O que o El Niño significa para a geração solar?

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“O clima é aquilo que esperamos. O tempo é aquilo que acontece.” A famosa frase atribuída ao escritor Mark Twain resume bem um dos principais desafios do setor elétrico diante do El Niño. Embora o fenômeno tenha padrões conhecidos, seus impactos reais sobre a geração solar estão longe de seguir uma receita fixa. No Brasil, isso significa que o mesmo evento capaz de ampliar a irradiância e favorecer a geração fotovoltaica em regiões estratégicas também pode aumentar riscos operacionais ligados ao excesso de calor, tempestades severas e irregularidade atmosférica, exigindo monitoramento constante por parte do setor energético.

Segundo atualização divulgada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) em 14 de maio, há 82% de probabilidade de desenvolvimento do fenômeno entre maio e julho e 96% de chance de permanência durante o inverno do Hemisfério Norte de 2026-2027.

Caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial, o El Niño altera significativamente os padrões de circulação atmosférica ao redor do planeta, modificando o comportamento das chuvas, temperaturas, vento e nebulosidade.

No Brasil, os efeitos mais favoráveis à geração solar tendem a se concentrar no Norte e no interior do Nordeste. Nessas regiões, o El Niño costuma reduzir as chuvas durante a primavera e início do verão (setembro a dezembro), favorecendo a disponibilidade de irradiância solar. A nebulosidade não desaparece completamente, mas passa a ocorrer de forma mais irregular e menos persistente.

Sistemas típicos da estação chuvosa, como corredores de umidade e episódios de Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), tornam-se menos frequentes. Como consequência, há maior incidência de radiação solar em uma época do ano normalmente marcada por céu mais encoberto.

Parte desse comportamento pode beneficiar parcialmente áreas do norte de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, onde o aumento da irradiância tende a favorecer o desempenho dos sistemas solares.

No Sul do país, o cenário costuma ser oposto. O aumento da frequência de sistemas frontais, períodos prolongados de nebulosidade e eventos de chuva intensa reduzem a disponibilidade de irradiância e podem impactar negativamente a geração solar.

No entanto, esse comportamento não é uniforme. A distribuição da precipitação na região também depende de fenômenos de menor escala, como a Oscilação de Madden-Julian (MJO), que influencia a organização de sistemas convectivos em escala semanal, e a Oscilação Antártica (AAO), que modula a posição de frentes frias. Esses mecanismos podem deslocar áreas de precipitação ao longo do tempo, evitando impactos simultâneos nos três estados do Sul. Em alguns casos, a chuva pode ser muito volumosa na Argentina, Uruguai e Paraguai e ter dificuldade de chegar ao Sul do Brasil, como ocorreu em dezembro de 2023, por exemplo.

Além disso, parte relevante das chuvas intensas na região está associada a Sistemas Convectivos de Mesoescala (SCMs), que frequentemente se formam durante a madrugada e o início da manhã. Isso significa que nem todos os eventos de chuva volumosa comprometem, necessariamente, os períodos de maior geração solar ao longo do dia.

No Sudeste e no Centro Oeste, porém, o comportamento atmosférico associado ao El Niño tende a ser mais variável. Dependendo da configuração de cada evento, estados como São Paulo e Mato Grosso do Sul podem apresentar um padrão mais úmido, semelhante ao Sul, como ocorreu em 2015, ou condições mais secas, como observado em novembro e dezembro de 2023.

O principal ponto é que nenhum episódio de El Niño é idêntico, já que a interação com outros fenômenos atmosféricos pode alterar significativamente os efeitos esperados. Um dos principais exemplos é o Atlântico Tropical Sul: quando suas águas apresentam temperaturas mais elevadas, há maior disponibilidade de umidade na atmosfera, o que pode, em alguns casos, compensar parcialmente os efeitos clássicos do fenômeno e favorecer a ocorrência de chuvas no Centro-Norte do Brasil, especialmente entre janeiro e abril.

Sistemas regionais também exercem influência relevante. Na faixa costeira do Nordeste, o posicionamento do Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN) exige atenção. Embora o centro do sistema esteja associado a condições mais estáveis, suas bordas favorecem chuva e aumento da nebulosidade. Em determinados episódios de El Niño, o VCAN pode se posicionar de forma a manter essas áreas mais instáveis sobre polos de geração solar, reduzindo a irradiância por vários dias consecutivos.

Como o El Niño dificulta a organização de corredores de umidade e aumenta as temperaturas, ele também tende a intensificar a ocorrência de tempestades isoladas em regiões do Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Essas pancadas, geralmente concentradas entre a tarde e a noite, podem apresentar alta intensidade, com raios, granizo e rajadas de vento que superam 80 km/h, elevando o risco de danos às estruturas fotovoltaicas.

A questão das temperaturas elevadas completa o cenário de atenção. Apesar de o excedente de irradiância favorecer a geração solar, o calor excessivo reduz a eficiência dos módulos solares, que perdem capacidade de conversão em condições térmicas extremas. A situação piora em ondas de calor, porque as altas temperaturas persistem por mais tempo.

Nesse contexto, o principal desafio do setor elétrico é lidar com a variabilidade das condições atmosféricas. A performance dos ativos passa a depender não apenas da irradiância média, mas também da ocorrência de eventos extremos e da dinâmica entre fenômenos atmosféricos de diferentes escalas.

O monitoramento climático contínuo, apoiado por plataformas como o TOKsolar, da Tempo OK, que oferece séries históricas e climatologias detalhadas de irradiância solar, deixa de ser um diferencial e passa a ocupar papel central na estratégia das empresas de energia.

Por: Paulo Lombardi, meteorologista da Tempo OK

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