O mundo precisará investir, em média, US$ 10,3 trilhões por ano entre 2026 e 2050 para colocar o sistema energético em uma trajetória compatível com o limite de aquecimento global de 1,5 °C, segundo o relatório World Energy Transition Outlook 2026, da Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena). A estimativa considera investimentos e despesas acumulados superiores a US$ 256 trilhões no período.
O montante necessário supera em US$ 78 trilhões o total projetado no cenário baseado nos planos e políticas energéticas atuais. Em comparação com a edição de 2023 do relatório, a necessidade anual de recursos aumentou em US$ 3,8 trilhões, refletindo o atraso na transição, a atualização dos custos tecnológicos e a inclusão de medidas adicionais no cenário de 1,5 °C.
A agência avalia que o avanço da transição energética depende da aceleração da implantação de fontes renováveis, da eletrificação dos setores de transporte, edifícios e indústria e da melhoria da eficiência energética. O cenário também pressupõe uma transformação mais ampla dos sistemas elétricos, com expansão da infraestrutura necessária para integrar a geração renovável e atender ao crescimento da demanda por eletricidade.
Redes elétricas e armazenamento são fundamentais
A Irena alerta que a expansão da capacidade de geração renovável, por si só, não será suficiente para alcançar os objetivos climáticos. A falta de infraestrutura para conectar novas usinas à rede já começa a limitar o crescimento da capacidade renovável em diferentes mercados.
O relatório destaca a necessidade de ampliar e modernizar as redes de transmissão e distribuição, além de expandir o armazenamento de energia e outros recursos de flexibilidade operacional. Essas medidas são necessárias para acomodar a crescente participação de fontes variáveis, como solar fotovoltaica e eólica, e garantir a confiabilidade do sistema elétrico.
No cenário de 1,5 °C, a capacidade global instalada de geração renovável precisaria passar de aproximadamente 5,2 TW em 2025 para 18,4 TW em 2035 e 38,2 TW em 2050. Para isso, as adições líquidas anuais teriam de superar 1,3 TW entre 2026 e 2035.
O armazenamento também precisaria crescer significativamente. Segundo a agência, a capacidade global instalada de armazenamento de energia deveria aumentar de aproximadamente 416 GW em 2025 para 2.530 GW em 2035 e quase 6.860 GW em 2050.
Eletrificação deve ganhar participação no consumo de energia
A eletrificação é outro pilar da trajetória projetada pela Irena. No cenário de 1,5 °C, a participação da eletricidade no consumo final global de energia aumentaria de cerca de 23% atualmente para aproximadamente 35% em 2035 e mais de 50% em 2050.
A mudança envolve a expansão dos veículos elétricos, o uso de tecnologias elétricas em edifícios e a substituição de processos industriais baseados em combustíveis fósseis. A agência também destaca o crescimento de novas cargas, como centros de dados e aplicações de inteligência artificial, que exigem planejamento antecipado da geração e da infraestrutura elétrica.
De acordo com o relatório, a eletrificação baseada em fontes renováveis, combinada com medidas de eficiência energética, poderia responder por aproximadamente um terço das reduções acumuladas de emissões de dióxido de carbono entre 2026 e 2050, o equivalente a cerca de 110 bilhões de toneladas de CO₂.
A Irena ressalta, contudo, que a transição exige planejamento integrado, financiamento acessível e políticas capazes de acelerar os investimentos. A coordenação entre geração renovável, redes elétricas, armazenamento e eletrificação será determinante para ampliar a segurança energética e reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
América do Sul precisará quintuplicar capacidade renovável até 2050
Na América do Sul, a capacidade instalada de geração renovável precisará dobrar até 2035 e alcançar cinco vezes o nível de 2025 até 2050, segundo o cenário de 1,5 °C da Irena. Para viabilizar essa expansão, o relatório estima investimentos acumulados de US$ 2,6 trilhões em geração renovável na região entre 2026 e 2050.
A energia solar fotovoltaica e a eólica deverão impulsionar a maior parte do crescimento da geração renovável. O estudo observa que o setor elétrico sul-americano já apresenta uma participação relativamente elevada de fontes de baixo carbono, principalmente devido aos recursos hidrelétricos e à bioenergia.
A agência ressalta, porém, que a expansão da geração precisa ser acompanhada de investimentos em redes elétricas, armazenamento e flexibilidade operacional. O planejamento integrado entre os países e o desenvolvimento de cadeias regionais de fornecimento de tecnologias solares e eólicas também estão entre as medidas apontadas para acelerar a transição energética.



