O Carregamento como Ativo Inteligente: Agência de Energia do Estado de Jalisco, E2M Energy to Market, Keysight, Soventix Caribbean e Vega Chargers Traçam o Caminho para uma Rede Resiliente

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O evento Latam Mobility México 2026, realizado no World Trade Center da capital mexicana, foi palco do painel “A Dinâmica de um Novo Setor Elétrico com a Carga como Bandeira: Integração com a Rede, Renováveis e Resiliência da Rede”.

O encontro, moderado por Germán Sánchez, diretor editorial da Revista Petróleo & Energía, reuniu especialistas de destaque do setor energético e da mobilidade elétrica para analisar os desafios e as oportunidades que a transição para um ecossistema de transporte eletrificado enfrenta no México e na América Latina.

Os painelistas Alfonso Rodríguez, CEO da Soventix Caribbean (República Dominicana); Hans Kohlsdorf, fundador da E2M Energy to Market; Pablo Bernal, Automotive & Energy Solutions da Keysight; Paloma Corona, diretora de Transição Energética da Agência de Energia do Estado de Jalisco; e Rodrigo Rojas, Sales Manager da Vega Chargers, compartilharam suas perspectivas sobre a necessidade de parar de ver os veículos elétricos como um fardo para a rede e começar a gerenciá-los como ativos inteligentes.

O consenso foi claro: a tecnologia já está disponível e é viável, mas o maior desafio está na coordenação regulatória, na segurança para os investidores e no planejamento estratégico de longo prazo.

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O Veículo Elétrico: De Carga Pesada a Ativo Inteligente

Hans Kohlsdorf, da E2M Energy to Market, abriu o debate ao observar que a conversa estratégica muda radicalmente quando se deixa de perceber o veículo elétrico como um problema para a rede. “Os veículos precisam de toda a infraestrutura de carregamento e, quando as frotas passam horas estacionadas, é um ótimo momento para iniciar o carregamento”, explicou.

Kohlsdorf destacou que já existem veículos com capacidade de descarga bidirecional, o que permite usar a bateria do automóvel como backup de energia para a casa durante cortes de energia, mantendo em funcionamento eletrodomésticos essenciais, como uma geladeira.

Pablo Bernal, da Keysight Technologies, complementou essa visão ao trazer o componente técnico que torna essa integração possível. Explicou que a norma ISO 15118-20 permite a transferência bidirecional de energia, um avanço fundamental para que o veículo elétrico possa se comunicar com a rede e os carregadores.

“Você precisa de um sandbox (ambiente controlado) para fazer esse tipo de teste e ir escalando aos poucos”, afirmou Bernal. Sua empresa, destacou ele, participa de eventos de testes nos quais são levados veículos e estações de carregamento que estão começando a implementar esses protocolos, garantindo que a interoperabilidade entre diferentes fabricantes seja uma realidade operacional e não apenas teórica.

Paloma Corona, na perspectiva da Agência de Energia do Estado de Jalisco, ressaltou a importância do planejamento diferenciado. “Uma frota que vai e dorme em um pátio não é a mesma coisa que as opções que você pode dar a um taxista ou a um motorista de aplicativo que está na rua há mais de 12 horas e precisa de vários tipos de carga”, pontuou.

Corona defendeu que os projetos deixem de ser isolados e que boas práticas sejam compartilhadas, como a possibilidade de um pátio de carregamento privado abrir durante o dia para atender outras frotas, otimizando o uso da infraestrutura e evitando sobrecarregar a rede elétrica.

Latam Mobility México 2026

Alfonso Rodríguez, CEO da Soventix Caribbean, levou o conceito um passo adiante ao afirmar que “um centro de carregamento precisa começar a ser visto como um centro de energia”, e explicou que, com a competitividade atual dos sistemas de armazenamento, quando existe uma rede restrita, uma bateria permite aproveitar melhor a infraestrutura existente.

“Quando você tem restrições na rede para carregar durante o dia, o que você pode fazer é carregar o sistema de armazenamento durante a noite para abastecer os ônibus”, detalhou. Além disso, Rodríguez destacou que esses centros podem prestar serviços auxiliares à rede, como regulação de frequência e tensão, convertendo o que antes era um passivo em um ativo gerador de receita.

Arquitetura Tecnológica e Modelos de Negócio Rumo a 2030

Ao abordar a arquitetura tecnológica e de negócios necessária para que as empresas escalem suas operações sem medo de ficar sem energia, Hans Kohlsdorf foi enfático ao afirmar que, no contexto mexicano atual, a regulação não deve ser vista como um obstáculo. “A regulação nos dá todo o campo de que precisamos”, garantiu, e acrescentou que o mercado elétrico já envia sinais claros por meio dos preços horários.

No México, o preço do quilowatt-hora nas horas diurnas, quando há abundante geração solar, pode ser de apenas 50 centavos, enquanto no horário noturno dispara para 2, 3 ou 4 pesos. Kohlsdorf instou a aproveitar esse sinal de mercado: “O negócio dos centros de carregamento tem que ser um negócio privado. Assim como o meu negócio são postos de gasolina, o negócio são as estações de serviço”.

Rodrigo Rojas, da Vega Chargers, trouxe uma perspectiva crítica sobre os modelos de negócio, observando que um dos principais obstáculos no México é a falta de uma regulamentação padronizada para os conectores. “Se o investidor precisa de um conector CCS2, CCS1, NACS, GBT, isso significa que o CapEx aumenta porque ele tem que ter muitos tipos de conector”, explicou.

Rojas fez um chamado à colaboração entre os diferentes atores do ecossistema: “Hoje temos as empresas de energia, nós que fabricamos o hardware de carregamento e os que fabricam os carros e os softwares do ecossistema, todos tentando empurrar para o mesmo lugar. Há competição, claramente, mas entendemos que nosso principal desafio é transformar a mobilidade do ponto de vista energético”. Além disso, destacou que o Opex (despesas operacionais), e não o CapEx (despesas de capital), é onde reside a verdadeira rentabilidade da mobilidade elétrica.

Alfonso Rodríguez reforçou a necessidade de que a regulamentação evolua no ritmo da tecnologia. “A regulamentação é mortalmente tortuosa; os processos administrativos que ela impõe para implementar esse ativo são um problema. A tecnologia não é, e a oportunidade de negócio também não”, afirmou. Segundo Rodríguez, quando um centro de carregamento soma as receitas de serviços à rede ao seu modelo de negócio tradicional, ele se torna uma oportunidade de investimento extremamente atraente que beneficia a distribuidora, o usuário final e o sistema como um todo.

Pablo Bernal, da Keysight, introduziu uma dimensão técnica: a segurança operacional diante da crescente integração de recursos energéticos distribuídos. Explicou que, à medida que aumenta o percentual de geração solar e eólica na matriz energética, o risco de que os inversores se desconectem diante de anomalias na rede se torna mais crítico.

“Se caminharmos para que os sistemas de geração distribuída representem 20%, 30% da geração e eles não aguentarem alguma anomalia e decidirem se desconectar, então um problema menor pode se tornar um problema maior e derrubar completamente a rede”, advertiu. Para mitigar esse risco, Bernal mencionou a importância de que os equipamentos cumpram padrões como IEEE 1547 e UL 1741, que exigem capacidade de ride-through para suportar perturbações transitórias sem se desconectar.

Latam Mobility México 2026

A Falsa Economia do CapEx: O Ponto Cego que Destrói o ROI

O painel abordou uma das armadilhas mais comuns nos projetos de eletrificação: a obsessão por reduzir o custo inicial do investimento. Rodrigo Rojas alertou que comprar um carregador 10% ou 15% mais barato pode resultar em uma economia aparente que se transforma em um fardo operacional no longo prazo.

“No momento da operação não há suporte, não há reposição de peças, não há atualizações do equipamento, e isso no final afeta a operação”, explicou. Rojas enfatizou que os carregadores devem ser “future proof”, ou seja, projetados para serem compatíveis com as normas e tecnologias futuras, já que a evolução do veículo elétrico é tão rápida quanto a de um celular.

Paloma Corona, da Agência de Energia de Jalisco, acrescentou uma camada de planejamento estratégico. “Temos que planejar muito dentro dos estados. Cada vez temos mais transporte público elétrico e acho que não estamos pensando além de como vamos carregá-lo”, observou. Deu como exemplo o fato de que, embora atualmente o diesel seja subsidiado, não se sabe quando essa política vai mudar, e a conversão para caminhões elétricos poderia disparar de repente. Por isso, defendeu que os projetos de infraestrutura de carregamento sejam dimensionados pensando no crescimento futuro, mesmo que isso implique um investimento inicial maior.

Alfonso Rodríguez reforçou o argumento de que a economia mal compreendida é um risco enorme. “O que não pode acontecer é um aumento de demanda insensato. Tem que ser um aumento inteligente que forneça serviços e que seja remunerado”, sentenciou. Para Rodríguez, a combinação de armazenamento, renováveis e gestão inteligente da carga é o que permite transformar uma despesa operacional em um centro gerador de valor.

Latam Mobility México 2026

O Pacto de Inovação e Confiança para uma Rede Resiliente

No encerramento do painel, os especialistas delinearam o que seria o pacto de inovação e confiança necessário para garantir aos investidores que o México conta com uma rede resiliente, inteligente e pronta para a mobilidade do futuro.

Pablo Bernal foi o primeiro a responder: “Acho que uma maneira de fazer isso é comprovando que pelo menos os equipamentos, a tecnologia que está sendo usada, os sistemas de armazenamento de energia, os inversores que devolvem energia à rede foram testados, estão certificados e, pelo menos tecnicamente, funcionam”. Para Bernal, a certificação por laboratórios acreditados é o primeiro passo para gerar segurança técnica, embora tenha reconhecido que a garantia absoluta só é alcançada na operação real.

Rodrigo Rojas vinculou a confiança dos investidores diretamente à segurança jurídica e à liderança do Estado. “Quando o eixo central do Estado é apostar na mobilidade elétrica, há segurança para o setor privado e para investidores estrangeiros virem apostar nesses países”, afirmou.

Rojas citou como exemplo os casos de sucesso da Colômbia e do Chile na eletrificação de frotas de ônibus, e ressaltou que o México tem potencial para replicar esses modelos. “O dado derruba o discurso”, disse, referindo-se à importância de medir e comparar indicadores como o preço do quilowatt-hora para demonstrar a competitividade da mobilidade elétrica em comparação ao diesel.

Hans Kohlsdorf trouxe uma visão de otimismo e realismo ao mesmo tempo. “O México fabrica e exporta mais do que toda a América Latina junta; não estamos tão mal assim em investimento industrial”, lembrou, para depois convidar os empresários locais a olhar para as oportunidades que o mercado elétrico oferece.

Kohlsdorf explicou que a combinação de arbitragem de energia (carregar baterias quando a energia está barata e descarregar em horários de escassez) com a prestação de serviços auxiliares regulados, que no México podem representar até 30% de receita adicional, configura um modelo de negócio robusto e atraente. “Convido vocês a confiarem no México”, concluiu.

Alfonso Rodríguez acrescentou que o investimento extraordinário em energias renováveis que está chegando à América Latina tem na mobilidade elétrica seu maior beneficiário. “A qualidade do combustível não vai melhorar. Os problemas de Opex que você tem hoje com combustível externo vão continuar. Em contrapartida, com a mobilidade elétrica o Opex cai cada vez mais e a vantagem competitiva é maior”, observou.

Paloma Corona, por sua vez, fez um chamado para complementar a ação federal com políticas estaduais. “Temos que aprovar leis em que os edifícios já nasçam com carregamento desde o projeto. Economiza-se até 70% dessa forma. E que já exista um direito ao carregamento para todos os conjuntos habitacionais”, propôs. Além disso, destacou a importância de que as frotas governamentais migrem gradualmente para veículos elétricos, como a Colômbia vem fazendo desde 2019, e que sejam estabelecidas metas progressivas de adoção.

Latam Mobility México 2026

A Carga como Bandeira de um Novo Setor Elétrico

O painel deixou uma conclusão inequívoca: a infraestrutura de carregamento para veículos elétricos não pode mais ser vista como um apêndice do sistema elétrico, mas como um componente estratégico capaz de trazer resiliência, eficiência e novas fontes de receita.

A combinação de geração renovável, armazenamento estacionário, gestão inteligente da demanda e serviços auxiliares à rede configura um ecossistema em que o veículo elétrico e sua infraestrutura associada deixam de ser um problema para se tornarem parte da solução.

Os especialistas concordaram que o México conta com um potencial extraordinário, respaldado por sua sólida base industrial e sua capacidade de exportação industrial. No entanto, para aproveitar essa oportunidade, são necessárias uma regulamentação moderna e previsível, segurança jurídica para os investidores, planejamento estratégico em nível estadual e uma colaboração estreita entre o setor público, o setor privado, a academia e a sociedade civil.

Germán Sánchez, moderador do painel, agradeceu a participação dos painelistas e destacou a relevância desses espaços de diálogo para construir um futuro energético mais sustentável e competitivo para a região.

Por isso, a Latam Mobility continuará suas atividades com painéis dedicados à infraestrutura de carregamento, ao transporte pesado, às frotas corporativas e às políticas públicas, consolidando-se como o evento de referência para a mobilidade sustentável na América Latina.

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