Os Estados Unidos enterraram as esperanças de que o México se torne um centro de fabricação de veículos elétricos, concordam analistas consultados pelo El Universal.
A combinação de dois fatores, a eliminação dos incentivos federais de 7.500 dólares para a compra de elétricos nos Estados Unidos e a imposição de tarifas de 25% às exportações de carros fabricados no México, provocou um colapso generalizado na produção nacional de modelos elétricos durante os primeiros oito meses de 2026, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Geografia (Inegi).
O golpe não é pequeno. A produção de veículos elétricos no México havia crescido de forma sustentada desde 2020, quando a Ford começou a montar o Mustang Mach-E em Cuautitlán, Estado do México. A essa aposta inicial somaram-se a General Motors com os SUVs Equinox EV e Blazer EV em Ramos Arizpe, Coahuila, e a Honda com o Prologue, fabricado na mesma planta.
Durante esse período, o México se consolidou como o principal exportador de veículos elétricos ao mercado americano, acima da Alemanha, Japão, Coreia do Sul e Canadá. A bonança durou até que Washington mudou as regras do jogo.
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O Fim dos Incentivos: O Golpe que Ninguém Viu Chegar
A origem do colapso remonta a setembro de 2025, quando o presidente Donald Trump promulgou a One Big Beautiful Bill Act (OBBBA), uma lei que eliminou o crédito fiscal federal de 7.500 dólares para a compra de veículos elétricos novos e o de 4.000 dólares para modelos usados.
Durante anos, esses incentivos haviam sido o principal motor da demanda de elétricos nos Estados Unidos. Sem eles, o mercado americano de veículos de bateria experimentou uma queda abrupta: o percentual de elétricos nas vendas de carros novos passou de um recorde de 10,5% no terceiro trimestre de 2025 para apenas 5,8% no quarto trimestre do mesmo ano.
Para 2026, as projeções são igualmente sombrias. A PwC estima que os carros de bateria representarão apenas 19% das vendas americanas em 2030, enquanto a AlixPartners projeta 17%, muito longe da meta original da administração Biden de alcançar 50% no final da década.
A consequência para o México foi imediata: se a demanda de elétricos nos Estados Unidos despenca, a razão de ser da manufatura mexicana desses modelos desaparece com ela.

As Tarifas que Encarecem Cada Unidade Exportada
À eliminação dos incentivos somou-se outro fator igualmente devastador: as tarifas de 25% impostas pela administração Trump às exportações mexicanas de veículos, invocando motivos de segurança nacional sob a Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962.
Embora as mercadorias que cumprem as estritas regras de origem do T-MEC gozem de uma isenção parcial, o gravame se aplica sobre o conteúdo não norte-americano de cada veículo, encarecendo a produção de forma significativa.
O paradoxo é que o México enfrenta uma tarifa mais alta que seus concorrentes diretos. Japão, União Europeia e Coreia do Sul pagam apenas 15% para exportar seus veículos ao mercado americano, enquanto o México está sujeito aos 25% da Seção 232, apesar de ser o primeiro fornecedor de carros e autopeças dos Estados Unidos, com 21,6 bilhões de dólares em exportações entre janeiro e julho de 2026.
O subsecretário de Comércio Exterior, Luis Rosendo Gutiérrez, confirmou que o México solicitou formalmente uma tarifa menor que 15% na mesa de negociações do T-MEC, argumentando que, se o país obtiver um diferencial em relação aos principais produtores mundiais, “o México vai ganhar participação de mercado nos Estados Unidos”.
O Pioneiro que Perdeu Quase Metade de Sua Produção
O Ford Mustang Mach-E, um dos primeiros modelos elétricos a ser fabricado no México, também foi um dos mais atingidos. Entre janeiro e agosto de 2026, a produção do modelo montado em Cuautitlán, Estado do México, registrou uma queda de 49%, ao montar apenas 24.974 unidades.
A queda se explica em parte pela decisão da Ford de excluir o Mach-E de sua nova plataforma Universal EV e adiar seu redesenho até o final da década, um sinal inequívoco de que a companhia já não aposta no modelo como carro-chefe de sua estratégia elétrica.
As exportações do Mach-E para os Estados Unidos caíram 38,2% durante o primeiro trimestre de 2026, ao ficarem em 7.765 unidades, segundo dados do Departamento de Comércio americano.
Para o segundo trimestre, a queda se aprofundou até 59%, com apenas 11.680 unidades exportadas.
Honda Prologue: Nascimento com Data de Validade
O Honda Prologue representa o caso mais dramático de desaceleração. Fabricado na planta da General Motors em Ramos Arizpe, Coahuila, desde 2024, o SUV elétrico registrou uma queda de 60% em sua produção entre janeiro e agosto de 2026, com apenas 9.833 unidades montadas. A cifra empalidece frente às 46.000 unidades produzidas em 2024 e às 33.000 de 2025.
A razão é simples: a Honda decidiu encerrar a comercialização do Prologue nos Estados Unidos a partir do ano-modelo 2027, diante da morna demanda do mercado.
Lance Woelfer, responsável por operações de vendas da Honda nos Estados Unidos, expressou sem ambiguidades: “Sem dúvida tivemos sucesso com o Prologue, mas agora a chave para o mercado é o equilíbrio entre veículos de combustão interna e híbridos”.
A montadora japonesa já informou suas concessionárias americanas que a produção cessará no final de 2026, e que em seu lugar se concentrará em híbridos e veículos de combustão interna.

Equinox EV e Blazer EV: O Desmoronamento na Aposta Elétrica da GM
A General Motors apostou forte na eletrificação no México. Os SUVs Equinox EV e Blazer EV, ambos fabricados em Ramos Arizpe, Coahuila, eram o eixo de sua estratégia de veículos zero emissões para o mercado norte-americano. Mas entre janeiro e agosto de 2026, seus números desmoronaram: a Equinox EV caiu 79% e a Blazer EV 82%.
Os dados do primeiro semestre são igualmente contundentes. A produção da Equinox EV passou de 38.995 unidades em 2025 para apenas 7.185 unidades em 2026, enquanto a Blazer EV despencou de 10.469 unidades para 2.099 no mesmo período.
A GM já anunciou que transferirá a fabricação da Blazer a gasolina para o Tennessee, e que a Equinox EV se mudará para o Kansas, embora não tenha confirmado se também moverá a produção da Blazer elétrica.
A decisão de Sheinbaum de atribuir os cortes de pessoal na planta da GM em Coahuila à retirada de incentivos nos Estados Unidos já antecipava o que viria.
O Efeito Dominó
O colapso não se limitou a esses modelos. A Tacoma Hybrid Electric da Toyota, fabricada no México, registrou uma queda de 21%, com 22.993 unidades montadas até agosto, atribuível à menor demanda americana e ao pagamento de tarifas.
O Jeep Wagoneer S, a versão elétrica que a Stellantis produzia em Toluca, deixou de ser fabricado em 2024 após vender apenas 7.749 unidades no primeiro trimestre de 2025 e zero envios no mesmo período de 2026.
A única exceção à regra foi o Cadillac Optiq, que conseguiu se manter em terreno positivo com avanço de 1,3% nas exportações durante o primeiro trimestre de 2026, embora seu volume seja marginal em comparação com os modelos massivos.
Para Eric Ramírez, diretor regional para Latam da Urban Science, o colapso não é apenas consequência dos incentivos e das tarifas. Responde a uma lógica estrutural da indústria automotiva global: “O México sempre foi um laboratório de testes porque é mais barato. Se algo sai mal nos Estados Unidos, custa 20 vezes mais do que custa no país. Os erros são mais baratos no México, o nível de investimento é menor e os ganhos são maiores”, explicou ao El Universal.
Essa lógica explica por que Ford, Honda e GM decidiram fabricar seus modelos elétricos no México, testaram durante alguns anos e, quando a demanda americana desmoronou, retiraram a produção com uma facilidade que não teriam tido em território americano.
“Testaram alguns anos, tudo desabou, tiraram os projetos”, resume Ramírez. O analista também aponta que a queda não obedece unicamente a fatores políticos ou comerciais: “Nem todos os consumidores querem um veículo elétrico”, observa, lembrando que muitas pessoas, por sua atividade laboral ou zona de residência, preferem uma picape ou um híbrido.
Um Impacto de 70 Bilhões de Dólares em Nível Global
O colapso da produção mexicana de elétricos se enquadra em um contexto mais amplo de perdas globais. Segundo a publicação do El Universal, as montadoras acumulam perdas globais de 70 bilhões de dólares derivadas de seus investimentos em eletrificação, um ajuste que levou Ford, GM e Stellantis a reavaliar seus planos de produção de veículos de bateria em todo o mundo.
A crise não é exclusiva do México, mas o país a sente com particular intensidade devido à sua dependência do mercado americano e ao seu papel de plataforma de exportação para as Três Grandes de Detroit.
Por outro lado, enquanto a produção destinada à exportação afunda, o mercado interno mexicano de veículos eletrificados mostra uma dinâmica oposta. Entre janeiro e agosto de 2026, o México comercializou 129.359 veículos eletrificados, um crescimento de 46,1% em relação ao mesmo período de 2025.
No entanto, esse crescimento é impulsionado principalmente por importações asiáticas (marcas chinesas como MG, Geely, Changan, BYD e GAC, além de híbridos da Toyota), não pela produção nacional.
O paradoxo é evidente: o México tem a capacidade instalada, as plantas e a experiência para fabricar veículos elétricos de exportação, mas enfrenta um mercado americano que já não os demanda nos volumes anteriores.
A produção nacional de eletrificados destinada puramente à exportação caiu 57% no primeiro semestre de 2026, ao passar de 110.002 unidades em 2025 para 47.411 em 2026.
O Futuro Parece Incerto
O desfecho desta crise depende em grande medida das negociações do T-MEC que México e Estados Unidos mantêm desde setembro de 2026.
O pedido mexicano de reduzir a tarifa de 25% para menos de 15% é o primeiro passo, mas não resolve o problema de fundo: sem incentivos à compra nos Estados Unidos, a demanda de elétricos continuará deprimida.
Enquanto isso, a China emerge como o ator dominante na eletromobilidade global, com uma capacidade de produção que a PwC projeta que representará mais de 50% das vendas mundiais de elétricos em 2030.
Para Eric Ramírez, a lição é clara: a janela de oportunidade do México como centro de manufatura elétrica se fechou tão rápido quanto se abriu. “Os erros são mais baratos no México”, repete, mas nesta ocasião o erro não foi das montadoras, e sim de uma política comercial que mudou as regras do jogo de um dia para o outro.
O México, como laboratório de testes, pagou o preço de ser o primeiro a testar e o primeiro a desmontar quando o experimento falhou.

Próxima parada: Latam Mobility México 2026
A Latam Mobility Tour 2026 continuará sua jornada pela região, com a próxima parada na Cidade do México, nos dias 12 e 13 de outubro de 2026.
O evento, que já se desenha como o grande encerramento do ano para o setor, reunirá líderes dos setores público, privado, acadêmico e da sociedade civil de toda a América Latina para seguir acelerando a transição para uma mobilidade mais limpa, eficiente e sustentável.
O Latam Mobility México 2026 oferecerá uma plataforma única para aprofundar parcerias, conhecer as mais recentes inovações tecnológicas e traçar roteiros conjuntos que agilizem a descarbonização do transporte na região.
A Latam Mobility reafirma assim seu compromisso de ser o principal hub de transição energética e networking da América Latina – conectando ideias, projetos e pessoas que estão transformando a forma como nos deslocamos.


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