O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) aprovou medidas para reforçar a segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN) diante da previsão de um cenário climático mais desafiador nos próximos meses. Em reunião realizada nesta semana, o colegiado autorizou a celebração de Contratos de Uso do Bem Público (CUBPs) para usinas hidrelétricas e termelétricas já disponíveis, mas que atualmente não possuem contratos de comercialização de energia.
Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), a medida busca aumentar a confiabilidade do atendimento ao sistema elétrico em um contexto marcado pela elevada probabilidade de ocorrência do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026, além das incertezas relacionadas ao cenário geopolítico internacional e ao crescimento da demanda por eletricidade.
A decisão considera estudos do Plano da Operação Energética (PEN) 2026-2030, elaborados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que indicam a necessidade de ampliar a disponibilidade de potência para garantir o suprimento de energia durante períodos críticos.
De acordo com o MME, os contratos terão caráter temporário e contemplarão empreendimentos aptos a fornecer potência adicional ao sistema, reforçando a segurança operativa enquanto novas soluções estruturais entram em operação.
El Niño deve pressionar demanda e gestão dos reservatórios
Na avaliação da Climatempo, o fortalecimento do El Niño exige um planejamento mais estratégico por parte das empresas de geração, transmissão e distribuição de energia. A consultoria destaca que há 97% de probabilidade de continuidade do fenômeno, com 81% de chance de que ele atinja sua intensidade máxima entre outubro e dezembro deste ano, permanecendo ativo até o fim do verão de 2027.
Segundo a meteorologista da Climatempo, Lara Marques, o El Niño não é responsável isoladamente pelos eventos extremos, mas aumenta significativamente a probabilidade de ocorrência de condições climáticas que desafiam a operação do setor elétrico.
No Norte, Nordeste e parte da Amazônia, a expectativa é de redução das chuvas, temperaturas elevadas e aumento do risco de queimadas, fatores que tendem a diminuir o afluxo de água aos reservatórios hidrelétricos. Já a Região Sul poderá registrar chuvas mais intensas, acompanhadas por ventos fortes e descargas elétricas, elevando o risco de interrupções nas redes de transmissão e distribuição.
Para o Sudeste e Centro-Oeste, a Climatempo ressalta que os impactos sobre os reservatórios dependerão da distribuição espacial das chuvas, que deverá permanecer bastante irregular.
Além das mudanças no regime hidrológico, a consultoria projeta temperaturas acima da média histórica, impulsionando o uso de aparelhos de ar-condicionado e refrigeração e, consequentemente, elevando a demanda por eletricidade, especialmente nos horários de pico.
Papel da energia solar
Embora o reforço aprovado pelo CMSE envolva usinas hidrelétricas e termelétricas, a decisão também evidencia a crescente necessidade de aumentar a flexibilidade do sistema elétrico à medida que a participação das fontes renováveis avança.
A geração solar fotovoltaica tem contribuído para reduzir o despacho de fontes fósseis durante as horas de maior irradiância e aliviar a demanda diurna, especialmente nos períodos de maior consumo provocados pelas altas temperaturas. No entanto, como a produção solar varia ao longo do dia e depende das condições climáticas, a expansão da fonte precisa ser acompanhada por recursos capazes de fornecer potência quando a geração fotovoltaica diminui, como sistemas de armazenamento em baterias, usinas hidrelétricas flexíveis e outras fontes despacháveis.
Nesse contexto, o reforço temporário de potência aprovado pelo CMSE busca garantir a confiabilidade do sistema durante a transição para uma matriz elétrica cada vez mais renovável, em um cenário em que eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes.
Para Lara Marques, as previsões climáticas devem deixar de ser tratadas apenas como eventos pontuais e passar a integrar o planejamento estrutural do setor elétrico. “É fundamental que as empresas do setor elétrico não atuem apenas na contingência imediata, mas incorporem a adaptação e a resiliência em seus planejamentos de um, cinco e dez anos. O monitoramento contínuo e regionalizado será a principal ferramenta para antecipar manutenções, mitigar riscos e proteger a infraestrutura crítica do País”, afirmou a meteorologista.
A decisão do CMSE ocorre em um momento em que o Brasil também discute mecanismos para ampliar a oferta de potência no sistema, incluindo a expansão do armazenamento de energia e a realização de novos leilões voltados à confiabilidade do suprimento, medidas consideradas complementares ao crescimento acelerado da geração solar e de outras fontes renováveis.



