A expansão da infraestrutura de recarga de veículos elétricos no Brasil cria oportunidades para integradores, operadores e empresas de energia, mas ainda esbarra em gargalos como demora para conexão, falta de interoperabilidade entre redes de recarga e necessidade de soluções para gerenciamento da demanda. Para Rafael Cunha, sócio fundador da Move, o mercado entra em uma etapa de maior diversificação, na qual a recarga residencial, em condomínios e em espaços públicos abre diferentes frentes de atuação.
A Move, que atua no desenvolvimento de software para gerenciamento e controle de carregadores, identificou o potencial do mercado brasileiro ainda em 2018. Segundo Cunha, a empresa começou desenvolvendo uma plataforma para administrar equipamentos em um momento em que a infraestrutura de recarga ainda estava em uma fase inicial e não havia cobrança pelas sessões.
Atualmente, a companhia reúne mais de 3.000 equipamentos conectados à plataforma, de mais de 50 marcas. A maior parte está no Brasil, mas a empresa também fornece seu sistema para operações no exterior, incluindo a maior rede pública de recarga da Colômbia.
Recarga residencial é porta de entrada para integradores
Para Cunha, a instalação de carregadores residenciais é a primeira oportunidade que surge a partir da aquisição de um veículo elétrico. A expansão dessa demanda também aproxima o mercado de eletromobilidade do setor fotovoltaico, especialmente em um momento de maior competição entre integradores solares.
“Para quem instala um sistema fotovoltaico, o carregador acaba sendo algo muito mais trivial, muito mais simples, claro, observando-se regras e normas específicas”, afirmou.
A atuação em condomínios, por outro lado, exige uma abordagem mais complexa. Como normalmente há vários usuários e uma capacidade elétrica limitada, o projeto precisa considerar a demanda existente e a possibilidade de instalação simultânea de múltiplos carregadores.
Nesse segmento, segundo o executivo, surgem oportunidades para elaboração de laudos, análise de capacidade, projetos elétricos e implementação de sistemas de balanceamento de carga. A solução deixa de ser apenas o fornecimento do carregador e passa a envolver o gerenciamento da infraestrutura como um todo.
“O que você passa a vender é uma solução de recarga. Isso pode envolver software e outras questões, e não apenas o carregador”, disse.
No segmento público, as possibilidades são ainda mais amplas, incluindo instalação, importação e distribuição de equipamentos, representação de fabricantes, manutenção e operação de redes de recarga. Cunha observa que empresas originalmente ligadas ao setor solar já começam a migrar para esse mercado e criar suas próprias redes.
Conexão à rede é um dos gargalos
Embora a expansão dos eletropostos possa ser uma via de diversificação de negócios, ela também esbarra em um dos principais desafios que limitam o crescimento fotovoltaico, a dificuldade para obter aumento de carga ou autorização para novas conexões.
De acordo com Cunha, há projetos de infraestrutura de recarga de VEs já instalados, inclusive com transformadores disponíveis, aguardando apenas a conexão pela distribuidora. Em um dos casos acompanhados pela empresa, o projeto estava instalado havia oito meses sem que a conexão tivesse sido concluída.
O atraso afeta diretamente o cronograma físico e financeiro dos empreendimentos, postergando o início da operação e, consequentemente, o retorno sobre o investimento.
Ao mesmo tempo, o executivo avalia que a infraestrutura de recarga pode ser integrada a projetos de geração distribuída para contornar parte das limitações enfrentadas pelos sistemas fotovoltaicos. Uma possibilidade seria utilizar a coincidência entre o período de geração solar e a demanda por recarga para desenvolver projetos com menor dependência da rede.
“Eu ainda estou para ver algum projeto grid zero com carregador, mas seria possível. Um conceito desse tipo pode favorecer um projeto fotovoltaico que tem alguma limitação de injeção”, afirmou.
Segundo Cunha, a combinação exige integração e inteligência de controle, mas já é tecnicamente viável.
O armazenamento também pode ganhar espaço nesse modelo. A utilização de baterias em eletropostos permitiria reduzir a necessidade de aumento de carga e atender momentos de maior demanda sem exigir que toda a potência necessária seja disponibilizada instantaneamente pela rede.
A estratégia pode ser particularmente relevante à medida que veículos e carregadores passam a operar com potências cada vez maiores. Cunha cita o desenvolvimento de sistemas capazes de fornecer até 1 MW para um veículo, uma demanda que dificilmente estaria disponível diretamente na rede em determinados pontos urbanos.
“O veículo é carregado pela rede até o limite de disponibilidade e o restante a bateria descarrega. Isso fica muito mais interessante do ponto de vista do CapEx e também do operacional”, explicou.
Apesar do potencial, o custo das baterias ainda limita a adoção dessa configuração. A expectativa da Move é de que a redução do preço por quilowatt-hora possa melhorar significativamente a viabilidade econômica desses projetos nos próximos dois anos.
Modelos de negócio além da instalação
A expansão da infraestrutura de recarga de veículos elétricos abre espaço para diferentes modelos de investimento e operação. O proprietário de um estabelecimento pode adquirir e operar o equipamento, mas também pode disponibilizar o espaço para uma empresa especializada instalar e administrar o carregador.
Nesse segundo modelo, a remuneração pode ocorrer por meio de uma mensalidade fixa pelo uso do espaço ou de uma participação na receita da operação. Também existem estruturas nas quais o estabelecimento paga pela energia consumida e o operador da rede remunera o proprietário com base na receita gerada.
Segundo Cunha, a flexibilidade é favorecida pelo fato de a regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) não estabelecer uma estrutura rígida para a comercialização do serviço de recarga.
“A recarga é um serviço livremente negociado. Ainda não temos uma regulamentação específica tributária, mas, do ponto de vista da Aneel, isso não é uma barreira”, afirmou.
Fragmentação de redes de recarga
Um dos principais gargalos da recarga de veículos elétrico no Brasil é a fragmentação dos serviços de recarga, aponta Cunha. O crescimento acelerado do mercado levou à formação de diferentes redes de carregamento que funcionam de maneira independente.
Como resultado, o proprietário de um veículo elétrico precisa de diferentes aplicativos e cadastros para utilizar carregadores de redes distintas, algumas vezes na mesma cidade.
Para Cunha, a solução passa pela interoperabilidade entre os sistemas. Tecnicamente, porém, a integração das plataformas não é o único obstáculo. Também existem questões comerciais relacionadas à divisão de receitas e aos incentivos para que redes de diferentes portes se conectem.
“O desafio é fazer essas ilhas se integrarem e passar a ter uma rede de fato conectada. Existe um desafio técnico, mas também um desafio comercial, de convencer por exemplo uma rede grande a integrar com uma menor”, comentou.
A pressão das montadoras pode acelerar esse processo. Segundo o executivo, as fabricantes de veículos começaram a atuar mais diretamente para estimular a interoperabilidade, depois de um período em que as próprias empresas de aplicativos tinham pouco incentivo para integrar plataformas concorrentes.
Cunha avalia que os avanços ainda são tímidos, mas espera uma infraestrutura significativamente mais interoperável a partir de 2027.
Plug and Charge e veículos como recursos da rede
A evolução tecnológica também deve alterar a experiência de recarga. Entre os temas discutidos no congresso Power2Drive esteve o conceito de Plug and Charge, baseado na norma ISO 15118, que permite ao veículo e ao carregador se identificarem automaticamente e iniciar a sessão sem a necessidade de aplicativos.
Segundo Cunha, a tecnologia já possui aplicações práticas na Europa e nos Estados Unidos, mas ainda não há casos em operação no Brasil.
Outro caminho de longo prazo é a utilização das baterias dos veículos como recursos para o sistema elétrico. A tecnologia Vehicle-to-Grid (V2G) permite que a energia armazenada nos veículos seja devolvida à rede, criando a possibilidade de agregação de múltiplos veículos em uma espécie de usina virtual.
“Se vários carros puderem contribuir com a rede, você pode prestar serviços auxiliares, absorver excedentes de solar e injetar energia à noite, em um horário de falta. Pensando em todos os carros atuando na rede de forma descentralizada, você tem, no fim das contas, uma VPP”, afirmou.
Embora esse modelo ainda esteja distante da aplicação em escala no Brasil, a experiência internacional pode antecipar os caminhos tecnológicos e regulatórios para sua adoção.
Para Cunha, a evolução do mercado já pode ser percebida tanto na oferta de equipamentos quanto no nível das discussões técnicas. Na edição deste ano da Power2Drive, parte da The Smarter E South America, ele destaca o aumento da diversidade de soluções, incluindo sistemas de segurança contra furto de cabos, plataformas de gerenciamento e ferramentas baseadas em inteligência artificial.
No congresso, também ganharam espaço temas como dimensionamento de hubs de recarga, tecnologias de baterias, carregamento ultrarrápido e integração de frotas conectadas. Para o executivo, a profundidade das discussões indica que a infraestrutura de recarga brasileira começa a avançar de uma fase de implantação inicial para uma etapa de maior maturidade tecnológica.



