Durante anos, a Intersolar South America cumpriu um papel que o setor solar brasileiro precisava: mostrar que a tecnologia existia, que os preços caíam, que o futuro era possível. Era, antes de tudo, um salão de possibilidades. A edição de 2025 ainda tinha esse sabor: baterias promissoras, módulos mais eficientes, inversores mais inteligentes, e uma geração distribuída que crescia a despeito de qualquer obstáculo.
A edição de 2026, que acontece de 25 a 27 de agosto no Expo Center Norte, em São Paulo, é diferente. O Brasil chega com mais de 70 GW de capacidade solar instalada — 23% de toda a matriz elétrica nacional, segunda maior fonte, atrás apenas das hidrelétricas (ABSOLAR, maio/2026). Ao mesmo tempo, registramos curtailment recorde, um leilão de reserva de capacidade para baterias marcado para dezembro e a abertura do mercado livre para consumidores de baixa tensão já em vigor. O setor não precisa mais ser convencido de que o solar funciona. Precisa decidir o que faz com ele.
A Intersolar 2026 não será um catálogo. Será um salão de decisões e há pelo menos três apostas que o mercado solar brasileiro precisa fazer antes de sair de São Paulo.

Figura 1 – Três apostas convergentes para o setor solar na Intersolar 2026 — Elaborado pelo autor.
Aposta 1: O Brasil vai levar o LRCAP de baterias a sério?
O Leilão de Reserva de Capacidade para Armazenamento (LRCAP) previsto para dezembro de 2026 é o marco regulatório mais relevante para o setor de armazenamento desde a criação do próprio mercado de energia. Pela primeira vez, o Brasil vai contratar potência a partir de Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias (SAE-BESS) em escala sistêmica com contratos de 15 anos e início de suprimento previsto para 1º de agosto de 2028.
O certame foi estruturado em duas modalidades pela Portaria MME nº 136/2026: o LRCAP Armazenamento Nacional, voltado a projetos com conteúdo local certificado pelo BNDES, realizado em 2 de dezembro; e o LRCAP Armazenamento, aberto a empreendimentos sem essa exigência, em 4 de dezembro. O cadastramento junto à EPE vai de 15 de junho a 31 de julho de 2026, ou seja, quando a Intersolar abrir suas portas, o mercado já saberá quem entrou na corrida.

Figura 2 – Linha do tempo do LRCAP 2026 para Armazenamento — Elaborado pelo autor.
Nos corredores e painéis do congresso, espero ver — e questionar — dois pontos que ainda não foram respondidos satisfatoriamente:
O primeiro é a política industrial. O LRCAP Armazenamento Nacional existe para estimular a cadeia produtiva local, mas os critérios de credenciamento do BNDES ainda deixam em aberto qual fração de valor é genuinamente nacional. O risco identificado por analistas do setor é o de repetir o padrão das placas solares: o Brasil socializa o custo via encargo tarifário (o ERCAP, rateado entre todos os consumidores) e privatiza o valor tecnológico no exterior. Uma vitrine de baterias importadas com etiqueta “nacional” não é política industrial, é marketing.
O segundo é a integração com a geração solar. O LRCAP foi desenhado para contratar potência despachável pelo ONS em momentos de pico de demanda. Mas a lógica econômica mais atraente para os desenvolvedores solares é usar o armazenamento para reduzir o curtailment e capturar arbitragem de preços no PLD. Essas duas lógicas, capacidade sistêmica vs. arbitragem de mercado, não são necessariamente conflitantes, mas precisam de um arcabouço contratual claro que o mercado ainda está construindo.
A Intersolar 2026 será o primeiro grande encontro do setor após o fechamento das inscrições do LRCAP. Os estandes das fabricantes de baterias vão mostrar tecnologia. O congresso precisa mostrar estratégia.
Tabela 1 — LRCAP 2026 para Armazenamento: o que está definido e o que ainda falta

Tabela 1 — Fonte: Portaria MME 136/2026; ANEEL; EPE. Elaborado pelo autor.
Aposta 2: O integrador solar vai entender que seu negócio mudou?
Em agosto de 2026, dois eventos acontecem simultaneamente no setor elétrico brasileiro: a Intersolar abre suas portas no Expo Center Norte e o mercado livre de energia começa, oficialmente, a absorver consumidores comerciais e industriais de baixa tensão (Grupo B). Não é coincidência calendária, é uma convergência estratégica que o integrador solar precisa ler com clareza.
Durante anos, o integrador vendeu um produto: o sistema fotovoltaico. A proposta de valor era simples: instale painéis, reduza sua conta, recupere o investimento em alguns anos. Com a maturação do mercado e a chegada do modelo OPEX (contratos de locação e PPA de GD), essa proposta evoluiu para “energia solar sem investimento inicial”. Agora ela precisa evoluir de novo: para “energia solar dentro do mercado livre”.
O consumidor de baixa tensão que migra para o ACL via Comercializador Varejista já não está mais apenas comprando energia mais barata da distribuidora. Ele está gerenciando um ativo energético. E o integrador solar que instalou painéis no telhado desse consumidor tem, nas mãos, dois ativos extraordinariamente valiosos: dados de consumo e geração em tempo real, e confiança de um cliente que já assinou contrato com ele.
A questão não é tecnológica. É de modelo de negócio. Os integradores que chegarem à Intersolar 2026 ainda pensando apenas em Wp instalados e payback em anos estão olhando para o retrovisor. Os que chegarem perguntando “como me torno um agente no varejo de energia?” estão olhando pela janela da frente.
Na prática, a Intersolar será o primeiro grande fórum do setor após a abertura do mercado livre para baixa tensão. Espero debates concretos sobre:
- Como o integrador pode estruturar parcerias com Comercializadores Varejistas habilitados na CCEE;
- Quais são os requisitos técnicos de medição inteligente para consumidores migrantes de baixa tensão;
- Como o solar instalado no cliente se encaixa, ou não, na equação tarifária do ACL;
- Quais distribuidoras estão mais preparadas para processar migrações em escala.
Se esses temas não aparecerem com força no congresso, é um sinal de que o setor ainda não digeriu o que aconteceu em agosto.
Aposta 3: Alguém vai resolver o curtailment ou vamos continuar desperdiçando sol?
Este é o tema que mais me incomoda como pesquisador — e que a Intersolar 2026 não pode ignorar. O Brasil desperdiçou, em curtailment solar e eólico, 20,6% de toda a energia disponível ao longo de 2025 — o equivalente a um prejuízo de R$ 6,5 bilhões para as 1.500 usinas renováveis centralizadas supervisionadas pelo ONS, segundo levantamento da Volt Robotics. Os meses de agosto, setembro e outubro de 2025 “entraram para a história” com os maiores cortes já registrados. Apenas no setor solar centralizado, as perdas no mercado regulado somaram R$ 2,8 bilhões (ABSOLAR). E 2026 começa pior: no primeiro quadrimestre, o Brasil cortou quase 3 GW médios de energia solar e eólica, com o Nordeste concentrando 2.233 MW médios de restrição.
O paradoxo é cruel: o Brasil tem sol de sobra, capacidade instalada crescendo em ritmo recorde, e mesmo assim corta geração porque a rede não consegue absorver. É como encher uma banheira com a torneira aberta e o ralo entupido, a solução não está em mais água, mas em desentupir o ralo.
Tabela 2 — O custo sistêmico do curtailment solar e eólico no Brasil

Tabela 2 — Elaborado pelo autor. Fontes: Volt Robotics; ABSOLAR; ONS; Portaria MME 136/2026.
O problema tem três camadas, e todas estarão em debate na Intersolar:
A camada técnica é a mais visível: falta infraestrutura de transmissão nas regiões de maior geração, e os investimentos aprovados acumulam atrasos. Inversores inteligentes com capacidade de suporte à rede e sistemas DERMS (Distributed Energy Resource Management Systems) são parte da solução e estarão em muitos estandes.
A camada regulatória é a mais complexa: quem paga pelo curtailment? O gerador que perdeu receita, a distribuidora que saturou a rede, o consumidor via tarifa, ou o Estado via política pública? Essa pergunta não tem resposta consensual no Brasil, e sem ela, os investimentos em solução não saem do papel na velocidade necessária.
A camada de mercado é a mais promissora: o LRCAP de baterias de dezembro é, estruturalmente, uma resposta ao curtailment. Baterias instaladas nos barramentos críticos do SIN podem armazenar a geração solar excedente do meio-dia e despachá-la no pico da tarde, resolvendo curtailment e substituindo térmicas ao mesmo tempo. Mas o LRCAP ainda tem lacunas importantes na política industrial e na integração com a geração solar existente.
O que espero ver na Intersolar 2026 não é apenas tecnologia de armazenamento. Espero a pergunta mais difícil: quem financia a solução e em que prazo? Se o congresso de 2026 sair sem uma resposta mais clara para isso, a próxima edição terá os mesmos dados, com taxas de curtailment ainda maiores.
Conclusão: O termômetro da maturidade
Há um indicador informal que uso para medir a maturidade de um evento setorial: a qualidade das perguntas feitas nos painéis. Quando as perguntas são sobre “o que é solar?” ou “quanto custa um painel?”, o setor está nascendo. Quando são sobre “qual o modelo contratual mais eficiente para integrar armazenamento ao mercado livre?” ou “como o sinal locacional do LRCAP vai remunerar baterias em barramentos críticos?”, o setor amadureceu.
A Intersolar South America 2026 vai mostrar, pelo nível das perguntas e pelo peso das decisões que ficarem pendentes ao final dos três dias, em que estágio real estamos.
Minha expectativa, como acadêmico que acompanha o setor há mais de uma década, é que saiamos de agosto com mais clareza sobre pelo menos duas das três apostas que coloco aqui. O LRCAP vai acontecer, resta saber se vai ser um leilão com política industrial ou apenas um pregão de potência importada. O mercado livre de baixa tensão vai absorver a geração distribuída, resta saber se o integrador solar vai estar preparado para ser o agente dessa transição. O curtailment vai continuar, resta saber por quanto tempo o setor aceita perder dinheiro antes de forçar uma solução sistêmica.
O sol continua nascendo todos os dias. A pergunta é o que fazemos com ele.
Sobre o autor
Prof. Dr. Fernando de Lima Caneppele é Professor Associado III na Universidade de São Paulo (USP), Campus de Pirassununga, Pesquisador do CCD-FAPESP/CISTEM (Centro de Ciência para o Desenvolvimento – Centro de Inovação e Soluções para Transição Energética em Municípios) na Escola Politécnica da USP, Pesquisador do GEPEA/Poli/USP, Pesquisador Associado do GESEL/UFRJ e foi Pesquisador em Ano Sabático do Instituto de Estudos Avançados (IEA/USP) no período de 2024-2025. Engenheiro eletricista com mestrado, doutorado, pós-doutorado e livre-docência na área energética, atua com foco em Energia de forma nexialista e é especialista em Transição Energética, Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 7 (ODS7) e Inteligência Artificial aplicada ao Setor Elétrico. Sua trajetória acadêmica e profissional é dedicada ao setor energético, contribuindo para pesquisas, ensino, extensão, divulgação científica, treinamentos e consultorias.



