Durante o segundo trimestre de 2026, a Europa atingiu um novo recorde de geração fotovoltaica, produzindo 129 TWh de eletricidade, quase 20% acima do registrado em qualquer segundo trimestre anterior. De acordo com o relatório Q2 European Electricity Market Summary, da Montel, o aumento da geração solar está redefinindo o papel dos ativos flexíveis e evidenciando uma lacuna crescente entre a geração renovável e a capacidade do sistema elétrico de absorvê-la.
Impulsionado por longos períodos de insolação e pela persistência de sistemas de alta pressão atmosférica, o aumento da geração solar levou muitos operadores de usinas termelétricas flexíveis e de sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS) a reduzirem sua participação no mercado day-ahead. Em vez de ofertar energia nesses leilões, muitos reservaram capacidade para os mercados intradiário, de balanceamento e de serviços ancilares, onde esperam obter retornos mais elevados.
Segundo a Montel, essa estratégia transfere uma parcela maior da responsabilidade pelo balanceamento do sistema para os mercados de curto prazo, aumenta a volatilidade dos preços no mercado intradiário e eleva o valor de ativos capazes de responder rapidamente às necessidades da rede elétrica.
O segundo trimestre evidenciou tanto os benefícios quanto os desafios de um sistema elétrico com alta penetração solar. A geração fotovoltaica recorde levou a sucessivos cortes de geração (curtailment) durante os horários de pico de produção, empurrando os preços da eletricidade no mercado atacadista para território negativo em diversos mercados europeus. A Espanha registrou o maior número de horas com preços negativos da Europa no primeiro semestre de 2026, com 596 horas. Portugal veio em seguida, com 462 horas, enquanto a França registrou 370 horas.

No fim de abril, os preços em partes da Europa se aproximaram do limite técnico mínimo, levando as bolsas de energia a reduzirem o piso dos preços de -€ 500 (US$ 570,6)/MWh para -€ 600/MWh.
Semanas depois, uma onda de calor em junho elevou significativamente a demanda por refrigeração e, ao mesmo tempo, reduziu a geração de usinas solares térmicas, termelétricas convencionais e nucleares. Como resultado, França e Espanha registraram repetidamente preços diários e semanais da eletricidade acima de € 100/MWh, enquanto os preços no período da tarde na Alemanha ultrapassaram € 600/MWh, evidenciando o crescente descompasso entre a abundante geração solar ao meio-dia e o forte aumento da demanda após a queda da produção fotovoltaica.
A Montel espera que essas tendências se intensifiquem durante o terceiro trimestre. As previsões meteorológicas indicam alta probabilidade de novas ondas de calor na Europa Ocidental e Central durante julho e agosto, combinadas com elevada irradiação solar e ventos fracos, condições que devem manter a geração fotovoltaica acima da média sazonal.
Na Alemanha, maior mercado de eletricidade da Europa, a geração solar poderá atingir níveis até 20% superiores ao normal caso persistam as condições climáticas observadas em junho. Nesse cenário, é provável que ocorram períodos mais frequentes de preços fortemente negativos ao meio-dia, seguidos por picos acentuados nos preços durante a noite, à medida que a geração fotovoltaica diminui e aumenta a necessidade de geração despachável para atender à demanda por refrigeração.
A Montel também identifica diversos fatores que devem influenciar os mercados europeus de eletricidade no terceiro trimestre. Entre eles estão a continuidade das incertezas geopolíticas em torno do fornecimento de gás natural liquefeito (GNL) e as tensões no Oriente Médio, que sustentam os preços do gás e mantêm um patamar relativamente elevado para os preços da eletricidade nos períodos de maior demanda.
O relatório também prevê a continuidade da retirada seletiva de ativos flexíveis dos leilões day-ahead. Com o aumento do risco de preços negativos, espera-se que operadores de usinas flexíveis e sistemas de armazenamento em baterias priorizem receitas provenientes dos mercados intradiário e de balanceamento, reduzindo a liquidez do mercado day-ahead e ampliando a volatilidade dos preços.
A Montel identifica o Sudeste da Europa como uma das regiões mais vulneráveis a eventos extremos de calor. Em junho, as altas temperaturas obrigaram a usina nuclear de Paks, na Hungria, a reduzir sua geração, demonstrando como restrições locais de oferta podem rapidamente resultar em fortes picos de preços. Os mercados do sul da Europa, com elevada participação de energia solar e capacidade limitada de interconexão, devem apresentar a maior volatilidade, enquanto mercados com maior disponibilidade de hidrelétricas, geração flexível a gás ou interconexões transfronteiriças mais robustas tendem a ser mais resilientes, embora não estejam imunes a eventos semelhantes.



