostas de soluções comerciais e industriais.

A baixa conversão está relacionada não apenas ao preço e à disponibilidade de crédito, mas também à necessidade de capacitação dos integradores e de maior familiaridade dos consumidores com a tecnologia.

O gerente de Vendas BESS da Bel Energy, Renan Casadei, destacou durante o webinar de divulgação do estudo da Greener que a formação técnica dos integradores e o suporte de fabricantes e distribuidores são importantes para aumentar a confiança dos clientes. A venda de sistemas de armazenamento envolve investimentos elevados e exige que os profissionais consigam explicar as aplicações e os benefícios da solução com propriedade.

O gerente de produtos da Fox ESS, Fernando Domingos, também apontou que a identificação da necessidade efetiva do consumidor pode ser mais importante do que apresentar um prazo de retorno do investimento.

Como exemplo, citou um aviário que sofria interrupções no fornecimento de energia. O grupo gerador levava cerca de cinco minutos para entrar em operação após uma queda da rede, período suficiente para interromper a ventilação e provocar a morte das aves. Com a instalação de um sistema híbrido, as baterias assumem o fornecimento em aproximadamente 10 milissegundos, evitando a interrupção dos motores.

“Paramos de falar de payback quando entendemos a dor do cliente. Precisávamos falar de solução”, afirmou Domingos.

O gerente da Fox ESS também observou que a economia com deslocamento de consumo entre horários de ponta e fora de ponta, isoladamente, ainda não é suficiente para viabilizar muitos projetos comerciais e industriais. Segundo ele, a diferença tarifária média, estimada em R$ 0,20 a R$ 0,30/kWh, não fecha a conta em todas as regiões. O controle de demanda, incluindo a redução de custos com ultrapassagem dos valores contratados, tem sido outro fator importante para a concretização de negócios.

A Greener também chama atenção para a influência dos juros, do câmbio e da estrutura tributária sobre os custos e a rentabilidade dos projetos. Embora a expansão da capacidade produtiva global e os ganhos de eficiência devam contribuir para a redução estrutural dos preços das baterias, fatores como matérias-primas, condições geopolíticas e alterações tributárias podem modificar essa trajetória.

A reforma tributária brasileira, por exemplo, deverá ser considerada na avaliação dos modelos de investimento e de prestação de serviços de armazenamento, incluindo os negócios de BESS como serviço (ESaaS).

A expectativa é que o segmento comercial e industrial continue relevante, enquanto as aplicações em redes, microrredes e sistemas off-grid ampliem sua participação. A expansão dependerá, porém, da capacidade de desenvolver projetos tecnicamente confiáveis, modelos de negócio adequados a cada perfil de consumidor e condições regulatórias e financeiras que permitam transformar a demanda potencial em investimentos efetivos.

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