O El Niño é conhecido pelo setor elétrico brasileiro há bastante tempo, principalmente por seus impactos sobre o regime de chuvas — e, consequentemente, sobre a disponibilidade de geração hidrelétrica —, além dos efeitos sobre o consumo. Com o avanço das fontes renováveis intermitentes e as mudanças climáticas, o fenômeno e seus impactos sobre o sistema elétrico ganham novos contornos.
Em webinar realizado pela Auren Energia em parceria com o Climatempo, a meteorologista Nadiara Pereira, destacou duas tendências esperadas com o “Super El Niño” (aquecimento anômalo de pelo menos 2 °C no Oceano Pacífico Equatorial) que devem afetar diretamente os recursos energéticos no Brasil e os preços da energia no país.
Segundo a meteorologista, além de chuvas acima da média no Sul e clima mais seco e quente com atraso no período chuvoso no Norte e Nordeste, o fenômeno deve resultar em uma safra de ventos mais fraca neste ano, impactando a geração eólica.
“A gente esperava uma safra dos ventos um pouco mais forte e até um pouco mais prolongada, justamente porque a chuva deve demorar um pouco mais para se firmar ali na faixa norte do Nordeste”, disse. “O grande impacto negativo esse ano tem sido a formação de sistemas de baixa pressão atmosférica no oceano Atlântico e passagem de frentes frias que deslocaram e enfraqueceram a alta subtropical”.
Ao mesmo tempo, o El Niño eleva as temperaturas e potencializa ondas extremas de calor. Isso impulsiona diretamente o consumo de energia elétrica, principalmente no setor residencial e comercial devido ao uso intensivo de sistemas de refrigeração e ar-condicionado. Especialmente nos meses de novembro e dezembro, há uma expectativa de aumento significativo na carga do sistema devido a esses picos de temperatura.
Com isso, a expectativa é que a diferença de preço da energia entre o meio do dia (período de alta geração solar) e o horário de pico (a partir das 18h, quando a demanda sobe e a geração solar cessa) torne-se ainda mais acentuada, gerando picos de preços elevados no final do dia.
“Esse spread entre o meio do dia e o horário de pico, por mais que a gente tenha um preço [médio mensal do PLD] mais baixo [em comparação com 2025], está maior do que no mesmo período do ano passado”, disse a gerente de Preços e Estudos Energéticos da Auren, Waleska Lima. “A curva do pato vem se acentuando cada vez mais e os picos vem aparecendo cada vez mais”.
Lima mostrou que o spread entre o meio-dia e o horário de pico foi de R$ 430/MWh em setembro de 2026, contra R$ 225/MWh em igual mês do ano passado.
“E vale comentar que esse pico só não é maior porque existem também os limites de PLD. Ainda está em discussão, na CP 228, se haveria ou não uma mudança desses limites”, observou. “O spread poderia estar ainda mais acentuado se não fosse esse limite de preço”.
O diretor de Comercialização de Energia da Auren, Eduardo Diniz, acrescentou que a meteorologia tem uma influência de mais curto prazo sobre os preços da energia. Ele compartilhou que a perspectiva de longo prazo da Auren é de alta dos preços para 2029 e 2030, por motivos estruturais. A aversão ao risco dos geradores, principalmente com o aumento do curtailment, taxas de juros elevadas e o aumento da demanda por novos grandes consumidores (como data centers e projetos de hidrogênio verde).
Baterias como solução
O leilão de baterias previsto para o final do ano pode ajudar a solucionar a necessidade de potência no início da noite e o excesso de geração renovável em determinados períodos do dia, que são acentuados pelo El Niño.
Durante o webinar, o presidente da Absae, Markus Vlasits, avaliou que o sistema enfrenta uma queda acentuada da carga líquida no início da tarde, seguida por uma rampa de demanda cada vez mais íngreme a partir do fim da geração solar.
Nesse contexto, as baterias poderão ser carregadas em períodos de maior disponibilidade de energia e despachadas durante a ponta. Os contratos preveem remuneração fixa pela disponibilidade dos ativos, que serão operados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), sem que os empreendedores façam arbitragem livre no mercado de curto prazo.
Os projetos deverão ter autonomia mínima de quatro horas para descarga e capacidade de carregamento em até seis horas.
Além do atendimento à ponta, o desenho do leilão prevê requisitos de grid forming, permitindo que os inversores dos sistemas de armazenamento contribuam para a estabilidade do sistema por meio de respostas rápidas de potência ativa e reativa e de inércia sintética.
Os efeitos do El Niño por região geográfica do país:
- Região Sul: O fenômeno provoca chuvas fortes e muito acima da média. Isso resultou em uma melhora expressiva no armazenamento dos reservatórios e na Energia Natural Afluente (ENA) da região, que superou 200% da Média de Longo Termo (MLT) no segundo semestre.
- Regiões Norte e Nordeste: Apresentam um cenário oposto, caracterizado por clima mais seco, quente e com atraso no início do período chuvoso. Isso gera um ponto de atenção e risco de déficit de geração para as grandes usinas estruturantes localizadas no Norte, que não possuem reservatórios e dependem diretamente da regularidade das chuvas locais.
- Regiões Sudeste e Centro-Oeste: A chuva tende a ser mais irregular, ocorrendo principalmente na forma de pancadas e com risco de períodos de veranico (dias consecutivos de tempo seco e quente).



