20 Milhões de Veículos Elétricos Vendidos no Mundo e um Problema de Fundo: A América Latina Consegue Suportar o Carregamento Inteligente?

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Durante o webinar “Plano México 2030: Nearshoring, Manufatura e o Ecossistema de Carregamento Inteligente”, organizado pela Latam Mobility, três referências do setor concordaram em um diagnóstico certeiro: a eletromobilidade na região avança em ritmo acelerado, mas a infraestrutura de recarga e a capacidade da rede elétrica não acompanham esse passo.

O encontro, que reuniu María Cabeza, Country Manager da SynergEV no México; Fadwa Kingsbury, Diretora de Operações da Ampcontrol; e Kathy Ardila, Commercial Manager da Invest in Latam como moderadora, trouxe à tona os desafios e as oportunidades que definem a transição energética no continente.

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Marcos Históricos

O mundo fechou 2025 com um recorde histórico nas vendas de veículos elétricos. Segundo o mais recente relatório Global EV Outlook da Agência Internacional de Energia (AIE), as vendas mundiais ultrapassaram pela primeira vez a marca de 20 milhões de unidades, representando mais de um quarto do mercado global de automóveis novos.

Esse crescimento, que se manteve firme apesar da incerteza econômica, posiciona os veículos elétricos como um fenômeno de massa e não como uma moda passageira.

As projeções para 2026 são igualmente otimistas. A AIE revisou suas previsões para cima e estima que os veículos elétricos representarão 29% das vendas mundiais de automóveis, o equivalente a cerca de 23 milhões de unidades.

A América Latina, com crescimento superior a 100% nas vendas durante o primeiro semestre de 2026, tornou-se um dos motores do crescimento mundial. México e Brasil, junto com Colômbia, Uruguai e Argentina, lideram esse dinamismo na região.

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O México Diante do Desafio do Nearshoring e da Manufatura

Nesse contexto de crescimento exponencial, o México se posiciona como um ator estratégico graças ao fenômeno do nearshoring, que atraiu investimentos estrangeiros para a manufatura de veículos elétricos e autopeças. No entanto, durante o webinar ficou claro que a produção de veículos não avança na mesma velocidade que a implantação da infraestrutura de recarga inteligente.

María Cabeza foi enfática ao apontar essa lacuna: “O México está traçando o rumo na produção, mas o crescimento na infraestrutura de recarga não está sendo igual. Para que esses veículos sejam vendidos, os usuários precisam ter a certeza e a tranquilidade de poder carregar.”

A executiva da SynergEV destacou que, embora o México ocupe um lugar-chave ao lado do Brasil na manufatura regional, o desafio central está em equilibrar essa balança para garantir que a oferta de veículos encontre uma rede de recarga confiável.

Fadwa Kingsbury complementou essa visão ao focar na capacidade da rede elétrica: “Mesmo que haja milhares de veículos, o problema vai ser a capacidade da rede. O grande desafio que vamos enfrentar é como suportar toda essa carga extra.”

A diretora da Ampcontrol alertou que o México pode aprender com as experiências da Europa, onde países como Alemanha e Países Baixos enfrentam desafios semelhantes e já começaram a integrar baterias, painéis solares e geradores para sustentar a demanda das frotas elétricas.

Kathy Ardila destacou a oportunidade que as energias renováveis representam para superar as limitações da rede atual. “O principal desafio, não apenas no México, mas em toda a América Latina, é a capacidade da rede instalada, que não é suficientemente modernizada. É aí que a implementação de projetos solares e soluções híbridas desempenha um papel fundamental, especialmente em locais não interconectados.”

Software, Dados e IA como Eixos de Transformação

Além da conexão física entre o veículo e o carregador, as especialistas concordaram que o futuro da eletromobilidade passa pela gestão inteligente da energia por meio de software, dados e inteligência artificial (IA). María Cabeza explicou que a SynergEV oferece soluções 360 graus que integram hardware e software para otimizar o uso da energia de acordo com o tipo de usuário: residencial, frotas ou hubs de recarga.

“Não se trata apenas de o carregador funcionar, mas de ele ser financeiramente sustentável. A energia precisa ser usada com base em serviços inteligentes, considerando as tarifas elétricas e os picos de consumo”, detalhou.

Fadwa Kingsbury aprofundou a abordagem da Ampcontrol, uma plataforma que centraliza todos os dados em um único software: desde a comunicação com os carregadores via protocolo OCPP até a telemetria dos veículos, o estado de carga das baterias e o planejamento de rotas.

“Reunir todos os dados permite um planejamento eficiente. Não se trata apenas de saber que existem tarifas de pico, mas de que essas tarifas coincidem com os horários em que os veículos estão no pátio”, explicou. A executiva acrescentou que a IA permite identificar falhas de maneira preditiva e resolver 99% dos problemas antes que eles ocorram, o que representa um salto qualitativo em relação aos modelos tradicionais de manutenção.

Ambas as especialistas concordaram que a flexibilidade operacional é tão importante quanto a tecnologia. “Os pátios e as frotas estão acostumados a operar de um jeito com veículos tradicionais, mas os elétricos exigem um novo modo de operação. Se as pessoas não se adaptarem, as ferramentas de nada adiantam”, alertou Kingsbury.

Inovações, Soluções, Políticas Públicas e Alianças Intersetoriais

O webinar também foi palco para anunciar novidades do setor. María Cabeza revelou que a SynergEV, empresa de origem americana, instalará sua primeira planta montadora no México no início de 2027. Essa decisão, explicou, responde à necessidade de agilizar os prazos de entrega e oferecer um serviço pós-venda mais eficiente – duas das principais dores do mercado mexicano, especialmente em um contexto de desafios tarifários e aduaneiros. “Estamos felizes porque vamos poder oferecer uma resposta mais ágil aos nossos clientes”, afirmou.

Fadwa Kingsbury destacou que a Ampcontrol está focada na integração de múltiplas fontes de energia – painéis solares, baterias e edifícios – para coordenar toda a energia em uma única plataforma. “Buscamos que os operadores consigam adicionar mais veículos sem precisar instalar mais carregadores, aproveitando ao máximo a infraestrutura existente”, explicou.

A executiva sublinhou a importância de planejar o longo prazo, considerando não apenas a demanda atual, mas também o crescimento projetado das frotas elétricas.

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Enquanto isso, o Plano México 2030, que inclui a meta de aumentar em 10% a produção de veículos elétricos montados no país, foi outro dos eixos centrais do debate. As especialistas concordaram que, para que esse plano seja bem-sucedido, são necessárias melhorias urgentes em políticas públicas, incentivos fiscais e alianças intersetoriais.

María Cabeza levantou a necessidade de uma regulação clara sobre interoperabilidade e padrões de conectores, que evite a fragmentação da infraestrutura, já que atualmente quatro tipos de conectores convivem na América Latina, o que complica a experiência do usuário.

Ela também defendeu incentivos fiscais como a dedução acelerada de 100% dos ativos de recarga inteligente – medida que, segundo disse, já está sendo impulsionada pelo setor privado junto aos órgãos governamentais.

Fadwa Kingsbury acrescentou que as alianças intersetoriais são fundamentais para avançar com passos firmes. “Se focarmos em um único grupo, perdemos a perspectiva do resto. É necessária uma estrutura tarifária dedicada à recarga, que dê às empresas certeza sobre seus custos no longo prazo”, apontou.

Além disso, ela propôs programas de conexões flexíveis, semelhantes aos que já são implementados na Califórnia e nos Países Baixos, que permitem aproveitar momentos de baixa demanda ou alta geração solar para ampliar a capacidade de recarga sem a necessidade de investir em nova infraestrutura.

“A eletromobilidade não precisa ser um ônus para a rede, mas sim um benefício. Se o solar for instalado, dá para devolver capacidade à rede”, refletiu Kingsbury, abrindo a porta para modelos de operação mais colaborativos e menos centralizados.

Um Encerramento com Visão de Futuro

O webinar concluiu com uma mensagem de unidade e propósito. María Cabeza resumiu o sentimento das participantes: “Não estamos vendendo algo que já existia; estamos ajudando a transformar a forma de nos locomover para deixar um mundo com menos pegada de carbono. Construir com inteligência, unir-nos a pessoas preparadas e dar passos sólidos é o que nos dará tranquilidade em 2030, 2040 e 2050.”

Kathy Ardila, em seu papel de moderadora, agradeceu às convidadas pelo compromisso e destacou que empresas como SynergEV e Ampcontrol estão fazendo a diferença ao oferecer soluções integrais que combinam tecnologia, sustentabilidade e visão de longo prazo.

O encerramento serviu também para convidar a comunidade a participar dos próximos eventos do Tour Latam Mobility 2026, uma série de encontros presenciais que percorrerão os principais mercados da região para fortalecer a cooperação e acelerar a transição para uma mobilidade de baixas emissões.

No próximo dia 25 de agosto, Santiago do Chile sediará o “Latam Mobility Cone Sul 2026”, um evento que reunirá mais de 500 participantes, autoridades governamentais e líderes do setor no Hotel InterContinental, na capital do país. Este encontro se configura como o ponto de encontro do Cone Sul e contará com a Argentina como país convidado.

Posteriormente, o tour culminará na Cidade do México nos dias 12 e 13 de outubro, no World Trade Center, com o “Latam Mobility México 2026” – a conferência e exposição líder em mobilidade sustentável, que será realizada em conjunto com o Climate Economy Forum. O evento espera reunir mais de 1.200 participantes e oferecerá espaços de networking, workshops especializados e lançamentos de novos modelos.

Com essas palavras, o webinar deixou claro que a eletromobilidade na América Latina não é uma promessa distante, mas uma realidade em plena expansão, e que o trabalho conjunto entre o setor público, o privado e a sociedade civil será fundamental para que o Plano México 2030 e os objetivos de descarbonização da região se tornem uma realidade tangível.

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