O IFSP Campus São João da Boa Vista se aliou à Cenion em um projeto de pesquisa e desenvolvimento de um Sistema de Gerenciamento de Baterias (BMS, na sigla em inglês para Battery Management System) e montagem de bateria de lítio aplicada em sistemas fotovoltaicos offgrid, que deve ser concluído até dezembro. O sistema eletrônico é responsável pelo controle de carga, descarga e segurança das baterias de lítio.
Na primeira etapa, será testada uma bateria de pequeno porte, de 24 volts e 20 ampère-hora, com BMS próprio, voltada para microgeração, motorhomes, sistemas portáteis para acampamento e usos semelhantes. No entanto, os envolvidos no projetos disseram à pv magazine que a ideia é desenvolver uma arquitetura que permita evoluções futuras, incluindo maior independência na aquisição e gestão de dados dos sistemas.
Cenion mira novas aplicações para baterias
Com mais de cinco anos de experiência no desenvolvimento de baterias de lítio, foi o líder do projeto e servidor do IFSP, Raul Gaspari, quem convidou a Cenion para a parceria. “Quando prestei consultoria para a Cenion, o foco era o desenvolvimento de baterias tracionárias. No entanto, observamos que o mercado de aplicações estacionárias está crescendo muito, especialmente com a expansão da geração distribuída”, conta.

Raul Gaspari, líder do projeto.
O fundador da empresa, Lucas Fiorentin, atua no setor de baterias, principalmente de chumbo-ácido, para aplicações tracionárias na indústria há cerca de 15 anos. Em 2025, criou a Cenion para desenvolver soluções com novas tecnologias de armazenamento, aproveitando toda a experiência acumulada.
“Embora nosso principal negócio continue sendo o setor tracionário, desenvolvemos projetos com baterias estacionárias, sistemas fotovoltaicos, inversores e carregadores para veículos elétricos, já acumulamos experiência em aplicações residenciais e sistemas de backup. O projeto que estamos desenvolvendo com o IFSP busca ampliar esse conhecimento na área estacionária”, disse Fiorentin.
A companhia atende clientes em todo o Brasil com serviços de manutenção, locação e fabricação de baterias sob medida para equipamentos industriais.
“Sempre compartilhei com o Lucas a visão de que a universidade pode contribuir significativamente para a inovação empresarial. Quando retornei ao IFSP após o doutorado, o convidei para participar deste novo projeto”, disse Gaspari.
Um BMS tropicalizado
“Hoje dependemos fortemente de soluções importadas, principalmente da China. A ideia é desenvolver inicialmente um BMS de pequeno porte para aplicações estacionárias e, posteriormente, evoluir para sistemas mais sofisticados”, conta Gaspari.
Neste primeiro momento, o projeto está focado em sistemas isolados e de pequeno porte, permitindo testes e validações em laboratório. “No futuro, enxergamos potencial para aplicações em micro e minigeração distribuída, além de soluções de armazenamento atrás do medidor (“behind the meter”), que tendem a ganhar espaço no mercado brasileiro”, acrescentou o professor do IFSP responsável pela parte fotovoltaica do projeto, William Zaccaro.
Ele reforça que o desenvolvimento do mercado fotovoltaico no Brasil chegou em um ponto que exige soluções de armazenamento para continuar crescendo. “O sistema elétrico passa a demandar maior flexibilidade e estabilidade, especialmente com o crescimento das fontes renováveis intermitentes”, comenta Zaccaro.
No longo prazo, a visão compartilhada é de desenvolver um BMS que atenda necessidades locais e que facilite a aquisição e interpretação de dados. Fiorentin destaca que o BMS desempenha funções que vão além do controle da bateria, podendo incorporar recursos de coleta de dados, comunicação remota e gerenciamento de diferentes aspectos operacionais do sistema.

Lucas Fiorentin, fundador da Cenion.
“Nossa visão é evoluir para um BMS que incorpore mais funcionalidades de software e seja capaz de atender necessidades específicas do mercado brasileiro. Estamos começando com uma base simples e realista. A ideia é construir conhecimento gradualmente e agregar novas funções à medida que o projeto amadurece”, disse Fiorentin.
Para Gaspari, uma das principais vantagens de desenvolver um sistema nacional está na autonomia sobre os dados gerados pelas baterias. Segundo ele, os BMS importados normalmente fornecem informações básicas de operação, mas nem sempre permitem acesso aprofundado aos dados ou customizações específicas.
“Quando queremos compreender melhor o perfil de uso de uma bateria ou adaptar determinadas funcionalidades às necessidades de uma aplicação, dependemos do fabricante estrangeiro. Desenvolvendo nosso próprio sistema, ganhamos autonomia para explorar esses dados e criar soluções mais adequadas às necessidades locais”, explicou Gaspari.
Zaccaro acrescenta que o acesso às informações operacionais é um dos elementos centrais para a evolução das aplicações de armazenamento. “Aplicações diferentes exigem perfis de operação diferentes. Seja para tração, backup, armazenamento ou gerenciamento de carga, entender o comportamento do sistema depende do acesso e da análise desses dados”, afirmou.
Capacitação profissional
Além do desenvolvimento tecnológico, o projeto também tem um componente de formação profissional. O estudante João Henrique Lima, aluno do segundo ano do curso técnico em Eletrônica do IFSP Campus São João da Boa Vista, participa diretamente das atividades de desenvolvimento do BMS.

João Henrique Lima, estudante do IFSP.
Segundo ele, a experiência tem proporcionado contato prático com temas relacionados às energias renováveis e ampliado seus conhecimentos tanto na área de eletrônica quanto no setor de energia. “Mesmo sendo um sistema inicial e relativamente simples, a experiência está contribuindo muito para minha formação profissional”, disse.
Para Zaccaro, a capacitação de estudantes representa uma dimensão estratégica da iniciativa. “Além da inovação tecnológica, buscamos formar profissionais qualificados para atuar em um setor que tende a crescer fortemente nos próximos anos”, afirmou.
O IFSP oferece capacitação na área fotovoltaica no campus São João da Boa Vista desde 2023. De acordo com Gaspari, o planejamento institucional prevê a criação de cursos ligados às energias renováveis nos próximos anos.
Segundo ele, a expectativa é que a demanda por essas tecnologias continue crescendo nos próximos anos, impulsionada pela eletrificação de diferentes setores da economia, pela expansão dos data centers e pela necessidade de ampliar a oferta de energia.
Neste estágio inicial do projeto, o foco permanece em aplicações de pequeno porte e de caráter social, incluindo sistemas para iluminação em áreas remotas, telecomunicações e soluções móveis de baixo custo. No entanto, os pesquisadores acreditam que o conhecimento adquirido poderá servir de base para o desenvolvimento futuro de aplicações mais complexas voltadas ao mercado brasileiro de armazenamento de energia.



