Durante o Latam Mobility Cone Sul 2026, foi realizado o painel “Transformação dos motores da economia: transição para tecnologias mais limpas das grandes empresas do Chile“, que reuniu atores-chave dos setores de mineração, energia e poder público para analisar os avanços, desafios e oportunidades da descarbonização nas principais indústrias do país.
O painel, moderado por Lorenzo Reyes, decano da Faculdade de Engenharia e Negócios da Universidad de Las Américas, contou com a participação de Alfredo Olivares, diretor de Gestão Energética Sustentável da Codelco; Nicolás Arriagada Urzúa, especialista em Descarbonização da Anglo American; René Sepúlveda, executivo técnico da Diretoria de Programas Tecnológicos da Corfo; e Pilar Acevedo, Managing Director de Power Networks da Engie Chile.
A conversa abordou infraestrutura de transmissão, licenciamento, armazenamento de energia, eletromobilidade na mineração, o papel da Corfo na inovação e os desafios da formação de novos profissionais no contexto da transição energética.
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Desafios na transmissão, licenciamento e regulação
O painel começou com um diagnóstico do estado atual da transição energética no Chile. Pilar Acevedo, da Engie Chile, destacou que o país cresceu significativamente em capacidade instalada de geração renovável, mas fez um alerta: a infraestrutura de transmissão é o fator decisivo para aproveitar essa energia.
“Um coração sem artérias não adianta nada. Por mais que ele bombeie com força, se não formos capazes de transmitir essa energia e levá-la aonde ela precisa chegar, vamos aumentar o corte de geração e teremos ineficiência”, afirmou. Ela acrescentou que o licenciamento e a regulação precisam estar à altura dos desafios para dar segurança aos investimentos de longo prazo.
René Sepúlveda, da Corfo, complementou essa visão sob a perspectiva do Estado, observando que a regulação tem sido construída de forma colaborativa entre os setores público e privado. Ele ressaltou que a cooperação público-privada é o passo fundamental para escalar tecnologias limpas e que o licenciamento ambiental é um tema que precisa ser tratado com profundidade.
Nicolás Arriagada, da Anglo American, concordou que geração e transmissão são fundamentais, mas acrescentou um terceiro pilar: a demanda. “Resolvida essa parte, precisamos ajudar a gerar essa demanda, e podemos fazer isso por meio da infraestrutura de recarga e dos equipamentos móveis”, explicou. Ele observou que o transporte de carga enfrenta problemas não por falta de caminhões elétricos, mas porque não há onde recarregá-los, e defendeu o desenvolvimento de pontos colaborativos e infraestrutura de recarga em rota.
Alfredo Olivares, da Codelco, reforçou essas ideias e acrescentou uma terceira linha de atuação: o fomento e o financiamento. “Estamos num momento em que essas tecnologias começam a ser competitivas – precisamos viabilizá-las. Tivemos que adaptar os modelos de negócio; licitações que antes eram de 5 anos para transporte de pessoas, tivemos que estender para prazos de 7 a 10 anos para que os equipamentos consigam ser amortizados”, exemplificou.

Armazenamento e continuidade operacional: Os desafios da energia renovável variável
A moderação direcionou a conversa para os desafios operacionais impostos pela variabilidade das energias renováveis não convencionais. Alfredo Olivares, da Codelco, destacou que a empresa já tem mais de 80% de sua matriz energética vinda de fontes renováveis e projeta chegar a 100% em 2030. Ele explicou que os contratos de fornecimento precisam incluir garantias de backup e que seus fornecedores já estão incorporando baterias para assegurar a continuidade 24 horas por dia, 7 dias por semana. “Nossas operações não param”, enfatizou.
Nicolás Arriagada, da Anglo American, observou que sua companhia opera com energia renovável desde 2021, mas fez um alerta: o desafio já não é mais apenas ter certificados de energia renovável, e sim comprovar que essa energia é 24/7, em linha com as atualizações do GHG Protocol. Ele acrescentou que, por atuarem na zona central do Chile, o espaço físico para instalar baterias é limitado, de modo que as soluções precisarão vir dos fornecedores de energia.
Pilar Acevedo, da Engie Chile, explicou que a empresa está enfrentando esses desafios com projetos de geração associada a armazenamento, incorporando baterias em parques eólicos e solares, além de condensadores síncronos para manter a estabilidade do sistema. “Hoje em dia temos cada vez mais projetos com baterias”, afirmou, e destacou que a confiabilidade da rede é um componente essencial para garantir que a energia renovável chegue de forma competitiva aos clientes industriais – especialmente à mineração.
René Sepúlveda, da Corfo, lembrou que o papel do Estado é reduzir a incerteza tecnológica e que, graças aos instrumentos da Corfo e à lei de P&D (que gerou uma economia de US$ 75 bilhões para as empresas no ano passado), hoje os investimentos em energias renováveis podem ser feitos com muito mais tranquilidade.
Eletromobilidade na mineração: Avanços concretos na Codelco e na Anglo American
Ambas as mineradoras compartilharam suas experiências em eletromobilidade. Alfredo Olivares, da Codelco, revelou que a empresa tem uma frota de mais de 230 ônibus elétricos, e que o caso de sucesso mais relevante são os mais de 100 ônibus fabricados no Chile para a Divisão El Teniente – resultado do desenvolvimento de uma startup local que hoje se tornou uma fábrica.
“Estamos seguindo em frente e buscando mais, plenamente convencidos de que essas tecnologias podem nos ajudar a fazer negócios mais limpos e mais econômicos”, afirmou.
Nicolás Arriagada, da Anglo American, destacou que a companhia foi pioneira em operar a maior frota de ônibus elétricos do Chile e que já realizaram pilotos com caminhonetes 4×4, caminhões-trator e maquinário elétrico. Também mencionaram experiências com hidrogênio verde, incluindo a construção de um táxi-ônibus movido a hidrogênio e um posto de abastecimento de hidrogênio em parceria com a Colbún e outros parceiros. “Isso é muito dinâmico e vamos errar – e desses erros temos que aprender, e aprender rápido”, refletiu.

Competitividade, inovação e atração de talentos: A visão da indústria
René Sepúlveda colocou o foco no papel da Corfo não apenas como financiadora, mas como viabilizadora da reconversão produtiva. “Seria muito triste se descarbonizássemos, comprássemos equipamentos lá fora, mudássemos nossa matriz energética e ficássemos só nisso”, alertou.
Ele explicou que a transição energética gera uma enorme demanda por fornecedores e partes interessadas, e que aí existe uma oportunidade para desenvolver manufatura nacional, tecnologia local e uma indústria sofisticada que possa até exportar serviços para países vizinhos como Argentina, Peru e Bolívia.
Ele também mencionou o potencial da inteligência artificial aplicada à logística e à economia de energia, e destacou que o Chile já conta com dois grandes centros de supercomputação. “Não olhemos para o processo de descarbonização apenas como tirar algo da atmosfera. Esta é uma oportunidade de desenvolvimento produtivo para o Chile”, concluiu.
Pilar Acevedo, da Engie Chile, ressaltou que a sustentabilidade já não é apenas uma questão ambiental, mas sim um motor de desenvolvimento competitivo. Os investimentos em energias renováveis e armazenamento são bem vistos pelos investidores, e o Chile tem uma capacidade de geração impressionante que ainda não foi totalmente aproveitada. “Há investidores dispostos a aplicar recursos em soluções, em desenvolvimento e inovação, e a trazer esses avanços para o país”, afirmou.
Nicolás Arriagada, da Anglo American, compartilhou que a empresa está incorporando critérios de descarbonização, eficiência energética, economia circular e diversidade em suas bases de licitação – avaliando os fornecedores não apenas pelo preço, mas pela sua capacidade de contribuir para a sustentabilidade. “Já não é mais só discurso, é um fato”, sublinhou.
Alfredo Olivares, da Codelco, detalhou o processo de inovação da empresa, que vai desde etapas iniciais com universidades e centros de pesquisa (como o Instituto de Tecnologias Limpas) até pilotos comerciais com fornecedores e, finalmente, a expansão em escala. Ele destacou que, no caso de El Teniente – a maior mina subterrânea do mundo – não há muito desenvolvimento em nível global, portanto a Codelco precisa ser mais ambiciosa em inovação.

O desafio da formação de novos profissionais
Na reta final do painel, o moderador Lorenzo Reyes perguntou sobre os desafios que a transição energética impõe ao ensino superior.
Pilar Acevedo foi categórica: “A academia combinada com a indústria é fundamental”. Ela observou que são necessários profissionais com competências em tecnologia, cibersegurança, gestão de centros de controle, digitalização e liderança de projetos complexos – e fez um apelo à inclusão e diversidade: “Hoje precisamos que as áreas de energia e mineração sejam mais inclusivas. Precisamos de mais mulheres em carreiras de sistemas para que possam ser incorporadas à gestão desses projetos complexos”.
René Sepúlveda, da Corfo, acrescentou que são necessários profissionais multidisciplinares – como “engenheiros de hidrogênio” ou “engenheiros de BESS” – e que a formação técnica e profissional também precisa estar alinhada com as necessidades da indústria. Ele enfatizou que a transferência tecnológica precisa ser colaborativa desde o início: “A indústria tem que participar da formulação da pergunta que será transferida. Não pode ser que a indústria chegue pedindo à academia que resolva o problema e depois compre a solução pronta”.
Nicolás Arriagada, da Anglo American, compartilhou que a empresa está levantando desafios concretos para compartilhá-los com instituições de ensino como DUOC, INACAP e outras – não para que resolvam os problemas, mas para que as escolas identifiquem os atributos que precisam fortalecer e para gerar interconexão e trabalho colaborativo entre diferentes instituições. Ele citou como exemplo o desafio da segunda vida útil das baterias dos ônibus elétricos, um tema sobre o qual ainda há pesquisa a ser feita.
Alfredo Olivares, da Codelco, encerrou pedindo que não se repitam erros do passado, quando se falou em energia maremotriz há 15 anos e se capacitou pessoas para uma tecnologia que ainda não estava no momento certo. “É importante observar com atenção quais são as tendências e as tecnologias, e ir preparando e trabalhando de forma colaborativa entre instituições de formação e o setor privado”, concluiu.
O painel deixou claro que a transição energética no Chile não é exclusivamente tecnológica. Ela envolve investimento, regulação, novas capacidades, colaboração público-privada e um olhar voltado para o usuário final e para a sociedade.

Próxima parada: Latam Mobility México 2026
A turnê Latam Mobility 2026 continuará sua jornada pela região com o Latam Mobility México 2026, uma parada obrigatória na capital mexicana, marcada para os dias 12 e 13 de outubro de 2026. O evento já se desenha como o grande encerramento do ano para o setor, reunindo lideranças dos setores público, privado, acadêmico e da sociedade civil de toda a América Latina para seguir acelerando a transição para uma mobilidade mais limpa, eficiente e inclusiva.
O México – com seu mercado de veículos elétricos em expansão e sua posição estratégica na região – será o palco ideal para aprofundar temas essenciais: infraestrutura de carregamento, novos modelos de negócio, regulação e parcerias público-privadas.
O encontro é na Cidade do México, onde o futuro da mobilidade sustentável continuará sendo escrito com a participação ativa de todos os atores do ecossistema.
A Latam Mobility reafirma assim seu compromisso de ser o principal hub de transição energética e networking da América Latina – conectando ideias, projetos e pessoas que estão transformando a forma como nos deslocamos.

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