A percepção sobre o papel crescente do armazenamento na retomada dos negócios das empresas do setor solar foi reforçada durante a Intersolar South America 2026, que integra o evento The Smarte E. Grandes fornecedores de módulos, como Trina, Jinko, JA e Risen levaram suas soluções de BESS para a feira.
As três primeiras, inclusive, anunciaram planos e estudos para desenvolver parcerias locais e atender as exigências de nacionalização do primeiro leilão de reserva de capacidade de baterias (LRCAP Nacional), marcado para 2 de dezembro. A Longi exibiu uma solução para o mercado C&I, disponível ao mercado através de acordos com distribuidoras parceiras.
Entre as fornecedoras de inversores, empresas como WEG, FOX ESS e Dyness também reforçaram a aposta no armazenamento, com a apresentação de soluções híbridas, baterias e sistemas all-in-one.
Oferta ainda precisa se transformar em demanda
Apesar do novo ânimo trazido pelas baterias, as vendas ainda não acompanham a expansão da oferta. Uma fonte ouvida pela pv magazine Brasil disse que na primeira metade do ano os inversores híbridos, com armazenamento integrado, representaram apenas cerca de 15% das importações de inversores para o mercado brasileiro. Outras fontes disseram que os fornecedores líderes estão vendendo entre 40 MWh e 100 MWh por mês de armazenamento — uma pesquisa da Greener identificou que mais de 500 MWh de sistemas de armazenamento foram vendidos só no primeiro trimestre.
Até o momento, as vendas de baterias no Brasil vêm sendo puxadas por aplicações de gestão energética e tarifária para comércios, indústrias e consumidores rurais, além da universalização da energia em áreas remotas. Mas a expectativa é que os leilões de dezembro inaugurem uma nova fase para esse mercado, com demanda esperada de 4 GW a 5 GW pela Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento (Absae). Durante a feira, parcerias entre fornecedores internacionais e indústrias brasileiras foram ums dos tópicos mais frequentes. A Trina Storage e JA ESS disseram estar estudando parceiros locais para atender requisitos do primeiro leilão. A CATL reforçou a parceria com a Moura e a Jinko ESS anunciou um memorando de entendimento com a UCB.
A adoção em larga escala de baterias é uma das três frentes apontadas pela Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar) como necessárias para retomar o crescimento no setor solar brasileiro, que passa por uma fase de desaceleração. O país deve adicionar em torno de 10 GW em 2026, contra 13 GW em 2025 e 16 GW em 2024, conforme números atualizados da associação.
Caminhos para a retomada solar

Além de baterias capazes de absorver a geração solar durante as horas do dia em que há excedentes, a Absolar propõe estimular novas demandas de eletricidade, com a atração de plantas de hidrogênio verde e data centers e a eletrificação do setor produtivo. A associação também defende a universalização do acesso à energia por meio de sistemas solares associados a baterias.
Durante a abertura do Congresso The Smarter E South America 2026, do qual a Intersolar faz parte, a Absolar apresentou suas propostas para os candidatos à presidência da república envolvendo essas três frentes.
Na feira, o pavilhão com os fabricantes de baterias foi um dos que cresceu no evento, em comparação com a edição de 2025. Além do movimento das empresas do setor solar de trazer suas soluções de armazenamento, neste pavilhão as fornecedoras tradicionais como CATL e Great Power e empresas brasileiras que trabalham exclusivamente com armazenamento, como a Power Safe, estavam presentes em alguns dos maiores estandes.
Em contraste, menos distribuidoras de equipamentos e estandes menores refletiram a desaceleração do mercado fotovoltaico.
Mais de uma fonte ouvida pela pv magazine Brasil notou que o mercado de distribuição de equipamentos fotovoltaicos deve mudar nos próximos anos, como resultado de diferentes movimentos. Por um lado, algumas distribuidoras estão queimando estoques e vendendo abaixo do preço de mercado. Por outro, com os esforços do governo chinês para aumentar a eficiência de linhas de produção e de painéis fotovoltaicos na indústria, os fornecedores de módulos Tier 1 esperam retomar suas participações no mercado atendido pelas distribuidoras, que envolve sistemas de menor porte, um segmento que vem se mostrando mais resiliente à desaceleração.
Enquanto as novas regras não surtem efeito, entretanto, fabricantes Tier 2 poderiam direcionar seus equipamentos remanescentes para outros mercados, como o Brasil, adiando a retomada dos fornecedores Tier 1.
Nova fase de desenvolvimento
Ao longo de três dias, a feira The Smarter E South America reuniu no Expo Center Norte, em São Paulo, mais de 500 expositores dos setores de energia solar, armazenamento, gestão de energia e eletromobilidade, em suas quatro feiras simultâneas — Intersolar South America, ees South America, Power2Drive South America e Eletrotec+EM-Power South America. O evento recebeu cerca de 50 mil visitantes. Paralelamente, os congressos, mini-cursos e workshops, contaram com aproximadamente três mil participantes.
Houve um aumento de 30% na área de exposição da ees South America, enquanto a Power2Drive South America dobrou de tamanho.
A mobilidade elétrica também foi destaque na programação. O segmento também representa um caminho de diversificação de negócios para empresas e fornecedores que atuam no setor solar no Brasil, e vem crescendo rapidamente. De janeiro a julho, foram emplacados mais de 270 mil veículos eletrificados, somando 700 mil unidades em circulação no país, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Rafael Cunha, consultor do congresso Power2Drive South America, pontua que, ao mesmo tempo em que o setor elétrico enfrenta desafios relacionados à capacidade e geração, a eletromobilidade desponta como uma possibilidade futura de contribuição para a própria estabilidade da rede, por meio de tecnologias como a Vehicle-to-Grid (V2G), que permite utilizar as baterias dos veículos para importar ou exportar energia da rede, contribuindo para a estabilidade de frequência e potência.
“O Brasil continua sendo o maior mercado de energia renovável da região, com uma capacidade solar instalada superior a 74 GW, consolidando a energia solar como um dos pilares do mercado energético do país. Sem dúvida, o Brasil continua sendo um dos mercados mais atrativos do mundo para o setor solar. Acho que é importante enfatizar isso”, disse o diretor executivo da Solar Promotion International, Florian Wessendorf, uma das organizadoras do evento, durante coletiva de imprensa. “Apesar de, é claro, o mercado ter entrado em uma nova fase de desenvolvimento, impulsionada pela crescente demanda por serviços de flexibilidade, backup de energia, arbitragem de energia e, naturalmente, maior integração de fontes renováveis, o Brasil está se consolidando como um dos mercados de energia elétrica renovável mais dinâmicos do mundo”, acrescentou.



