O impacto de conflitos no Oriente Médio sobre a oferta e os preços do petróleo pode, em uma primeira análise, reforçar argumentos pela transição energética, mas também expõe a dependência de importações para investimentos em tecnologias limpas. A interrupção das rotas de navegação no Estreito de Ormuz não afetam apenas a entrega de óleo, gás e derivados, mas também as exportações chinesas incluindo painéis fotovoltaicos.
A escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã ao longo desta semana reacendeu preocupações sobre a estabilidade dos mercados globais de energia e seus possíveis impactos sobre a transição energética. Enquanto o conflito tem impacto direto nos preços de óleo e gás, a obstrução de uma das principais rota logísticas da China para o ocidente também afeta o acesso à tecnologia de fontes renováveis.
Segundo a Agência Internacional de Energia, os preços do petróleo e do gás natural dispararam após o início das hostilidades. Os contratos futuros do petróleo Brent subiram 17% até 5 de março, e o TTF holandês, referência europeia para o gás natural, registrou alta de mais de 60%. Além disso, alguns mercados de derivados de petróleo foram particularmente afetados, incluindo os de diesel e querosene de aviação.
Uma análise da plataforma de metais ferrosos e não ferrosos Shanghai Metal Markets destaca que as rotas de navegação no Estreito de Ormuz estão bloqueadas, interrompendo diretamente a rota de transporte convencional, via Canal de Suez, para módulos fotovoltaicos chineses destinados aos mercados europeu e brasileiro. Navios estão sendo obrigados a alterar suas rotas e contornar o Cabo da Boa Esperança, na África. Além da obstrução das rotas tradicionais por causa do conflito na região do Estreito de Ormuz, a logística transfronteiriça de produtos fotovoltaicos da China já enfrentava pressão sazonal pós-feriado do Ano Novo Chinês, que interrompeu e acumulou as remessas.
O desvio de rotas pelo Cabo da Boa Esperança adiciona até 14 dias de viagem para o Brasil e eleva os custos de frete em até 500%, segundo uma análise publicada pelo especialista em comércio exterior, diretor de Relações Públicas e Novos Negócios da TrinaSolar no Brasil e Conselheiro da Absolar, Daniel Pansarella.
Estão em curso medidas de ampliação das rotas comerciais entre China e Brasil. Em abril de 2025, começou a operar uma nova rota marítima direta entre o Porto de Gaolan, na cidade de Zhuhai no Sul da China, e os portos de Santana, no Amapá, e Salvador, Bahia, nas regiões Norte e o Nordeste do Brasil. Os navio atravessam o Estreito de Malaca e o Cabo da Boa Esperança e não fazem escalas. intermediárias.
Além disso, através de um acordo entre os países, a China deve elaborar um novo estudo para a implantação do Corredor Bioceânico Brasil-Peru. O projeto ferroviário ligaria o Porto Sul, em Ilhéus, no Oceano Atlântico, ao porto peruano de Chancay, no Oceano Pacífico.
Impactos na transição energética
Embora afete as remessas de painéis fotovoltaicos e outras tecnologias renováveis, majoritariamente produzidas na China, o conflito no Oriente Médio também reforça a defesa por uma transição energética e maior independência de combustíveis fósseis dos países.
“O que estamos vendo acontecer hoje enfatiza a necessidade de mudar dos fósseis para renováveis. Diferentes conflitos ao redor do mundo mostram o efeito imediato sobre os preços de óleo e gás. Mudar para renováveis pode tornar os países menos vulneráveis a esses impactos”, disse o chefe da Unidade de Política Climática Internacional dos Países Baixos, Bastian Haasing, durante webinar realizado nesta quinta-feira (05/03) pelo Ministério de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia. “Ao mesmo tempo, enquanto investimentos em exploração de óleo e gás ainda estão aumentando, os investimentos renováveis também estão crescendo e de forma ainda mais rápida. Então, para ser claro, essa transição já está acontecendo, de forma rápida, mas precisamos garantir que ela acelere ainda mais.”
Cabe observar que Colômbia e Países Baixos estão organizando conjuntamente abril a primeira Conferência para a Transição Além dos Combustíveis Fósseis, após a COP30 ser encerrada sem mencionar uma rota para que o mundo deixe de ser dependente de combustíveis fósseis em seus acordos finais.
A presidência brasileira da COP30 abriu em fevereiro duas consultas públicas para receber contribuições aos mapas do caminho para o fim do uso de combustíveis fósseis e do desmatamento.
Em entrevista à Agência Brasil, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, destacou que a discussão global sobre energia é muito dividida entre várias entidades, o que dificulta construir uma agenda conjunta dos países. “Se os Estados Unidos hoje são a maior potência de petróleo e gás do mundo, eles têm uma visão de isto é um momento de poder e que uma transição poderia reduzir a relevância e a força do país”, disse Corrêa do Lago à Agência Brasil.
Os EUA, que não são mais signatários do Acordo de Paris e não participaram da Conferência das Partes em Belém, são exportadores líquidos de petróleo.
Oficialmente, a justificativa dada pela administração Trump para o ataque ao Irã é a de “acabar com a ameaça nuclear” do país, através da derrubada do regime. Em janeiro, a intervenção militar dos EUA na Venezuela com a captura do então presidente Nicolas Maduro foi em parte justificada por questões de suprimento energético, com objetivo de garantir o acesso ao petróleo venezuelano.
Diversificação de fornecedores
Embora os conflitos globais recentes tenham levado países a falar mais sobre independência energética, o que na verdade ajudou a Europa, por exemplo, a lidar com o desabastecimento de gás após a invasão da Ucrânia pela Rússia, foi a possibilidade de diversificar fornecedores, disse o diretor do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia, Jason Bordoff, em entrevista ao Podcast Zero, da Bloomberg.
Ele reconheceu também o papel da eficiência energética, da eletrificação e da transição energética na adaptação dos países europeus ao choque na oferta de gás. No entanto, quando os países são pressionados a aumentar o seu gasto com defesa, há menos espaço nos orçamentos nacionais para investimentos nessas áreas, observou.
Além disso, Bordoff pontuou que, enquanto no mercado de petróleo, a base de fornecimento é bastante diversificada, sendo que nenhum país é responsável por mais de 20% do fornecimento global, no mercado de tecnologias de limpas como painéis solares, veículos elétricos, baterias e minerais críticos, há uma concentração de “70%, 80%, 90% dessas cadeias de suprimentos na China”.
As tensões geopolíticas também afetam diretamente a própria China, cujo abastecimento de petróleo foi afetado tanto pelo conflito dos EUA com o Irã quanto pela intervenção na Venezuela.
Apesar disso, autoridades chinesas afirmam que o país está hoje menos dependente de combustíveis fósseis do que em décadas anteriores, em razão da rápida expansão de fontes renováveis em sua matriz energética. No seu 15º Plano Quinquenal, apresentado nesta semana, Pequim sinalizou uma estratégia econômica mais baseada em tecnologia e inovação, prevendo aumento médio anual de pelo menos 7% nos investimentos nacionais em pesquisa e desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, a meta oficial de crescimento econômico foi reduzida para uma faixa entre 4,5% e 5% ao ano, a menor desde 1991, refletindo pressões internas e externas sobre a economia chinesa, incluindo redução demográfica, crise no mercado imobiliário e o conflito no Oriente Médio.
Nesse sentido, a vantagem de realizar a transição energética e eletrificação está em obter os preços mais baixos para a geração de energia, mas não necessariamente torna os países independentes de importação. Estabelecer cadeias de produção nacionais para essas novas tecnologias pode ser muito desafiador e custoso.
Além disso, a substituição completa do petróleo continua sendo um desafio estrutural. Apenas cerca de 20% do consumo global do combustível está associado ao transporte rodoviário de passageiros, que já passa por uma transição com o avanço dos veículos elétricos. Mas outros setores, como industrial, transporte marítimo, aviação e transporte pesado, ainda dependem de derivados de petróleo.
A crise no Oriente Médio evidencia tanto as fragilidades do sistema energético baseado em combustíveis fósseis quanto os novos desafios geopolíticos associados à transição energética.



