USP desenvolve modelos para reduzir curtailment e ampliar integração de renováveis no sistema elétrico

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Projeto do RCGI-USP promove integração de dados de geração, transmissão e distribuição para enfrentar perdas bilionárias e gargalos operacionais provocados pelo corte de geração no país.

A Universidade de São Paulo (USP) lidera o projeto “Soluções de flexibilidade para aumentar a capacidade de hospedagem de recursos energéticos distribuídos” (FlexHostCap), que cria modelos para mapear com precisão como cada ponto da rede elétrica responde ao crescimento da geração distribuída. Coordenada pelo professor Carlos Frederico Meschini Almeida, da Escola Politécnica da USP, a iniciativa integra o programa InnovaPower do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) da USP e tem financiamento da TotalEnergies.

De alcance nacional — com foco inicial nas regiões Nordeste e Sudeste —, o projeto introduz no setor elétrico brasileiro uma abordagem de integração de informações de geração, transmissão e distribuição, cruzadas com dados georreferenciados e operacionais, permitindo analisar individualmente milhares de pontos de fronteira — locais onde as distribuidoras recebem energia das transmissoras. “É uma quebra de paradigma: antes, cada agente trabalhava com seus próprios dados. Agora, mostramos que integrar essas bases é essencial para prever gargalos e aumentar a confiabilidade da rede”, explica Almeida.

O projeto teve início analisando os efeitos da micro e minigeração distribuída, que vêm mudando o perfil de consumo de energia. Antes, as redes operavam com curvas de carga previsíveis. O consumo subia gradualmente de manhã, mantinha-se durante o dia, tinha um novo aumento à noite e só então caía na madrugada.

A geração solar alterou esse padrão. Durante o dia, a demanda aparente fica reduzida, e no fim da tarde ocorre uma rampa de subida muito acentuada, quando o sol desaparece justamente no horário de maior uso de energia. Esse novo comportamento torna mais complexa a tarefa de prever fluxos e manter a estabilidade do sistema. Com o avanço exponencial dessa geração, o impacto se estendeu também às grandes usinas eólicas e solares, que passaram a sofrer ordens frequentes de redução de geração, reforçando a importância de integrar dados de toda a cadeia elétrica.

Para Almeida, o fenômeno é estrutural e tende a crescer com a rápida expansão das renováveis, as limitações da rede e a complexidade de prever produção e consumo. Os impactos são mais fortes sobre usinas eólicas e solares centralizadas, que precisam reduzir a geração, acumulando prejuízos. Indiretamente, o problema também pressiona tarifas. “Sem soluções integradas, a tendência é que esse fenômeno aumente à medida que novos projetos entram em operação”, alerta o professor.

A pesquisa mobiliza cerca de 24 especialistas de diferentes áreas, organizados em nove frentes de investigação. O trabalho vai desde a modelagem elétrica e a simulação de cenários até o desenvolvimento de ferramentas de visualização georreferenciada, capazes de mostrar, com clareza, onde e quando a rede enfrenta gargalos operacionais. Segundo os pesquisadores, esse nível de detalhamento sobre o comportamento da carga nos pontos de fronteira não existe em outros projetos hoje no país.

O professor Maurício Barbosa de Camargo Salles, diretor do InnovaPower, hub que pesquisa eletrificação no RCGI, reforça o caráter estratégico do estudo: “Estamos unindo dados que antes ficavam isolados entre geração, transmissão e distribuição.”, afirma.

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