El Niño: Aneel recomenda ampliar solar e baterias em sistemas isolados da Amazônia

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A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) recomenda acelerar a implantação de sistemas híbridos de geração solar fotovoltaica com armazenamento por baterias nas usinas que atendem aos Sistemas Isolados da região Norte. A medida busca reduzir a dependência de óleo diesel e aumentar a segurança do fornecimento de energia diante das dificuldades logísticas provocadas pelas estiagens e vazantes dos rios amazônicos.

A recomendação integra o relatório “O Fenômeno El Niño (2026-2027) e a Resiliência do Setor Elétrico Brasileiro: Desafios Operacionais, Planejamento e Respostas Regulatórias“, lançado pela agência em 29 de outubro. O documento reúne os principais desafios físicos e operacionais associados aos eventos climáticos extremos e apresenta iniciativas de concessionárias, órgãos públicos e instituições do setor para fortalecer a infraestrutura elétrica nacional.

A redução dos níveis dos rios compromete o transporte de combustíveis destinados às usinas termelétricas dos sistemas isolados. No Amazonas, 53 dos 61 municípios não possuem conexão física com o Sistema Interligado Nacional (SIN), dependendo da operação de usinas locais para o abastecimento de energia.

A situação exige estratégias de armazenamento de combustível e adaptação logística. O relatório descreve, por exemplo, o planejamento de estoques de até seis meses de óleo diesel nas usinas e a utilização de balsas estacionárias como estruturas intermediárias de abastecimento.

Nesse contexto, a hibridização com fontes renováveis e baterias aparece como uma das recomendações para reduzir estruturalmente a exposição do sistema às dificuldades de transporte de combustíveis fósseis durante períodos de seca severa.

A proposta abre espaço para ampliar a participação de sistemas fotovoltaicos associados a baterias em localidades remotas, com potencial de reduzir o consumo de diesel e oferecer maior flexibilidade operacional.

Automação e digitalização para aumentar a resiliência das redes

Além da geração, o documento dedica atenção à infraestrutura de transmissão e distribuição, especialmente à necessidade de preparar os ativos para tempestades, vendavais, inundações, queimadas e ondas de calor.

No segmento de distribuição, o relatório destaca a adoção de tecnologias de automação e monitoramento. Entre as iniciativas mencionadas estão mais de 25 mil religadores automáticos georreferenciados e mais de 2 milhões de medidores inteligentes.

Os equipamentos integram sistemas de autorrecuperação de redes (self-healing), capazes de identificar falhas, isolar trechos danificados e reconfigurar automaticamente o fornecimento de energia para áreas não afetadas.

O documento também apresenta o uso de modelos computacionais baseados em aprendizado de máquina (machine learning) para antecipar possíveis falhas. A partir do cruzamento de previsões meteorológicas com históricos de ocorrências das distribuidoras, as ferramentas podem estimar, com até 24 horas de antecedência, os pontos mais vulneráveis da rede e orientar o posicionamento preventivo das equipes de manutenção.

O fortalecimento da infraestrutura física é outra frente de atuação. Entre as medidas descritas estão a substituição de postes de madeira por estruturas de concreto armado e a utilização de cruzetas de materiais poliméricos, com o objetivo de aumentar a resistência das redes a ventos intensos.

Distribuição concentra previsão de R$ 257,9 bilhões em investimentos

A necessidade de modernização também se reflete nas estimativas de investimentos apresentadas pelo relatório. Com base no Plano de Desenvolvimento da Distribuição (PDD) de 2026, o documento aponta previsão de R$ 257,93 bilhões em aportes no segmento entre 2026 e 2030.

Desse total, R$ 149,48 bilhões seriam destinados à expansão e ao robustecimento das redes físicas, enquanto R$ 60,83 bilhões contemplariam melhorias na qualidade e confiabilidade do fornecimento. Outros R$ 47,61 bilhões seriam direcionados à renovação de ativos e à substituição de estruturas antigas, incluindo postes de madeira.

Na transmissão, o relatório cita estimativas de R$ 128,6 bilhões em investimentos para a construção de aproximadamente 30 mil quilômetros de novas linhas e a ampliação de 82 mil MVA na capacidade de subestações, conforme o planejamento setorial mencionado no documento.

A infraestrutura de transmissão também está exposta aos riscos de queimadas. O relatório relembra o episódio de agosto de 2013, quando incêndios no Piauí provocaram o desligamento simultâneo de duas linhas de 500 kV, resultando em um corte de carga de 10.900 MW e afetando cerca de 16 milhões de pessoas.

Para reduzir esse tipo de ocorrência, a Aneel destaca iniciativas de monitoramento geoespacial das faixas de servidão e ações preventivas com transmissoras. O documento menciona, ainda, planos de resultados com 13 empresas do segmento e uma meta de redução de 33% nos desligamentos provocados por incêndios.

Resiliência climática entra na agenda regulatória

O relatório também destaca o avanço de instrumentos regulatórios e de fiscalização voltados à preparação das concessionárias para emergências climáticas.

Entre eles está a Resolução Normativa nº 1.137/2025, que estabelece diretrizes para aumentar a resiliência das redes de distribuição e transmissão diante de eventos extremos, incluindo a implementação e revisão de planos de contingência climática.

Outro instrumento citado é o Sistema Radar da Aneel, que monitora interrupções no fornecimento de energia. As distribuidoras devem reportar as ocorrências e apresentar estimativas de restabelecimento em até 15 minutos, ampliando a capacidade de acompanhamento da agência e a transparência para os consumidores.

No segmento de distribuição, a fiscalização também busca reduzir o Tempo Médio de Atendimento Emergencial (TMAE), com meta de alcançar patamares inferiores a nove horas até 2027.

As recomendações finais do relatório incluem, além da ampliação da geração solar associada a baterias nos sistemas isolados, o fortalecimento da inteligência geográfica preditiva e a criação de mecanismos de cooperação entre distribuidoras, prefeituras e empresas de telecomunicações para o manejo da vegetação e a manutenção das comunicações durante emergências.

O conjunto de medidas evidencia uma mudança na abordagem de planejamento do setor elétrico, que passa a incorporar de forma mais sistemática os riscos climáticos na operação e na expansão da infraestrutura. Para o mercado de energia solar e armazenamento, a recomendação de hibridização dos sistemas isolados reforça a importância dessas tecnologias não apenas para a transição energética, mas também para a segurança e a continuidade do suprimento elétrico.

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