Um motorhome que percorreu dez países africanos precisou se conectar à rede elétrica externa apenas cerca de três vezes durante aproximadamente um ano de viagem. A autonomia energética permitiu ao casal brasileiro Alessandro De Franceschi, conhecido como Alê, e Maria Eduarda Cardoso, a Duda, manter equipamentos como dois aparelhos de ar-condicionado, duas geladeiras, fogão elétrico e internet via satélite mesmo em regiões afastadas da infraestrutura convencional.
A experiência, compartilhada pelo projeto Getoutsidebr nas redes sociais, combina painéis solares instalados no teto do veículo, baterias de lítio e recarga por meio do alternador durante os deslocamentos. O sistema utiliza equipamentos da Victron Energy, fornecidos com a participação da Kamell Comércio Global, e demonstra como a integração entre geração, armazenamento e gerenciamento de energia pode ampliar a autonomia em aplicações móveis.
Segundo Alê, a expedição africana começou em agosto de 2025. Durante o período, o casal percorreu dez países com o motorhome e conheceu outros quatro sem o veículo. A combinação de fontes de energia permitiu manter o consumo habitual sem depender regularmente de pontos de conexão externos.

Geração solar e recarga durante os deslocamentos
O sistema elétrico do motorhome utiliza duas fontes principais de energia. A primeira é a geração fotovoltaica, por meio dos módulos instalados no teto, que alimentam os equipamentos e contribuem para recarregar as baterias durante o dia.
A segunda é o alternador do veículo. Durante os deslocamentos, um equipamento Orion, da Victron Energy, permite direcionar energia do sistema elétrico do veículo para a recarga das baterias de lítio.
Essa combinação amplia as possibilidades de utilização do motorhome em locais sem acesso à rede elétrica. As baterias armazenam energia para uso posterior, enquanto os equipamentos de monitoramento permitem acompanhar o estado de carga e a produção das diferentes fontes.
A estrutura atende a uma lista de equipamentos que vai além das necessidades básicas de uma viagem. O veículo conta com fogão e forno elétricos, air fryer, duas geladeiras, dois aparelhos de ar-condicionado, televisão, iluminação e internet via Starlink. O aquecimento de água também pode ser feito eletricamente, embora exista a alternativa de utilizar diesel.
“Hoje, conseguimos ter uma rotina muito próxima da de uma casa convencional, mesmo quando estamos longe da infraestrutura das cidades”, afirma Alê.
Banco de baterias e gerenciamento de energia

O conjunto elétrico inclui três baterias de lítio Victron de 25,6 V e 200 Ah cada. Considerando os valores nominais, a capacidade energética combinada é de aproximadamente 15,36 kWh, antes de descontar limites de descarga e perdas de conversão.
A conversão de energia é realizada por um inversor MultiPlus-II de 24 V e 5.000 VA. O sistema também inclui controlador de carga solar SmartSolar MPPT 100 V/50 A, dispositivos Orion para recarga, monitor SmartShunt de 500 A, central Cerbo GX e tela GX Touch 70.
A arquitetura reúne componentes responsáveis por controlar a energia proveniente dos painéis, carregar as baterias, converter corrente contínua em corrente alternada e acompanhar o funcionamento do conjunto.
A autonomia depende não apenas da capacidade de armazenamento, mas também da geração solar, do perfil de consumo e das condições de recarga. O uso simultâneo de ar-condicionado, cozinha elétrica e outros aparelhos pode elevar significativamente a demanda. Por isso, o desempenho resulta da integração entre as fontes, as baterias e o gerenciamento energético, e não apenas da capacidade instalada.
Monitoramento remoto acompanha a geração
O sistema permite verificar o percentual de carga das baterias e acompanhar a contribuição dos painéis solares e do alternador. As informações ficam disponíveis em uma tela instalada no motorhome e podem ser consultadas pelo celular.
Segundo Alê, o monitoramento remoto foi útil quando o casal deixou o veículo estacionado para viajar de avião a outros destinos. A ferramenta permite acompanhar as condições do sistema à distância e observar variações na geração, como as provocadas por sombras sobre os painéis.
Em aplicações isoladas, esse acompanhamento ajuda a identificar alterações na produção e no nível de carga, permitindo que o usuário tome decisões para evitar problemas no abastecimento elétrico.
A autonomia, contudo, continua condicionada a fatores como incidência solar, sombreamento, tempo de permanência estacionado e demanda dos equipamentos. Em períodos de menor geração ou consumo elevado, a disponibilidade de energia pode diminuir.
Da advocacia à vida na estrada
Alê, gaúcho de 41 anos, e Duda, capixaba de 33, viviam em São Paulo e trabalhavam como advogados antes de decidir viajar pelas Américas. O plano inicial previa percorrer o continente entre o Brasil e Ushuaia, no extremo sul da Argentina, e seguir até o Alasca.
A viagem acabou se transformando em um estilo de vida. Há quase sete anos na estrada, o casal estima ter visitado cerca de 30 países e compartilha a rotina no projeto Getoutsidebr, que reúne aproximadamente 500 mil seguidores.
A experiência ilustra uma aplicação das tecnologias de energia em sistemas móveis e isolados. Ao combinar geração local, armazenamento e recarga durante os deslocamentos, o motorhome reduz a dependência de pontos de conexão externos e amplia a flexibilidade para permanecer em locais remotos.
Com a chegada do primeiro filho, Martin, anunciada em setembro de 2026, o casal inicia uma nova etapa da vida sobre rodas. A confiabilidade do sistema elétrico e o planejamento dos recursos passam a integrar também os desafios de viajar em família.



