Quando a torcida muda a curva: o que a Copa revelou sobre demanda, solar e flexibilidade

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A eliminação do Brasil contra a Noruega encerrou a participação da seleção na Copa de 2026, mas deixou uma sequência pouco comum de experimentos sobre a demanda elétrica. Em diferentes dias e horários, milhões de pessoas alteraram deslocamentos, expedientes, atividades comerciais e hábitos dentro de casa.

Esses movimentos apareceram na curva de carga, mas não da mesma forma em todas as partidas. Um jogo numa segunda-feira à tarde produz resposta diferente de outro no sábado à noite ou no domingo no fim do dia. Horário, temperatura, atividade econômica, mobilidade e adesão social alteram a intensidade e, principalmente, o formato dessa resposta.

A Copa não prova uma relação causal simples entre futebol e consumo. Funciona como experimento natural e torna mais visível algo presente todos os dias: a demanda também carrega comportamento.

Famílias antecipam ou adiam banho, cozinha e climatização. Bares concentram atendimento. Empresas flexibilizam expedientes. O comércio muda o ritmo. Em grandes eventos, hábitos normalmente dispersos passam a ocorrer em janelas semelhantes.

Para o sistema elétrico, o ponto decisivo não é apenas quanto a carga cai. É quando ela cai, por quanto tempo permanece deslocada, como retorna e quais fontes estão produzindo durante esse movimento.

O jogo no vale solar

O confronto com o Japão foi especialmente relevante. Disputado em 29 de junho, uma segunda-feira útil, às 14h, ocorreu no miolo do vale solar, enquanto parte importante da economia ainda operava e a geração fotovoltaica atravessava uma de suas principais janelas de produção.

Entre 12h e 14h45, a carga bruta do SIN caiu de 77,52 GW para 66,57 GW. Depois, recompôs até 80,80 GW às 17h05, alta de 14,23 GW desde o vale. Na comparação adotada, a curva permaneceu abaixo dos dias comparáveis durante toda a faixa entre 12h e 18h.

A leitura ganha outra dimensão quando se observa a carga residual. Na análise, ela corresponde à carga global do ONS descontada da geração centralizada solar e eólica, a micro e minigeração distribuída já está refletida na carga observada.

Às 12h, a carga residual estava em 34,60 GW. Às 18h, chegou a 76,28 GW. Em seis horas, aumentou 41,68 GW, com rampa máxima de 16,38 GW em uma janela de 60 minutos, às 17h.

Quando a demanda volta e o sol sai

O futebol não criou sozinho essa rampa. Mas reorganizou a demanda durante a transição entre o período de elevada produção solar e o início da noite. Enquanto o consumo retornava, a geração fotovoltaica deixava a curva e outros recursos precisavam responder.

Esse é o ponto central: uma mesma redução de carga pode produzir consequências diferentes conforme o regime operativo.

No meio de uma tarde ensolarada, menor consumo pode aprofundar o vale residual e reduzir a capacidade de absorver toda a geração disponível. Algumas horas depois, a situação se inverte: a produção solar recua, a demanda retorna e o sistema precisa acompanhar os dois movimentos quase simultaneamente.

Em um jogo noturno, o efeito tende a se concentrar sobre usos residenciais, comerciais e de mobilidade. Nos fins de semana, a estrutura da carga já é diferente, com menor peso das atividades produtivas. Até a adesão ao evento importa. Na despedida contra a Noruega, os movimentos foram menos intensos, mas não desapareceram.

A Copa permitiu, portanto, observar diferentes combinações de comportamento, calendário e geração. Mais do que uma curiosidade sobre futebol, expôs regimes horários que as médias mensais não mostram.

Da média mensal para a observabilidade horária

Junho também deixou claro por que essa observabilidade ganhou valor econômico e operativo. No mês, a restrição agregada da geração eólica e solar acompanhada pelo ONS chegou a 18,3%, com picos diários superiores a 35%. Em feriados, os percentuais foram maiores, reforçando a influência do nível e do perfil da carga sobre a capacidade de acomodar a geração disponível.

Curtailment não é o centro desta discussão. É uma das consequências de um sistema no qual geração, rede e demanda precisam ser coordenadas em intervalos cada vez menores.

Feriados e jogos são eventos distintos, mas ajudam a enxergar o mesmo mecanismo. Quando a demanda diminui ou se desloca durante elevada produção renovável, o efeito pode alcançar despacho, intercâmbios, modulação contratual, preços e cortes de geração. Pouco depois, o sistema pode sair de uma condição de excedente e passar a exigir potência e flexibilidade.

O Brasil pode ter energia abundante em determinadas horas e necessidade de resposta rápida logo em seguida. Esse aparente paradoxo tende a se tornar mais frequente com a expansão das fontes variáveis.

Por isso, a discussão não pode permanecer limitada à quantidade anual de energia produzida, consumida ou restringida. Localização, horário, condição da rede, comportamento da carga e disponibilidade de recursos flexíveis definem quanto aquela energia efetivamente vale para o sistema.

Para comercializadoras, consumidores livres e geradores, essa leitura melhora a avaliação da modulação contratual, da exposição a preços e do risco de receita. Para distribuidoras, ajuda a antecipar novos perfis de consumo. Para o planejamento e a operação, permite distinguir necessidades de energia, potência, transmissão e flexibilidade.

A resposta passa por previsão de carga mais sofisticada, sinais econômicos coerentes, resposta da demanda, automação, armazenamento e melhor coordenação entre consumo, distribuição e operação.

A Copa tornou visível algo que a média costuma esconder: a demanda não é apenas uma série de números. Ela responde ao comportamento, ao calendário, à mobilidade, à temperatura e à atividade econômica.

Em um sistema cada vez mais renovável, observar apenas quanto se consome será insuficiente. Será necessário compreender quando a carga se move, por que se move e como sua recomposição interage com a geração disponível.

A energia não vale o mesmo ao meio-dia e às 18h. A demanda também não.

Sobre o autor: Felipe Figueiró é engenheiro eletricista e consultor em inteligência de mercado e estratégia para o setor elétrico, com mais de 12 anos de experiência. Atua na análise de dados, gestão de energia, mercado livre, geração distribuída, armazenamento e flexibilidade, conectando operação, regulação e comportamento da demanda a decisões de negócio.

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