“Papo de Garagem” propõe no Latam Mobility Brasil 2026 um pacto pela competitividade que transcenda montadoras e tecnologias

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Durante o evento Latam Mobility & Net Zero Brasil 2026, o apresentador do programa Papo de Garagem, Ricardo Bacellar, fez uma palestra intitulada “Cenário atual e perspectivas do mercado da mobilidade elétrica” que, longe de se limitar a projetar números, se tornou um chamado de atenção e de ação para toda a cadeia automotiva brasileira.

Com seu estilo direto e provocador, Bacellar propôs uma mudança de foco: em vez de perguntar “aonde podemos chegar”, o setor deveria se questionar “aonde queremos chegar” . A diferença, segundo ele, é substancial e define as prioridades estratégicas.

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Cuidado com a euforia

Ricardo Bacellar abriu sua fala com um alerta metodológico. Embora tenha reconhecido que os resultados de vendas de março de 2026 foram “espetaculares” , ele pediu “cuidado com a euforia” , lembrando um ditado da avó: “Cuidado com o poço, que o bêbado caiu sozinho.”

Ele explicou que o mercado automotivo brasileiro é fortemente sazonal e que um dos erros mais graves em análise estratégica é se basear em “fotos” (dados isolados) em vez de “filmes” (séries históricas e tendências). Ele recomendou à plateia que não tomasse decisões de longo prazo baseadas apenas em um mês de vendas altas.

Bacellar também agradeceu à Anfavea por ter adotado um tom de cautela em seus comunicados, evitando projeções exageradas. Além disso, fez um alerta paralelo: “cuidado com os haters” , referindo‑se àqueles que, por desconhecimento ou interesse próprio, espalham informações negativas sem fundamento sobre a eletromobilidade.

Potencial versus realidade

Para mostrar o potencial do mercado brasileiro, Bacellar recorreu a uma entrevista recente do Papo de Garagem com Paulo Manzano, executivo com mais de 30 anos de estrada.

Nessa conversa, comparou‑se o percentual da população que compra um veículo zero‑quilômetro em diferentes países: na China é 2,3% dos habitantes; nos Estados Unidos chega a quase 5% . O Brasil tem enorme margem de crescimento , mas o que impede a realização desse potencial?

O apresentador mostrou uma pesquisa de janeiro de 2025 (com dados de 2024) que comparava a carga tributária sobre veículos no Brasil com a de outros países da América do Sul. A conclusão foi direta: o Brasil está numa situação complicada , mesmo em comparação com vizinhos de fronteira.

E o pior: “já estamos há muito tempo nessa situação” , disse. Ou seja, não é um problema conjuntural recente, mas um atraso estrutural arrastado há anos.

Papo de Garagem
Ricardo Bacellar (Papo de Garagem)

Exercício revelador: menos impostos, mais vendas

Bacellar mencionou sua entrevista com Ciro Pessoa, presidente da Volkswagen Brasil, que revelou um estudo interno da empresa. De acordo com essa análise, uma redução da taxa Selic em aproximadamente 5 pontos percentuais teria um impacto direto e enorme sobre a produção, as vendas, o emprego e a geração de riqueza.

Além disso, durante a palestra, ele apresentou um exercício de elasticidade: se fosse alcançada uma redução de 20% na carga tributária atual e aplicado um coeficiente de elasticidade 3 (métrica padrão da indústria), essa redução poderia se traduzir num aumento de aproximadamente 60% nas vendas de veículos.

“Aí está o tamanho do problema” , enfatizou. A conclusão é inevitável: o excesso de impostos e o alto custo do crédito estão reprimindo artificialmente um mercado que poderia ser muito mais dinâmico.

Diante desse cenário, Bacellar questionou as discussões recorrentes sobre alíquotas de importação (se 5%, 10%, 30% ou 50%). “Essa discussão não é que não seja importante, mas é muito menos importante do que esta, que une a todos. Veículos a combustão, eletrificados, híbridos: todos estamos sob o mesmo problema”, afirmou.

Dividir para conquistar ou unir para conquistar: o dilema estratégico

O momento mais intenso da palestra veio quando Ricardo Bacellar mostrou uma publicação recente do seu LinkedIn na qual ele colocava o dilema de fundo: “Dividir para conquistar ou unir para conquistar.”

Ele explicou que, por várias razões (competição entre tecnologias, interesses de curto prazo, diferenças entre entidades do setor), a indústria automotiva não tem conseguido articular uma agenda comum para enfrentar o verdadeiro obstáculo estrutural.

“Não sei quem tem interesse em dividir uns contra os outros. Mas essa pauta não avança. Aproveito que estou aqui, diante de representantes da indústria, para reforçar o pedido: pratiquemos o unir para vencer essa guerra. Precisamos de todos juntos” , concluiu.

A mensagem de Bacellar transcendeu o momento atual da eletromobilidade e atingiu o centro da competitividade industrial brasileira. Enquanto o país comemora o crescimento das vendas de veículos eletrificados (com taxas de três dígitos), o Papo de Garagem lembrou que sem uma mudança estrutural na carga tributária e no custo do crédito, o mercado brasileiro continuará operando muito abaixo do seu potencial real.

O chamado dele para unificar o setor (combustão e elétricos, montadoras e autopeças, concessionárias e fornecedores de infraestrutura) ficou como a reflexão central da palestra. A verdadeira guerra, segundo ele, não é entre tecnologias, mas contra um sistema que freia o desenvolvimento de toda a mobilidade.

Papo de Garagem

Um 2026 de consolidação para a mobilidade

O Tour Latam Mobility 2026 continua sua jornada. O próximo encontro será em Medellín, Colômbia, nos dias 10 e 11 de junho, e depois chegará a Santiago, Chile, em 25 de agosto, reunindo especialistas e atores estratégicos para fortalecer ainda mais o ecossistema de mobilidade sustentável na região.

O tour terminará na Cidade do México nos dias 12 e 13 de outubro, junto com o Climate Economy Forum, num evento que reunirá grandes referências do setor para continuar impulsionando a transição para sistemas de transporte mais eficientes, sustentáveis e de baixas emissões na América Latina.

A transição já está em curso. O Tour 2026 da Latam Mobility será o ponto de encontro para acelerar decisões, conectar os atores‑chave e construir, de forma colaborativa, a mobilidade sustentável da América Latina.

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