Brasil: Salvador e Belém lideram projetos de mobilidade ativa com soluções baseadas na natureza

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Durante o “Latam Mobility & Net Zero Brasil 2026”, que rolou em São Paulo, o painel “Mobilidade, clima e cidade: Integrando soluções para o desenvolvimento urbano sustentável” reuniu representantes de SalvadorBelém e do Governo Federal do Brasil.

A conversa, mediada por Ariadne Samios, do WRI Brasil, mostrou a urgência de articular políticas intersetoriais que juntem mobilidade ativainfraestrutura verde e adaptação climática para construir cidades mais resilientes, justas e habitáveis.

O debate rolou dentro do programa Mutirão Brasil, uma iniciativa liderada pela C40 junto com a Gecon e apoiada pela Bloomberg Philanthropies. A ideia é dar protagonismo aos municípios brasileiros na implementação de projetos contra as mudanças climáticas.

Os participantes concordaram que mobilidade ativa e soluções baseadas na natureza (SBN) não podem seguir caminhos separados – precisam ser integradas desde o projeto até a execução.

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Salvador aposta em ciclovias e SBN

Manuela Accioly, arquiteta e urbanista que coordena o desenvolvimento da agenda de mobilidade ativa na Secretaria de Mobilidade de Salvador (Semob) , contou os avanços da cidade.

Ela explicou que Salvador já tem um plano cicloviário robusto, entregue em 2024, com diagnóstico, metas e premissas claras. Mas o principal desafio tem sido a governança e a integração intersetorial dentro da própria prefeitura.

“Publicamos um decreto criando um comitê intersetorial com participação de secretarias estratégicas, como a de Sustentabilidade. Nossa missão é avançar de forma coordenada na implementação do plano”, disse Accioly. Graças ao apoio do programa MutirãoSalvador está desenvolvendo um projeto modelo em uma conexão complicada: a Avenida Mario Leal Ferreira, que liga uma estação de transporte a uma região estratégica como Iguape.

Durante um ano, a equipe vai trabalhar num projeto que incorpora soluções baseadas na naturezainfraestrutura verdedrenagemfiltração e arborização junto com a malha cicloviária. A expectativa é que essa experiência piloto possa ser replicada em toda a rede existente.

Queremos mostrar para a população e para a própria gestão não só que é possível, mas o quanto é necessário coordenar os planejamentos”, afirmou.

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Manuela Accioly

Belém transforma seu centro histórico

Marcus Athayde, arquiteto urbanista e diretor de Desenvolvimento Urbano de Belém, apresentou o plano Belo Centro – uma requalificação ambiciosa do centro histórico da cidade amazônica. Athayde descreveu um cenário caótico: ruas estreitas, ocupação informal, calçadas invadidas por carros e alagamentos constantes por causa do nível da maré, tudo piorado pelas mudanças climáticas.

O centro histórico de Belém fica numa planície alagável. Nosso desafio é transformar esse espaço, onde os pedestres literalmente dividem a via com os carros”, explicou. A estratégia inclui criação de grandes calçadõesurbanismo tático e organização dos trabalhadores informais.

Além disso, Athayde destacou que a COP30 deixou um legado tangível: a renovação de 30% a 40% da frota de transporte público, incluindo ônibus elétricos.

A mobilidade ativa é um pilar fundamental para resgatar e reabilitar o centro histórico”, afirmou. Ele também mencionou que o centro histórico é o bairro com menos árvores – por isso estão trabalhando com a Secretaria de Meio Ambiente num plano de arborização para garantir conforto térmico para quem anda a pé.

Athayde reconheceu que mudar o paradigma de uma cidade onde “todo mundo anda de carro” é um trabalho contínuo – até dentro da própria prefeitura. Mas ele confia que, com o apoio do WRI Brasil e da C40, vão conseguir fazer testes de fechamento de vias nos próximos feriados.

Governo Federal mobiliza financiamento recorde

Mauricio Guerra apresentou a visão do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil, enfatizando que a agenda climática é prioridade nacional. Ele lembrou que o Brasil se comprometeu a alcançar emissões líquidas zero em 2050, com metas ambiciosas de redução do desmatamento (53% menos emissões em comparação com 2022, e 99% de redução em terras indígenas).

Ele também destacou a criação de 17 planos de adaptação setoriais e 7 de mitigação, incluindo um específico para cidades.

Guerra sublinhou que a nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira incorpora o compromisso CHEMP, que exige que o planejamento, as ações e o financiamento climático sejam compartilhados com estados, municípios e a sociedade civil. “Não faz sentido preparar a agenda climática sem os municípios”, sentenciou.

Dentro do programa Cidades Verdes e Resilientes, o ministério promove três grandes eixos integradosmobilidade urbana sustentávelsoluções baseadas na natureza e áreas verdes e arborização urbana. A meta é alcançar 180 mil hectares adicionais de cobertura verde nas cidades brasileiras até 2035 – o equivalente a pelo menos 30% de cobertura verde.

Em termos de financiamento, Guerra anunciou que o Fundo Clima passou de 300 milhões de reais em 2022 para 27 bilhões de reais em 2026. Esses recursos estão disponíveis para energia sustentável, mobilidade ativa, mobilidade elétrica, arborização e soluções baseadas na natureza. Além disso, quase 20 milhões de reais não reembolsáveis serão destinados neste ano para o programa Arboriza Cidade.

O ministério também lançou a iniciativa Adapta Cidade, que prevê a elaboração de 581 planos locais de adaptação climática. E para facilitar o acesso aos recursos, criaram um banco de projetos aberto até 19 de abril de 2026, onde cidades, estados e consórcios podem apresentar iniciativas nos seis eixos do programa Cidades Verdes e Resilientes. Na primeira chamada, a demanda superou os 10 bilhões de reais.

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Governança, transversalidade e mudança de paradigma

Ariadne Samios, moderadora e coordenadora de Mobilidade Ativa do WRI Brasil, conduziu o encerramento do painel perguntando: o que precisa mudar nos municípios para que os projetos de adaptação e resiliência já nasçam integrados?

Manuela Accioly respondeu que o principal desafio é a conscientização dos gestores municipais. “Uma cidade adaptada é também uma cidade que mitiga. Precisamos entender que a mobilidade não é apenas transporte – especialmente quando falamos de mobilidade ativa. As secretarias devem falar a mesma língua”, afirmou.

Ela deu um exemplo concreto: “Em Salvador, se uma ciclovia não for arborizada, as pessoas não pedalam por causa do calor. Precisamos que as secretarias de sustentabilidade e mobilidade conversem e casem recursos.”

Accioly insistiu que o desenho urbano envia uma mensagem para os cidadãos. “Uma cidade com calçadas boas, largas e arborizadas está dizendo: ‘pessoas, caminhem’. Uma malha cicloviária conectada e segura diz: ‘pedalem’. Hoje, 80% das vias estão ocupadas pelo carro. Temos que combater essa hierarquização perversa.”

Por sua vez, Marcus Athayde alertou sobre o risco de repetir erros em cidades pequenas. Deu o exemplo de Soure, na Ilha de Marajó, que instalou seu primeiro semáforo com grande pompa – quando o trânsito era mínimo. Estamos repetindo os mesmos erros. Não estamos olhando para as cidades pequenas”, lamentou. Ele reforçou a necessidade de facilitar o acesso ao financiamento e de trabalhar a conscientização desde o prefeito até o servidor da ponta.

Mauricio Guerra encerrou enfatizando a necessidade de investir em transversalidade de políticas e no uso de dados do futuro, não só do passado. Preparar bem os municípios para minimizar perdas de vidas e danos é fundamental. É preciso comprometimento do gestor, capacitação técnica, criatividade e ousadia no uso dos recursos”, concluiu.

A cidade como sistema integrado

O painel deixou uma conclusão clara: a mobilidade sustentável não é um assunto isolado – é o resultado de uma visão integrada onde o clima, a natureza e o desenho urbano se encontram.

As experiências de Salvador e Belém, com o apoio técnico do WRI Brasil e o financiamento e articulação do Ministério do Meio Ambiente, mostram que é possível caminhar para cidades mais verdes, resilientes e humanas.

Ariadne Samios resumiu o espírito do encontro: “A cidade mostra quem é priorizado. Nossas políticas e ações devem dar protagonismo às pessoas que caminham, pedalam e usam o transporte coletivo. Essa é a verdadeira integração para o desenvolvimento urbano sustentável.”

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Da esquerda para a direita: Marcus Athayde, Manuela Accioly, Ariadne Samios e Mauricio Guerra

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