Durante décadas, a relação do brasileiro com a energia elétrica resumiu-se a um gesto passivo: abrir a conta no fim do mês e pagar a tarifa estipulada pela concessionária local. No entanto, a consolidação da Geração Distribuída nos últimos anos provocou uma ruptura silenciosa no status quo nacional – uma mudança que promete ser ainda mais radical no médio prazo.
O país ostenta uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta. Em 2025, 89% de toda a nova capacidade instalada no Sistema Interligado Nacional veio de fontes renováveis, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME). No entanto, agora, o setor se vê no meio de uma revolução, em que o protagonismo migra de quem produz a energia para quem domina o seu uso.
A transformação ocorrida no Brasil em menos de uma década impressiona até mesmo alguém como eu, inserido em seu contexto e evolução.
Dados do setor, por exemplo, apontam que a GD ultrapassou a marca de 44 Gigawatts (GW) de potência instalada, alcançando mais de 7,3 milhões de unidades consumidoras (dados de maio de 2026) com algo como 21 milhões de brasileiros beneficiados. Com uma primeira fase pautada pela instalação massiva de usinas e painéis solares nos telhados.
Vejo um cenário de mercado que se desenha para o futuro que não pertence mais aos comercializadores de equipamentos, mas às empresas capazes de entender a inteligência de consumo do cliente final.
O painel fotovoltaico deixou de ser o produto final e passou a ser o ponto de partida de um conjunto integrado, que inclui baterias, veículos elétricos, infraestrutura pulverizada de carregamento e sistemas de gestão inteligentes. O “solar” deixa de ser um produto e passa a ser a base de um ecossistema.
No horizonte dos próximos cinco anos, acredito que a prioridade estratégica estará na ampliação do acesso.
Com a geração compartilhada e a energia por assinatura como instrumentos de democratização da economia na conta de luz para consumidores residenciais e pequenos comércios sem capital para investir ou espaço para instalação.
E a abertura gradual do mercado livre vai acelerar esse movimento, porém precisa superar dois grandes gargalos: o custo de capital elevado, que encarece o crédito de novos projetos, e a assimetria de informação – e sem resolver essas lacunas, os avanços podem ser limitados.
Falando em educação, grande parte dos consumidores ainda desconhece que pode aderir à geração distribuída e reduzir sua conta de luz sem qualquer investimento. Precisamos trabalhar essa conscientização com mais força no nosso mercado.
Para a próxima década, acredito que a verdadeira fronteira de inovação estará na convergência entre armazenamento de energia (BESS), mobilidade elétrica, inteligência de dados e a escolha do fornecedor.
No momento em que se torna mais comum o veículo elétrico e ele passa a ser abastecido em casa com as baterias residenciais permitindo gerenciar o uso nos horários de pico, a geração limpa se torna o pilar e o motor de uma vida ainda mais conectada. O real valor migra da geração isolada para a capacidade de prever hábitos e otimizar o consumo.
Por isso, reafirmo: os próximos passos do setor não vão depender apenas da expansão de grandes linhas de transmissão. Vão depender, sobretudo, da autonomia de escolha do consumidor final, de forma mais democrática e transparente.
Em poucos anos, o cidadão comum vai ocupar de fato o centro desse processo, não mais como quem só paga a conta, mas como o gestor definitivo do seu próprio ecossistema energético.
Por Hugo Andrade, fundador e CEO da Orbis Energia



