Relatório técnico do operador aponta crescimento estrutural das restrições operacionais no SIN e indica que excesso de oferta de energia, expansão da geração distribuída e limitações da rede devem ampliar os cortes de geração solar e eólica nos próximos anos.
Os cortes de geração de usinas solares e eólicas no Brasil atingiram cerca de 2.843 MW médios no primeiro quadrimestre de 2026, segundo dados públicos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O volume reforça a escalada do constrained-off no país em meio ao avanço acelerado das fontes renováveis e às limitações operacionais do Sistema Interligado Nacional (SIN).
A avaliação consta em estudos e bases operacionais divulgadas pelo operador, que projeta crescimento das restrições até pelo menos 2029. O fenômeno vem deixando de estar associado apenas a gargalos de transmissão e passa a refletir cada vez mais situações de excesso estrutural de geração frente à demanda do sistema, sobretudo em regiões com elevada concentração de empreendimentos renováveis.
Segundo o ONS, os cortes por “razão energética” ganharam relevância nos últimos anos. Nesse cenário, a geração disponível supera a capacidade do sistema de absorver energia em determinados horários, levando à necessidade de limitação compulsória de usinas para preservar a segurança operativa.
O operador destaca que a rápida expansão da geração solar centralizada e da micro e minigeração distribuída (MMGD) vem alterando significativamente o perfil de carga do SIN. Durante o período diurno, a elevada produção solar reduz a demanda observada pelo sistema, aumentando a necessidade de restrições em usinas despachadas centralizadamente.
O relatório técnico do Grupo de Trabalho de Curtailment do ONS aponta que, mesmo com os reforços previstos em transmissão, o constrained-off deverá continuar crescendo ao longo dos próximos anos caso a expansão da oferta renovável permaneça em ritmo superior ao desenvolvimento da infraestrutura elétrica e dos mecanismos de flexibilidade operativa.
Entre as medidas citadas pelo operador para reduzir os impactos das restrições estão:
- ampliação da rede de transmissão;
- desenvolvimento de sistemas de armazenamento;
- aumento da flexibilidade operativa;
- mecanismos de resposta da demanda;
- modernização dos critérios de operação do sistema.
O avanço dos cortes vem elevando a preocupação de investidores, geradores e comercializadoras, diante dos impactos financeiros sobre contratos e receitas dos empreendimentos renováveis. O tema também ganhou relevância regulatória nos últimos anos em função das discussões sobre ressarcimentos e compartilhamento de riscos associados ao constrained-off.
O ONS avalia ainda que o crescimento estrutural das restrições pode afetar a sinalização econômica para novos investimentos em geração renovável no país caso não haja evolução coordenada entre expansão da oferta, transmissão e soluções de flexibilidade para o sistema elétrico.



