Queda dos custos do lítio, avanço das soluções híbridas e busca por resiliência impulsionam aplicações de backup, peak shaving e aumento do autoconsumo em GD, enquanto regulação da Aneel é vista como fator decisivo para acelerar o mercado este ano.
O mercado brasileiro de baterias junto à carga em sistemas de geração distribuída (GD) já apresenta aplicações economicamente e tecnicamente viáveis, especialmente nos segmentos comercial, industrial leve, rural e de serviços essenciais. A avaliação é do gerente de operações e renováveis da Powersafe, André Ribeiro, entrevistado pela pv magazine Brasil para o especial Aplicações de baterias junto à carga em GD.
Segundo Ribeiro, a experiência prática da empresa no mercado nacional mostra que o armazenamento deixou de ser apenas um complemento tecnológico e passou a ocupar papel estratégico na gestão energética dos consumidores. “Hoje, destacam-se soluções de backup energético, aumento do autoconsumo, deslocamento de carga (time shift) e redução de picos de demanda (peak shaving), principalmente em sistemas de geração distribuída já existentes”, afirma.
A Powersafe atua no fornecimento dessas soluções em um modelo de varejo energético, com foco em consumidores finais para os quais a continuidade do fornecimento elétrico é crítica. “Nesses casos, a bateria deixa de ser um acessório e passa a ser um ativo estratégico, com retorno baseado não apenas na economia direta de energia, mas também na redução de riscos, perdas produtivas e interrupções”, diz Ribeiro.
Backup segue como principal porta de entrada

De acordo com o executivo, o backup energético ainda é a principal motivação para a adoção de baterias junto à carga no Brasil. A instabilidade do fornecimento, especialmente em áreas rurais e regiões com redes saturadas, tem levado consumidores a buscar maior previsibilidade energética. “A instabilidade do fornecimento elétrico tem sido um fator decisivo para a decisão de investimento em armazenamento”, ressalta.
Além do backup, os sistemas atendem demandas crescentes por resiliência energética, aumento do autoconsumo da geração fotovoltaica e otimização do uso da energia ao longo do dia. Em aplicações comerciais e industriais, essas soluções costumam ser integradas a sistemas de gestão energética (EMS) e inversores híbridos. “Isso permite uma operação mais inteligente, flexível e eficiente do sistema elétrico local”, explica.
A empresa já conta com um portfólio relevante de instalações em operação no Brasil, com dados reais de desempenho e resultados consolidados. Segundo Ribeiro, alguns desses projetos podem ser compartilhados como estudos de caso, inclusive com a possibilidade de entrevistas com clientes finais e integradores parceiros.
Crescimento acelerado até 2026
Embora ainda não existam números oficiais consolidados sobre o volume total de instalações de baterias junto à carga no país, a Powersafe observa um crescimento consistente da demanda. Esse avanço é impulsionado pela queda dos custos das tecnologias de lítio, maior oferta de soluções híbridas e pela preocupação crescente dos consumidores com a confiabilidade do sistema elétrico.
“A expectativa é de um crescimento acelerado em 2026,”, afirma Ribeiro. Segundo ele, a tendência é que o armazenamento passe a ser incorporado aos projetos de geração distribuída desde a fase de concepção, deixando de ser uma solução pontual.
Eventos de interrupção no fornecimento também têm reforçado a busca por armazenamento. “Em muitos casos, os consumidores chegam à empresa após episódios recentes de queda de energia que impactaram diretamente suas operações”, relata. Esse movimento tem fortalecido a percepção da bateria como elemento central da resiliência energética, inclusive no mercado residencial.
Nesse contexto, a Powersafe passou a comercializar no Brasil soluções plug and play de pequeno porte, voltadas ao consumidor final. “Entendendo essa demanda crescente, trouxemos para o mercado brasileiro a marca EcoFlow, focada no armazenamento residencial”, destaca.
GD impulsiona adoção de baterias
Consumidores que já investiram em geração distribuída são, segundo Ribeiro, mais propensos a instalar baterias. “Esses consumidores já compreendem os limites da compensação de energia, a dependência da rede elétrica e os impactos de eventuais mudanças regulatórias”, afirma.
Além disso, há o interesse em maximizar o retorno do investimento inicial. “A bateria surge como uma evolução natural do sistema de geração distribuída, especialmente quando oferecida em um modelo de varejo energético acessível e bem estruturado”, diz.
Desafios técnicos, econômicos e regulatórios
Apesar do avanço, o executivo aponta desafios relevantes. Do ponto de vista técnico, destacam-se a qualificação do mercado, o correto dimensionamento dos sistemas e a integração entre baterias, inversores e plataformas de gestão energética. “Esses fatores são críticos para garantir desempenho, segurança e longevidade das soluções”, afirma.
Economicamente, o investimento inicial ainda é uma barreira, sobretudo no segmento residencial. No entanto, Ribeiro observa que a padronização de soluções e a otimização de custos têm contribuído para reduzir esse obstáculo. Já no campo regulatório, a ausência de regras claras para o armazenamento junto à carga limita o desenvolvimento de novos modelos de negócio.
Regulação da Aneel é vista como decisiva
Para a Powersafe, a Consulta Pública n.º 39 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) representa um marco potencial para o setor. “A criação de um arcabouço regulatório que reconheça o armazenamento como um elemento ativo do sistema elétrico é fundamental para dar segurança jurídica e previsibilidade ao mercado”, avalia Ribeiro.
Segundo ele, uma regulação clara pode acelerar investimentos, estimular novos modelos de negócio no varejo de energia e ampliar a adoção de baterias junto à carga, beneficiando consumidores finais e contribuindo para a flexibilidade e a confiabilidade do sistema elétrico nacional.
Queda de custos melhora payback
A redução dos custos das baterias de íon-lítio tem sido determinante para a viabilidade econômica dos projetos. Dados da Bloomberg indicam que o preço médio de um pack de baterias caiu para cerca de US$ 108/kWh em 2025, uma redução de 93% em relação a 2010, impulsionada principalmente pela adoção da tecnologia LFP.
Com base em projeções da EPE, Ribeiro aponta que, considerando um custo de R$ 3.000/kWh, o payback de sistemas de GD com armazenamento pode ser de cerca de seis anos no residencial e cinco anos no comercial. “Em cenários mais competitivos, com custos próximos a R$ 2.000/kWh, esse retorno pode cair para quatro anos, e alguns projetos chegam a paybacks de dois anos”, afirma.
Na prática, segundo ele, aplicações focadas em peak shaving, aumento de autoconsumo e mitigação de custos associados à indisponibilidade de energia tendem a apresentar retornos ainda mais atrativos.
Qualidade de energia e novos modelos de negócio
Além do retorno financeiro, as baterias desempenham papel relevante na qualidade da energia. “Flutuações de tensão e microinterrupções afetam diretamente equipamentos sensíveis”, explica Ribeiro. Sistemas integrados com EMS e inversores híbridos permitem suporte local de tensão e frequência, aumentando a estabilidade operacional.
O executivo também aponta a abertura para novos modelos de negócio na GD com armazenamento, como armazenamento como serviço, contratos de desempenho energético e integração de serviços ancilares. “Esses modelos dependem de regulação clara e maturidade de mercado, mas representam uma tendência consistente observada globalmente”, conclui.



