A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31) será realizada na Turquia em novembro de 2026. Uma das principais metas é aumentar a participação da eletricidade no atendimento à demanda de energia final, dos atuais 20% para 35% até 2035.
O aumento da demanda por eletricidade sinaliza a elevação da renda nos países em desenvolvimento e o avanço da chamada “eletrificação de tudo”, viabilizada pelas fontes solar e eólica. O resultado é uma energia produzida localmente muito mais barata, limpa e confiável.
A maioria das economias industrializadas — incluindo Estados Unidos, China, União Europeia, Japão e Austrália — registra consumo anual de eletricidade de 6 MWh a 12 MWh per capita, em comparação com a média global de 4 MWh. Na América Latina, na Índia e nos países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), o indicador varia de 1 MWh a 3 MWh por pessoa.
Em uma economia avançada e de alta renda, são necessários cerca de 20 megawatts-hora (MWh) de eletricidade limpa por pessoa ao ano para descarbonizar o transporte terrestre, o aquecimento e a refrigeração de edifícios, o aquecimento de água e o calor utilizado em processos industriais. Isso pode ser alcançado com relativa facilidade usando tecnologias já disponíveis comercialmente.
Outros 5 MWh a 25 MWh por pessoa ao ano são necessários para descarbonizar a indústria química, incluindo a produção de metais, plásticos, cimento, insumos químicos e combustíveis sintéticos para o transporte marítimo e a aviação. Essa etapa exigirá um desenvolvimento tecnológico substancial ao longo da próxima década.
A expressão “energia final”, utilizada na meta da COP31, refere-se aos produtos energéticos entregues ao consumidor, incluindo combustíveis veiculares, gás natural e eletricidade. Trata-se de uma métrica inadequada para medir o consumo de energia, pois mistura energia química e energia elétrica. A eletricidade consumida por uma bomba de calor ou um veículo elétrico é de três a cinco vezes menor do que a energia dos combustíveis fósseis necessária para fornecer o mesmo serviço.
Eletrificação acelerada na Austrália
A COP31 é liderada conjuntamente pela Turquia e pela Austrália. O país da Oceania tem uma experiência de eletrificação que merece destaque.
A Austrália ocupa o primeiro lugar mundial em geração solar per capita e o oitavo em geração eólica. A meta do governo para 2030 é obter 82% da eletricidade de fontes renováveis, principalmente solar e eólica, ante os atuais 50%.
O estado da Austrália Meridional caminha para atingir 100% de suprimento líquido de eletricidade proveniente de energia solar e eólica em 2028. A região se tornou um destino atraente para empresas que desejam fabricar produtos utilizando energia limpa.
Mais de 40% das residências australianas possuem sistemas solares nos telhados, a maior proporção per capita do mundo. A expectativa é que esse percentual alcance 50% até 2030. Os novos sistemas têm potência média de 10 kW e custo de instalação completa de US$ 10 mil. Esse baixo custo decorre de processos de aprovação governamental simplificados, mão de obra experiente e ausência de tarifas de importação.
Cerca de 7% das residências australianas possuem baterias, e a expectativa é que esse percentual triplique até 2030, levando o país à primeira posição mundial em capacidade instalada per capita. As novas baterias residenciais têm capacidade típica de 25 kWh. A adoção desses equipamentos é impulsionada pelo apoio governamental, que vem sendo gradualmente reduzido à medida que cumpre sua função de estimular o desenvolvimento do setor.
Uma revolução na energia residencial está em curso. A combinação de baterias domésticas com sistemas solares nos telhados, bombas de calor e veículos elétricos permite que as famílias tenham acesso a energia abundante, limpa, confiável e permanentemente barata: menos de US$ 800 por ano com eletricidade, sem despesas com gás natural ou combustíveis veiculares.
A conclusão do sistema de armazenamento hidrelétrico reversível Snowy 2.0, prevista para aproximadamente 2029, acrescentará 13 kWh de capacidade de armazenamento de energia de longa duração por pessoa à Austrália, colocando o país na primeira posição mundial nesse indicador.
A adoção de veículos elétricos está crescendo rapidamente, impulsionada pela guerra contra o Irã. Atualmente, esses veículos representam um quarto das vendas de carros novos, proporção semelhante à média mundial, embora ainda muito inferior à da Noruega, líder global, onde alcançam 98%.
O avanço da energia solar e das baterias está produzindo um efeito expressivo nos preços da eletricidade no mercado atacadista. O gráfico mostra os preços médios dos contratos à vista no mercado atacadista do Mercado Nacional de Eletricidade da Austrália desde 2012, corrigidos pela inflação (barras azuis), e a participação das fontes renováveis na geração (linha vermelha). O gás natural fóssil, de custo elevado, vem perdendo espaço tanto no fornecimento de serviços ancilares quanto na geração para os períodos de pico. Sua participação na geração caiu de 13% há uma década para 3% atualmente.

Autores: prof. Ricardo Rüther (UFSC) e prof. Andrew Blakers (ANU)
Andrew.blakers@anu.edu.au
rruther@gmail.com
A International Solar Energy Society (ISES) é uma organização não governamental de membros, credenciada pela ONU e fundada em 1954, que trabalha para promover um mundo com 100% de energia renovável, utilizada de maneira eficiente e responsável.



