O mercado brasileiro de armazenamento de energia deve abrir uma nova frente de crescimento para integradores solares nos próximos anos, especialmente em retrofit de sistemas fotovoltaicos, soluções para segurança energética, eletromobilidade e gestão inteligente do consumo. A avaliação foi compartilhada por especialistas durante o evento “Armazenamento para Integradores”, promovido pela Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), em São Paulo.
Além das discussões regulatórias sobre a Consulta Pública Aneel nº 039/2023, o encontro teve forte foco prático e comercial, trazendo orientações para empresas interessadas em ampliar atuação no segmento de baterias e sistemas híbridos.
Um dos principais pontos destacados no evento foi a necessidade de os integradores deixarem de enxergar o armazenamento apenas como solução de backup. Segundo Murillo Fabris, coordenador regional de vendas da WEG, as baterias terão aplicações cada vez mais amplas no setor elétrico.
“O BESS não é só para backup. Usar armazenamento apenas para backup é como usar uma bazuca para matar uma formiga”, afirmou.
Fabris destacou aplicações como peak shaving (redução de demanda na ponta), load shifting (deslocamento de carga), gestão energética em indústrias, agronegócio e eletromobilidade. Segundo ele, muitos clientes enfrentam limitações de demanda contratada ou dificuldade de expansão da rede elétrica, cenário em que o armazenamento pode evitar obras caras e demoradas.
No agronegócio, o executivo apontou oportunidades relacionadas à substituição parcial de geradores a diesel em sistemas de irrigação e operações remotas. Já na eletromobilidade, o armazenamento pode reduzir impactos da recarga de veículos elétricos sobre a rede elétrica do consumidor.
Fabris também ressaltou que os integradores precisam se posicionar como fornecedores de soluções energéticas completas, incluindo solar, armazenamento, carregamento veicular, automação e gestão inteligente do consumo.
Retrofit e priorização de cargas
Outro tema amplamente discutido no encontro foi o retrofit de sistemas fotovoltaicos existentes. Gustavo Moraes, CEO e fundador da SFX Engenharia, SFX Solar e SFX e-Mobility, apresentou casos de clientes que adicionaram baterias a sistemas já instalados por motivos que iam muito além da economia na conta de luz.
Entre os exemplos citados estavam consumidores afetados por apagões frequentes, clientes com demandas de segurança energética, residências com home office e usuários interessados em manter toda a casa operando durante interrupções da rede.
Segundo Moraes, muitos integradores ainda subestimam o potencial comercial do armazenamento.
“Nunca subestime o bolso do seu cliente”, afirmou o executivo, ao relatar um projeto de retrofit de R$ 282 mil aprovado pelo cliente via WhatsApp.
O executivo destacou que consumidores raramente perguntam inicialmente sobre armazenamento porque desconhecem as possibilidades da tecnologia. Por isso, recomendou que integradores passem a incluir soluções híbridas em todas as propostas comerciais.
“Transforme seu sistema em híbrido e tenha mais segurança energética” é a frase que a empresa passou a inserir nos orçamentos para despertar curiosidade e abrir espaço para novas vendas.
Moraes também recomendou que integradores discutam detalhadamente com o cliente quais cargas realmente precisam ser priorizadas em caso de falta de energia e por quanto tempo o sistema deverá operar de forma autônoma.
Segundo ele, muitos consumidores imaginam soluções irreais ou excessivamente caras sem compreender o impacto técnico e financeiro do armazenamento.
“Às vezes, a prioridade do cliente é manter a chopeira da área gourmet funcionando”, brincou.
Receitas recorrentes
Outro ponto destacado foi a possibilidade de novas receitas recorrentes para integradores, incluindo manutenção técnica, ampliação futura do sistema fotovoltaico, instalação de carregadores para veículos elétricos e serviços ligados à gestão energética.
O evento também trouxe discussões sobre microgrids, nanogrids e usinas virtuais (VPPs). Segundo a WEG, o avanço dessas soluções deve ampliar a necessidade de integração entre geração solar, armazenamento, carregamento veicular e automação residencial e industrial.
Fabris citou ainda o projeto de Fernando de Noronha como um dos exemplos mais emblemáticos do uso combinado de solar e armazenamento no Brasil. Segundo ele, a solução ajudou a elevar para cerca de 85% a participação de fontes renováveis no abastecimento energético da ilha.
Durante o encontro, representantes da Absolar destacaram que o armazenamento deixou de ser uma tecnologia distante e deve se consolidar como uma das principais avenidas de crescimento do mercado solar brasileiro.
A entidade também ressaltou que consumidores estão cada vez mais preocupados com resiliência energética, qualidade do fornecimento e autonomia diante do aumento dos apagões e da maior complexidade do sistema elétrico nacional.
Segundo a Absolar, o armazenamento pode atrair cerca de R$ 200 bilhões em investimentos até 2035, consolidando-se como um dos segmentos mais promissores da transição energética brasileira.



