A gestão da demanda elétrica é um dos maiores desafios para indústrias, shoppings, hospitais e grandes consumidores comerciais no Brasil. A tarifa de demanda — aquela cobrada pelo maior pico de consumo registrado no mês — pode representar entre 30% e 50% da fatura de energia. É exatamente nesse ponto que os sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS, do inglês Battery Energy Storage System) se tornam uma ferramenta estratégica poderosa, por meio de uma estratégia chamada peak shaving.
O que é peak shaving?
Peak shaving, ou “corte de picos”, é uma estratégia de gerenciamento energético que consiste em reduzir os picos de demanda de uma instalação. Em vez de a rede elétrica fornecer toda a potência exigida durante um momento de alta demanda, o BESS complementa esse fornecimento, descarregando energia previamente armazenada e mantendo o consumo registrado abaixo de um limite predefinido.
O resultado direto é a redução da demanda contratada e, consequentemente, da parcela de demanda na fatura de energia — uma das mais onerosas para grandes consumidores.
Como Funciona na Prática
O ciclo de operação do peak shaving com BESS segue uma lógica simples e bem definida:
1. Carregamento nas horas de baixa demanda — Geralmente durante a madrugada ou horários fora de ponta, quando a energia é mais barata e o consumo da instalação está reduzido, o BESS armazena energia da rede ou da geração local (solar, por exemplo).
2. Monitoramento contínuo — Um sistema de gerenciamento de energia (EMS) monitora em tempo real o consumo da instalação e compara com o limite de demanda estabelecido.
3. Descarga nos momentos críticos — Quando o consumo se aproxima do limite de pico, o EMS aciona a descarga do BESS automaticamente, injetando energia no sistema e impedindo que a demanda ultrapasse o teto desejado.
Esse ciclo pode ocorrer diversas vezes ao longo do dia, tornando o BESS um elemento dinâmico e inteligente na gestão energética da planta.
Integração com energia solar
A combinação de geração fotovoltaica com BESS para peak shaving é cada vez mais comum e potencializa os benefícios de ambas as tecnologias. Durante o dia, a energia solar reduz o consumo da rede. O excedente pode ser armazenado no BESS para uso nos picos noturnos ou em momentos de maior demanda, mesmo quando o sol já se pôs.
Essa sinergia cria um sistema híbrido inteligente, capaz de otimizar tanto a autoprodução quanto a gestão de custos com tarifas de demanda e energia.
Benefícios econômicos
Os ganhos financeiros do peak shaving com BESS podem ser expressivos:
- Redução da demanda contratada: Consumidores no grupo A (alta e média tensão) pagam pela demanda contratada, independentemente de usá-la ou não. Ao reduzir os picos, é possível revisar o contrato de demanda com a distribuidora e pagar menos.
- Eliminação de ultrapassagens: Ultrapassar a demanda contratada gera multas e tarifas majoradas. O BESS elimina esse risco.
- Arbitragem tarifária: Em tarifas brancas ou horossazonais, carregar o BESS fora de ponta e descarregar na ponta reduz o custo médio do kWh consumido.
- Segurança no fornecimento: O armazenamento funciona como reserva, garantindo continuidade operacional em caso de instabilidades na rede.
Dimensionamento e tecnologia
O dimensionamento correto do BESS para peak shaving depende da análise do perfil de carga da instalação — preferencialmente com dados de pelo menos 12 meses de histórico. Os parâmetros principais são a potência de pico a ser cortada (em kW) e a duração típica desse pico (em horas), que determinam a capacidade de energia necessária (em kWh).
As tecnologias de baterias mais utilizadas atualmente são o lítio ferro-fosfato (LFP) e o lítio NMC. O LFP se destaca pela segurança, longa vida útil (acima de 4.000 ciclos) e estabilidade térmica, tornando-se a escolha predominante em aplicações industriais e comerciais de grande porte.
Regulação e oportunidades no Brasil
O avanço regulatório da Aneel, especialmente com as resoluções sobre micro e minigeração distribuída e armazenamento de energia, tem aberto espaço para que o BESS seja reconhecido formalmente como ativo de geração e gestão energética. Programas de resposta à demanda, cada vez mais discutidos no setor elétrico brasileiro, devem ampliar ainda mais os casos de uso e o retorno financeiro dos projetos.



