No Latam Mobility Cone Sul 2026, foi realizado o painel “Mobilidade Compartilhada, Micromobilidade Urbana e Transporte de Passageiros” , reunindo atores-chave dos setores público, privado e acadêmico para analisar os desafios e as oportunidades da integração de diferentes modos de transporte nas cidades da região.
O painel, moderado por Julio Villalobos Contreras (diretor do Centro de Transporte e Logística da Universidade Andrés Bello – UNAB), contou com a participação de Eduardo Castro Ibáñez (DTPM), Nicolás Costa (Mastercard), Sebastián Galarza (CMS) e Pablo Pastega (FlixBus).
O debate abordou temas como a integração de modos de transporte, a digitalização dos pagamentos, a eletromobilidade no transporte intermunicipal, o uso do espaço público e o papel dos dados para a tomada de decisões em políticas de mobilidade sustentável.
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Integração de modos: infraestrutura, meios de pagamento e última milha como pilares fundamentais
O moderador Julio Villalobos abriu o painel levantando o desafio de como avançar rumo a uma mobilidade verdadeiramente integrada nas cidades, onde convivem múltiplos modos: transporte público de massa, bicicletas, scooters, táxis, plataformas de mobilidade e transporte intermunicipal. A pergunta central foi: como fazer com que todos esses sistemas funcionem como um ecossistema coerente e sustentável?
Eduardo Castro, do DTPM, destacou que a integração passa por três variáveis-chave: infraestrutura, meios de acesso e pagamento e capilaridade para a última milha. Ele citou a estação intermodal de Los Libertadores – onde convergem metrô e ônibus intermunicipais – como exemplo, e mencionou que o DTPM está trabalhando para ampliar esses espaços na cidade.
“A infraestrutura permite a interoperabilidade de diferentes modos” , afirmou, acrescentando que o desafio da última milha, especialmente à noite, exige a integração de táxis, plataformas e scooters para que os usuários cheguem à porta de casa.
Pablo Pastega, da FlixBus, respaldou essa visão sob a perspectiva do transporte intermunicipal, enfatizando que o ônibus intermunicipal também é transporte público – ele movimenta milhões de passageiros de forma eficiente e sustentável – e precisa ser considerado no mix de mobilidade. Ele também defendeu a extensão dessa lógica a outros pontos, incluindo aeroportos, para que a mobilidade não pare nos limites da cidade. “É fundamental que, quando se planejam infraestruturas e soluções de mobilidade, o transporte intermunicipal seja levado em conta” , enfatizou.

Meios de pagamento digitais: interoperabilidade e confiança
Nicolás Costa, da Mastercard, aprofundou o segundo pilar mencionado pelo diretor do DTPM: os meios de pagamento. Ele destacou que o Chile avançou significativamente na integração de pagamentos digitais no transporte público, com exemplos como o pagamento com cartões EMV (padrão interoperável) no metrô e trem de Santiago, e em cidades como Valparaíso, onde quatro meios de transporte elétricos foram integrados com pagamentos digitais.
“O usuário escolhe como quer pagar – hoje pode usar cartão de crédito, débito, pré-pago ou carteiras digitais” , explicou Costa, que ressaltou que 80% dos pagamentos com cartão no transporte público chileno são feitos com débito e pré-pago – derrubando o mito de que apenas o crédito é viável. Ele também destacou que 40% dos pagamentos em Santiago já são feitos com carteiras digitais – uma taxa de adoção muito superior à média da América Latina.
Costa também mencionou o desafio de estender essa interoperabilidade a todos os modos, incluindo o intermunicipal, e adiantou que a Mastercard está trabalhando no padrão “Plug and Pay” para infraestrutura de carregamento de veículos elétricos, de modo que o usuário possa pagar com qualquer meio sem precisar de aplicativos exclusivos. “A mobilidade precisa ser paga, e a maneira de fazê-lo deve ser simples” , afirmou.
O papel do transporte público e da tecnologia
Sebastián Galarza, do Centro de Mobilidade Sustentável (CMS) , trouxe a visão da economia e da sustentabilidade. Ele destacou que o transporte público é fundamental não apenas por suas menores emissões por passageiro, mas porque permite um uso mais eficiente do espaço urbano diante da crescente motorização.
“Pensar que teremos taxas de motorização que dobram ou triplicam nas cidades da América Latina é uma loucura” , afirmou.
Galarza destacou que a tecnologia e os dados são aliados-chave para a tomada de decisões. Ele mencionou a iniciativa Transport Data Commons – coordenada pela GIZ –, que sua organização está trazendo para a América Latina para padronizar e compartilhar informações que permitam planejar melhor e descarbonizar o transporte.
“Tudo o que estamos falando gera muita informação, mas muitas vezes ela não é comparável nem confiável. Precisamos de um marco para compartilhar dados” , explicou. Ele também sublinhou a importância da eletromobilidade no transporte intermunicipal e de cargas, onde o desafio da infraestrutura de carregamento é ainda maior. “Não faz sentido montar infraestrutura de carregamento exclusiva para uma empresa – ela precisa ser interoperável e intermodal” , propôs, pedindo uma coordenação mais ampla entre atores públicos e privados.

O transporte intermunicipal e a eletromobilidade
Pablo Pastega compartilhou a experiência da FlixBus na transição para veículos elétricos. Ele destacou que a empresa tem mais de 7 anos de experimentação com ônibus elétricos e de biogás, e que hoje a tecnologia já oferece autonomias de quase 400 quilômetros, com produtos disponíveis no mercado.
Ele citou o caso de Portugal, onde a FlixBus opera dois ônibus elétricos na rota Lisboa-Porto com sucesso. No entanto, alertou que o principal desafio é a infraestrutura de carregamento, que deve ser desenvolvida pelas autoridades competentes.
“O Chile tem uma excelente rede de carregamento para ônibus urbanos; seria interessante estudar como utilizá-la também para o transporte intermunicipal” , sugeriu.
Quanto à integração com sistemas de pagamento, Pastega reconheceu que o transporte intermunicipal tem particularidades – como a atribuição de assentos – que dificultam a interoperabilidade direta com o pagamento urbano. No entanto, ele se mostrou aberto a colaborar no desenvolvimento de soluções tecnológicas que permitam uma maior integração.
Uso do espaço público: convivência e eficiência operacional
Eduardo Castro abordou o uso do espaço público – um tema sensível nas cidades – e lembrou que, no passado, os ônibus a diesel geravam ruído, poluição e derramamentos de óleo, o que gerava rejeição dos vizinhos. Hoje, com a eletrificação da frota (mais de 4.300 ônibus elétricos em Santiago), os veículos são mais silenciosos, não poluem e são mais amigáveis ao meio ambiente – o que facilitou o diálogo com os municípios para obter espaços de regulamentação.
“Os municípios estão entendendo que precisam nos conceder espaços públicos para que o sistema seja eficiente” , afirmou Castro, acrescentando que as viagens vazias (de terminal a terminal) encarecem o sistema, por isso é fundamental poder regular na via pública. No entanto, ele reconheceu que ainda há desafios na convivência com a população e na segurança noturna, que dificultam a operação na última milha.
Castro também mencionou que o DTPM está avaliando a integração do teleférico como um novo modo de transporte, embora tenha alertado que o modelo de integração tarifária e tecnológica ainda não foi definido, já que isso poderia impactar o subsídio ao transporte público.

Certezas, tecnologia em evolução e colaboração
Na rodada de encerramento, os painelistas compartilharam suas visões de futuro.
Pablo Pastega pediu que se continue fomentando a intermodalidade e trabalhando em conjunto para reduzir fraudes e melhorar a segurança e a confiabilidade do transporte. Ele destacou que a tecnologia já está disponível – o que falta é vontade de colaboração entre todos os atores.
Sebastián Galarza insistiu na importância de dados confiáveis e comparáveis para tomar melhores decisões de planejamento e descarbonização, e destacou o trabalho do CMS em iniciativas como o Transport Data Commons para a América Latina.
Nicolás Costa encerrou com uma mensagem sobre a adoção tecnológica no Chile. Ele destacou que os usuários estão prontos para pagar com meios digitais, e que a interoperabilidade é um caminho sem volta. Ele adiantou que o futuro aponta para pagamentos biométricos (rosto, impressão digital ou palma da mão) – que já estão sendo implementados na Ásia e podem chegar à região nos próximos anos.
Eduardo Castro focou no objetivo mais cotidiano, porém fundamental: entregar certezas aos usuários. “Queremos que, se dissermos que o ônibus vai passar em um ponto, ele passe. Que, se dissermos que se pode embarcar, ele pare. Que o usuário possa pagar com o meio que preferir” , afirmou. Ele reconheceu que o grande desafio do DTPM é a última milha – especialmente à noite, onde a segurança e a capilaridade são insuficientes – e pediu que todos os atores trabalhem juntos para resolvê-lo.
O painel deixou claro que a mobilidade compartilhada, a micromobilidade e o transporte de passageiros são componentes interdependentes de um mesmo sistema – e que sua integração exige visão de conjunto, coordenação intersetorial e colaboração público-privada.
Próxima parada: Latam Mobility México 2026
Latam Mobility Tour 2026 continuará sua jornada pela região, com a próxima parada na Cidade do México, nos dias 12 e 13 de outubro de 2026.
O evento, que já se desenha como o grande encerramento do ano para o setor, reunirá líderes dos setores público, privado, acadêmico e da sociedade civil de toda a América Latina para seguir acelerando a transição para uma mobilidade mais limpa, eficiente e sustentável.
O Latam Mobility México 2026 oferecerá uma plataforma única para aprofundar parcerias, conhecer as mais recentes inovações tecnológicas e traçar roteiros conjuntos que agilizem a descarbonização do transporte na região.
A Latam Mobility reafirma assim seu compromisso de ser o principal hub de transição energética e networking da América Latina – conectando ideias, projetos e pessoas que estão transformando a forma como nos deslocamos.

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