O mercado brasileiro de sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS) atingiu recentemente a marca de 1 GW de capacidade instalada e começa a diversificar suas aplicações, impulsionado por modelos de negócio que combinam diferentes fontes de receita e reduzem o tempo de retorno dos investimentos. Embora o país ainda não disponha de incentivos públicos semelhantes aos observados em mercados mais maduros, fabricantes e integradores enxergam oportunidades crescentes nos segmentos comercial e industrial, na mobilidade elétrica, em usinas híbridas e no suporte à rede elétrica.
O cenário foi debatido durante encontros que antecedem o Greener Summit 2026, que acontece nos dias 21 e 22 de julho em São Paulo (SP), e reuniram representantes da WEG e da Fox ESS para discutir as tendências do setor.
No mercado internacional, o armazenamento já ocupa posição estratégica na expansão das energias renováveis. A Europa, responsável por cerca de 30% do mercado global, adicionou aproximadamente 36 GW de capacidade em 2025. A Austrália passou a oferecer, em julho de 2025, um incentivo equivalente a cerca de 30% do custo de instalação de baterias associadas à geração solar, enquanto a Índia aprovou apoio financeiro para 30 GW de projetos de armazenamento. Na América Latina, o Chile amplia a utilização dos sistemas para mitigar cortes de geração renovável, enquanto a Argentina avança em aplicações comerciais, industriais e de grande porte.
A importância do empilhamento de receitas
No Brasil, o crescimento tem sido sustentado principalmente pela lógica econômica dos projetos. Segundo o diretor de Vendas de Solar, BESS & Building da WEG, Harry Schmelzer Neto, a viabilidade financeira depende cada vez menos de uma única aplicação e mais do chamado empilhamento de receitas, que combina diferentes serviços prestados pelo mesmo sistema.
“Apenas o load shifting, sem um backup, pode resultar em payback muito longos em algumas regiões. Quando o projeto reúne load shifting, backup, a atratividade é muito maior”, afirmou.
Ele nota que, enquanto o load shifting, aplicação em que as baterias são carregadas nos períodos de energia mais barata e descarregadas durante o horário de ponta, é uma estratégia já bastante conhecida, há outras que poderiam ser mais exploradas.
Uma delas é o peak shaving, utilizado por consumidores industriais para reduzir picos de demanda e evitar custos associados à ampliação da infraestrutura elétrica ou ao aumento da demanda contratada. Em alguns casos, apenas o investimento evitado em obras como a substituição de transformadores ou a migração para níveis superiores de tensão já é suficiente para justificar economicamente a adoção do BESS.
Outra frente de crescimento é a integração entre sistemas fotovoltaicos e baterias em configurações behind-the-meter. Nesses projetos, a energia excedente produzida pelos painéis solares é armazenada para consumo posterior, reduzindo a dependência da rede elétrica e evitando limitações relacionadas à injeção de energia.
Segundo Schmelzer Neto, a WEG também identifica oportunidades junto às distribuidoras de energia. A empresa desenvolve sistemas móveis de armazenamento, instalados em carretas, para atender situações temporárias de sobrecarga ou interrupções no fornecimento, além de avaliar modelos de locação dos equipamentos.
Adaptação às características locais
Na avaliação do gerente de Produtos BESS Latam da Fox ESS, Fernando Domingos, a principal motivação dos clientes brasileiros continua sendo a necessidade de aumentar a confiabilidade do fornecimento de energia.
“O backup é, disparadamente, a maior dor do mercado brasileiro. Em diversos segmentos industriais, uma interrupção de poucos minutos representa perdas significativas de produção”, afirmou.
A partir dessa demanda, a fabricante adaptou tecnologias originalmente desenvolvidas para outros mercados, inclusive incluindo a funcionalidade backup que é uma demanda mais comum no Brasil, disse o diretor de Novos Negócios Latam da Fox ESS, Fernando Castro.
Um dos exemplos é um sistema compacto que integra armazenamento, geração fotovoltaica, grupo gerador e chave de transferência ultrarrápida, capaz de realizar a comutação entre as fontes em aproximadamente 10 milissegundos.
A empresa também desenvolveu soluções específicas para atender às diferentes configurações da rede elétrica brasileira, que podem ter, a depender da região, tensões de 220 V, 380 V e 440 V, além de ampliar a oferta de soluções híbridas e sistemas “all-in-one”, tendência já consolidada em mercados como o europeu.
Além da evolução tecnológica, o crescimento sustentável do setor dependerá da formação de profissionais especializados, observou Castro.
“O armazenamento é uma tecnologia muito mais complexa do que os sistemas fotovoltaicos convencionais. Fabricantes, distribuidores e instaladores precisam investir conjuntamente em capacitação para garantir projetos confiáveis e acelerar a maturidade do mercado”, disse.
Com custos em queda, maior diversificação das aplicações e perspectivas de novos modelos de remuneração para serviços prestados ao sistema elétrico, o armazenamento por baterias passa a ocupar um papel cada vez mais estratégico na transição energética brasileira, mesmo na ausência, até o momento, de programas nacionais de incentivo semelhantes aos adotados por outros mercados.



