Esse é o primeiro artigo da série O Futuro da Liderança na Transição Energética, apresentado pela Rede MESol
Quando pensamos em transição energética, é comum que as primeiras imagens que vêm à mente sejam grandes usinas fotovoltaicas, parques eólicos, sistemas de armazenamento de energia. São temas que dominam os debates do setor e representam avanços tecnológicos fundamentais para a construção de uma matriz energética mais limpa, eficiente e sustentável.
Mas existe um elemento igualmente decisivo que, muitas vezes, recebe menos atenção: as pessoas.
Nenhuma inovação é implementada sem profissionais qualificados. Nenhuma empresa cresce de forma sustentável sem boas lideranças. Nenhuma transformação acontece apenas pela adoção de novas tecnologias. A verdadeira transição energética depende da capacidade das organizações de desenvolver talentos, formar equipes, estimular a inovação e preparar líderes capazes de conduzir mudanças em um cenário cada vez mais complexo.
O setor de energia vive um momento singular. Nunca houve tanta inovação disponível, tantos investimentos direcionados às fontes renováveis e tantas oportunidades de crescimento: segundo o relatório “Renewable Energy and Jobs”, publicado pela IRENA em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) no início de 2026, o setor de renováveis já soma 16,6 milhões de empregos no mundo, e o Brasil aparece na terceira posição do ranking global, com 1,4 milhão de postos, atrás apenas de China e União Europeia.
Ao mesmo tempo, nunca foi tão evidente a necessidade de profissionais preparados para lidar com desafios técnicos, regulatórios, econômicos e sociais que evoluem em ritmo acelerado. O próprio relatório da IRENA/OIT traz um sinal de alerta: pela primeira vez, o ritmo de criação de empregos no setor desacelerou, crescendo 2,3% ao ano mesmo com as instalações de renováveis batendo recorde, um indício de que a expansão da capacidade instalada está deixando de ser acompanhada, na mesma velocidade, pela formação de gente preparada para operar, gerir e liderar essa capacidade.
Durante muito tempo, o diferencial competitivo das empresas esteve concentrado na tecnologia. Hoje, ela se tornou mais acessível: equipamentos semelhantes, softwares cada vez mais sofisticados e processos mais padronizados reduziram as diferenças entre muitas organizações.
O que passa a diferenciar uma empresa da outra é sua capacidade de atrair, desenvolver e reter pessoas, e é justamente nesse ponto que a liderança ganha protagonismo.
Liderar, atualmente, vai muito além da gestão de equipes. Significa criar ambientes capazes de estimular o aprendizado contínuo, a colaboração entre diferentes áreas, a inovação e a adaptação constante. Significa também construir uma cultura organizacional que permita que profissionais de diferentes perfis contribuam com ideias, assumam responsabilidades e cresçam junto com o negócio, o que, na prática, passa por decisões concretas: programas estruturados de mentoria, planos de sucessão que comecem anos antes da vacância de um cargo e metas de desenvolvimento de liderança avaliadas com o mesmo rigor que metas comerciais e técnicas.
Essa mudança é particularmente importante em um setor que enfrenta desafios simultâneos.
De um lado, existe a necessidade crescente de profissionais qualificados. A expansão da geração renovável, dos sistemas de armazenamento, da digitalização das redes elétricas e da eletrificação da economia exige novas competências que nem sempre são desenvolvidas na velocidade necessária pelas instituições de ensino: um levantamento da Agência Internacional de Energia (IEA) mostra que 36% das vagas do setor de energia limpa exigem qualificação avançada, contra 27% em outros segmentos da economia, e que a oferta de novas certificações técnicas não tem acompanhado esse salto de exigência. De outro lado, muitas empresas convivem com dificuldades para formar sucessores, desenvolver lideranças intermediárias e manter talentos em um mercado cada vez mais competitivo, no qual engenheiros, técnicos e gestores especializados em renováveis são disputados por concorrentes diretos, por outros setores da economia e, cada vez mais, por outros países.
Não basta contratar bons profissionais. É preciso criar condições para que eles permaneçam, evoluam e liderem a próxima etapa da transformação do setor. Outro aspecto frequentemente negligenciado é que a inovação nasce da diversidade de experiências e perspectivas.
Equipes compostas por profissionais com diferentes formações, trajetórias e visões de mundo tendem a encontrar soluções mais criativas para problemas complexos. Em um ambiente de constantes mudanças tecnológicas e regulatórias, essa diversidade deixa de ser apenas uma pauta social e passa a representar uma vantagem estratégica para as organizações.
Isso inclui ampliar a participação feminina em todos os níveis da cadeia produtiva da energia. Os números ajudam a entender por que essa agenda ainda precisa ser prioridade: segundo levantamento da ANEEL de 2023, as mulheres ocupam cerca de 20% dos postos no setor elétrico brasileiro, mas 66% delas estão concentradas em funções administrativas, e apenas 5,55% chegam a cargos de liderança sênior. No panorama global, a IEA estima
que as mulheres representam 16% da força de trabalho do setor de energia, uma fatia bem menor que os 39,5% que ocupam no mercado de trabalho em geral. Há, porém, um dado animador para quem atua com energia solar: segundo a IRENA, a fotovoltaica é a tecnologia renovável com maior participação feminina, 40% da força de trabalho, contra 21% na eólica, o que sugere que o segmento solar já tem hoje uma base sobre a qual construir lideranças femininas mais robustas, desde que as empresas invistam deliberadamente nisso. Não se trata apenas de ampliar indicadores de diversidade, mas de fortalecer a capacidade de inovação e ampliar a qualidade das decisões dentro das empresas.
A transição energética é, sem dúvida, um desafio tecnológico, mas é também um desafio de gestão, de educação e de desenvolvimento humano.
Precisaremos de engenheiros preparados para novas tecnologias, de gestores capazes de conduzir mudanças organizacionais, de pesquisadores que conectem ciência e mercado, de empreendedores que transformem inovação em soluções, de jovens inspirados a construir carreiras no setor e de líderes comprometidos em desenvolver pessoas, não apenas resultados.
Ao longo desta série, discutiremos justamente esse novo papel da liderança na energia: como desenvolver talentos, ampliar a participação feminina, preparar profissionais para as novas demandas do mercado e construir organizações mais inovadoras, diversas e resilientes.
Autoras: Marília Brilhante Queiroz e Amanda Mendes Ferreira Gomes
Revisão: Thais Crestani e Renata Mansuelo Alves Domingos.
Referências:
IRENA / OIT. Renewable Energy and Jobs: Annual Review 2025 (divulgado em janeiro de 2026): total de empregos no setor, ranking por país/bloco e desaceleração do crescimento anual.
IEA (Agência Internacional de Energia): percentual de vagas do setor que exigem alta qualificação frente a outros setores; participação das mulheres na força de trabalho global de energia frente ao mercado de trabalho geral.
ANEEL. Mulheres no Setor Elétrico (2023): participação feminina no setor elétrico brasileiro e distribuição entre funções administrativas e cargos de liderança sênior.
IRENA (2022): participação feminina por tecnologia renovável (fotovoltaica vs. eólica).



