A Enerzee, empresa brasileira de soluções energéticas, anunciou um investimento inicial de R$ 100 milhões para lançar o Enerzee Recharge, sua nova operação de mobilidade elétrica. O projeto prevê a implantação de 100 eletropostos em 18 meses, que acrescentarão 800 vagas de carregamento à infraestrutura brasileira, com uma média de oito posições por estação.
A primeira implantação será em Cuiabá (MT), cidade-sede da companhia. A partir daí, o plano avança inicialmente pelas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, responsáveis por cerca de 76% das vendas de veículos eletrificados leves no Brasil. Em vez de pulverizar as primeiras unidades pelo território nacional, a estratégia será concentrar os investimentos onde há maior demanda, renda, densidade urbana e circulação de veículos eletrificados, formando clusters de estações.
A decisão foi anunciada em um cenário de avanço dos carros eletrificados no Brasil, que começa a criar um novo mercado em torno da infraestrutura necessária para abastecer essa frota. Somente no primeiro semestre de 2026, foram vendidos mais de 217 mil veículos eletrificados leves no país, crescimento superior a 125% na comparação com o mesmo período de 2025. A categoria já responde por 15,8% do mercado brasileiro de veículos leves e atingiu, em junho, o recorde de mais de 47,5 mil unidades comercializadas em um único mês.
A expansão acelerada, no entanto, expõe um gargalo: a infraestrutura de recarga não cresce no mesmo ritmo da frota. Até junho de 2026, o Brasil acumulava mais de 815 mil veículos plug-in, dos quais mais de 240 mil são 100% elétricos e, portanto, dependem integralmente de carregamento. Hoje, a relação é de aproximadamente 20 veículos plug-in para cada ponto de recarga. O país possui mais de 25 mil pontos públicos e semipúblicos, mas pouco mais de 8,5 mil oferecem recarga rápida, considerada estratégica principalmente para viagens e deslocamentos de maior distância.
Para a Enerzee, a disponibilidade de carregadores, especialmente os rápidos, tende a se tornar um fator determinante para a expansão desse mercado e para reduzir uma das principais barreiras percebidas pelo consumidor: a incerteza sobre onde recarregar o veículo, sobretudo durante viagens.
Parcerias e participações
O Enerzee Recharge será desenvolvido em parceria com WEG e Tupi. A Enerzee será responsável pela integração do projeto, enquanto a WEG fornecerá equipamentos e tecnologia para as estações. A Tupi ficará responsável pela gestão do negócio e pelo sistema de pagamentos. A operação foi estruturada para reunir infraestrutura, tecnologia, pagamentos, gestão e dados em uma única plataforma, permitindo que a rede seja acompanhada e administrada de forma integrada.
Além da receita proveniente das recargas, a companhia pretende transformar a expansão dos eletropostos em uma nova frente de negócios para empreendedores e investidores. O modelo prevê três formas de participação: adquirir cotas e tornar-se sócio de uma estação, atuar na comercialização dos eletropostos ou ser proprietário de uma unidade e participar das receitas geradas pela operação. A estratégia é utilizar também a rede de consultores, integradores e parceiros da Enerzee para identificar locais, oportunidades comerciais e potenciais investidores em diferentes cidades.
A aposta é que a escala da mobilidade elétrica transforme os pontos de carregamento em uma nova categoria de infraestrutura energética. Ao chegar a 100 estações e 800 posições de carregamento em apenas 18 meses, a Enerzee pretende construir presença regional antes de ampliar a rede para outras áreas do país. A lógica é semelhante à formação de uma rede física associada a uma plataforma digital: quanto maior a capilaridade, maior a conveniência para o motorista e maior o potencial de geração de dados, relacionamento e novas receitas.
O investimento também representa uma mudança de posicionamento da própria Enerzee. Nascida no mercado de energia solar, a companhia passa a se apresentar como uma plataforma 360 de energia e eletrificação, capaz de acompanhar diferentes etapas da jornada energética do consumidor. O ecossistema inclui geração solar, energia por assinatura, soluções de armazenamento, mercado livre de energia, mobilidade elétrica e plataformas digitais. Na prática, um cliente pode contratar um sistema fotovoltaico para sua residência ou empresa e, em outra frente, participar como investidor da infraestrutura usada para carregar veículos elétricos.
A estratégia faz parte de uma ambição de longo prazo. Até 2030, a Enerzee pretende estar entre as maiores plataformas descentralizadas de energia e eletrificação da América Latina, conectando geração, consumo, mobilidade, tecnologia e negócios. A tese da companhia é que o próximo ciclo do setor será menos centralizado e cada vez mais formado por consumidores que também geram energia, empresas que comercializam e gerenciam eletricidade e uma rede distribuída de infraestrutura de recarga.
“A discussão já não é mais se os carros elétricos vão crescer, mas onde eles serão carregados e em qual rede o motorista poderá confiar. A frota chegou antes da infraestrutura, e é justamente nesse espaço que queremos construir uma grande rede”, afirma Alexandre Sperafico, CEO da Enerzee.



