Mulheres na liderança da transição energética

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Esse é o segundo artigo da série O Futuro da Liderança na Transição Energética, apresentado pela Rede MESol.

No primeiro artigo desta série, mostramos que a transição energética é, antes de tudo, um desafio de pessoas. Nenhuma tecnologia chega ao telhado, à usina ou à rede sem profissionais qualificados e sem lideranças capazes de formá-los. Neste segundo texto, fazemos uma pergunta mais direta: quem está, de fato, tomando as decisões nessa transição?

A resposta revela um paradoxo. A energia solar fotovoltaica é a fonte renovável que mais emprega mulheres no mundo. Mas, à medida que subimos na hierarquia, elas vão desaparecendo das salas onde se definem estratégia, investimento e prioridades.

As portas que a energia solar fotovoltaica abriu

Segundo a IRENA, as mulheres são 40% da força de trabalho da fotovoltaica no mundo. É quase o dobro do observado na energia eólica (21%) e no petróleo e gás (22%). Elas estão na manufatura (47%), entre os prestadores de serviço (39%) e ocupam 38% das funções STEM do setor.

Não é por acaso. Um setor jovem, em rápida expansão e menos preso a tradições corporativas tem mais espaço para novos perfis. No Brasil, o crescimento da geração distribuída multiplicou empresas de projeto, venda e instalação, e abriu caminho para engenheiras, projetistas, vendedoras e empreendedoras.

Redes como a MESol nasceram desse movimento. Em 2026, a rede completou seis anos de presença ininterrupta na Intersolar South America com o Elas Conectam, que celebra a participação feminina no setor.

O teto continua lá

O mesmo levantamento da IRENA mostra para onde o funil aponta. As mulheres ocupam 30% dos cargos de gestão no setor fotovoltaico, mas apenas 13% da alta gestão. Na instalação, a ponta mais técnica e de campo, são somente 12%.

O mesmo levantamento da IRENA, feito com dados mundiais, mostra para onde o funil aponta, como ilustra o gráfico abaixo. As mulheres ocupam 30% dos cargos de gestão no setor fotovoltaico, mas apenas 13% da alta gestão. Na instalação, a ponta mais técnica e de campo, são somente 12%.

Fonte: IRENA, Solar PV: A Gender Perspective (2022), pesquisa global de 2021.

No Brasil, ainda não há dados como esses específicos para o solar, mas os números do setor elétrico como um todo mostram um quadro ainda mais desigual que a média mundial da fotovoltaica. Segundo a ANEEL, as mulheres são cerca de 20% da força de trabalho, dois terços delas em funções administrativas, e só 5,5% chegam à alta liderança. E o recorte de gênero, sozinho, também não conta a história toda. Na pesquisa nacional ligada ao Pacto Nacional pela Equidade de Gênero na Energia, 78% das líderes respondentes se declararam brancas. As portas de entrada se abriram; as das salas de decisão, ainda não, e menos ainda para todas.

Por que isso importa para a transição

Não se trata apenas de justiça, embora ela baste como argumento. Há também três razões práticas para o setor se preocupar.

Decisões melhores: Os temas em pauta (tarifas, acesso à energia, impacto em comunidades, armazenamento de energia, mercado livre, entre outros) afetam públicos muito diversos. Times de decisão homogêneos enxergam menos riscos e menos oportunidades. Voltaremos a esse ponto no quarto artigo da série.

Talento escasso: O artigo anterior mostrou que 36% das funções em energias renováveis exigem qualificação avançada. Um setor que perde mulheres no meio da carreira desperdiça justamente as profissionais que mais custou formar. E formar já não é simples: as mulheres são cerca de 35% das pessoas formadas em áreas STEM no mundo, patamar estagnado há uma década, segundo a UNESCO. No Brasil, foram apenas 27% dos concluintes de engenharia em 2023, de acordo com o Censo da Educação Superior.

Legitimidade: A transição promete ser justa e inclusiva. É difícil sustentar essa promessa quando quem decide não reflete quem produz e quem consome energia.

Do acesso à decisão: o que fazer

Abrir portas foi o primeiro passo. O segundo é garantir que as mulheres atravessem o corredor até a sala de decisão. Algumas ações concretas:

Para empresas

  • Medir e publicar a participação feminina por nível hierárquico, e não só no total. O que não se mede não se corrige.
  • Incluir ao menos uma mulher em toda lista final de candidatos a cargos de gestão e nos comitês de promoção.
  • Rever critérios de promoção que premiam disponibilidade irrestrita em vez de resultado, e oferecer flexibilidade a quem cuida.
  • Montar planos de sucessão que incluam mulheres de áreas técnicas e de campo, não apenas das administrativas.

Para entidades e eventos do setor

  • Compor painéis, comitês técnicos e conselhos com equilíbrio de gênero.
  • Aderir ao Pacto Nacional pela Equidade de Gênero na Energia, lançado em setembro de 2024 por 18 organizações, redes e coletivos.
  • Produzir dados do solar brasileiro com recorte de gênero e raça, que hoje praticamente não existem.

Para profissionais

  • Ocupar espaços de visibilidade: palestras, artigos, comitês e associações.
  • Construir redes e buscar quem as indique, não apenas quem as aconselhe.
  • Para quem já lidera: abrir a porta para a próxima.

A próxima porta

O setor solar provou que é possível ter mulheres em todas as etapas da cadeia, da fábrica ao projeto, da venda à pesquisa. Agora precisa provar que elas também podem estar, em número e com voz, onde a transição é decidida.

Essa mudança não acontece por esforço individual. Nenhuma líder chega sozinha, e é sobre isso o próximo artigo desta série: a mentoria como ferramenta para acelerar carreiras femininas.

Autoras: Isadora Pauli Custódio, Marília Brilhante Queiroz e Amanda Mendes Ferreira Gomes

Revisão: Thais Crestani e Renata Mansuelo Alves Domingos. 

Referências:

IRENA – Solar PV employs more women than any renewables (relatório Solar PV: A Gender Perspective, 2022; pesquisa global de 2021)

ANEEL, estudo As Mulheres no Setor Elétrico, via CNN Brasil (mar. 2026)

O Setor Elétrico – Redes de mulheres e o Pacto Nacional pela Equidade de Gênero na Energia

(jul. 2025; pesquisa preliminar com cerca de 1.000 respostas)

UNESCO, World Education Blog (GEM Report): New UIS data show that the share of women in STEM graduates stagnant for 10 years (abr. 2024)

SEESP, Censo da Educação Superior 2023: Engenharias, com base nos microdados do Inep/MEC

O Setor Elétrico – Elas Conectam: cinco anos de transformação na Intersolar (out. 2025)

MESol – O futuro da liderança na transição energética, pv magazine Brasil (set. 2026)

Parceria Energética Brasil-Alemanha – 6ª edição do Elas Conectam (set. 2026)

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