Simulações indicam que maior presença de baterias favorece a expansão solar e reduz curtailment, enquanto cenários com mais termelétricas ampliam a volatilidade de preços e impulsionam a receita da geração eólica.
Projeções apresentadas pela consultoria Aurora Energy Research indicam que a competitividade das diferentes tecnologias de geração nos futuros leilões de reserva de capacidade no Brasil dependerá de uma combinação de fatores técnicos e econômicos que vão além da receita fixa ofertada nas concorrências. As simulações da consultoria também mostram que diferentes arranjos de contratação — com maior presença de baterias ou de termelétricas — podem produzir impactos distintos sobre preços, expansão de renováveis e dinâmica do sistema elétrico.
As análises foram apresentadas durante um webinar realizado nesta sexta-feira pela consultoria e destacam que a avaliação de competitividade entre tecnologias deve considerar uma perspectiva de custo sistêmico, levando em conta disponibilidade em momentos críticos, custos operacionais e complementaridade entre diferentes fontes.
Competitividade depende de disponibilidade, custos e flexibilidade
Segundo a consultoria, o real custo-benefício das diferentes tecnologias para o sistema envolve receitas variáveis e o comportamento operacional de cada ativo ao longo do tempo.
Entre os principais fatores estão a disponibilidade para o sistema em períodos críticos, o número de horas em que o ativo consegue entregar potência e os custos totais associados à sua operação. Esses custos incluem tanto investimentos iniciais (CapEx) quanto despesas operacionais (OpEx), além de elementos como consumo de combustível e riscos específicos de cada tecnologia.
No caso das hidrelétricas, por exemplo, o risco hidrológico é um elemento relevante, já que períodos de baixa disponibilidade hídrica podem limitar a capacidade de entrega de potência. Já as termelétricas apresentam, em geral, custos operacionais mais elevados devido ao uso de combustíveis, embora possam oferecer elevada flexibilidade e capacidade de despacho, característica considerada relevante para garantir a confiabilidade do sistema.
Baterias, por sua vez, se destacam por não dependerem de combustível e por apresentarem queda consistente nos custos de capital. Além disso, podem obter receitas adicionais por meio de arbitragem no mercado de curto prazo, carregando energia em períodos de preços mais baixos e vendendo quando os preços estão mais elevados.
Outro fator que pode melhorar o retorno desses projetos é a possibilidade de mitigar o curtailment — a redução forçada de geração renovável — quando instaladas em conjunto com usinas solares ou eólicas. A estratégia de dimensionamento inicial das baterias também influencia o desempenho econômico, já que considerar degradação e frequência de ciclos pode reduzir investimentos iniciais e melhorar o fluxo de caixa ao longo do tempo.
Cenário com mais baterias favorece expansão solar
As simulações da consultoria indicam que um cenário com maior contratação de baterias nos leilões de capacidade poderia produzir mudanças relevantes na dinâmica de preços do sistema elétrico brasileiro.
Nesse caso, haveria um aumento significativo dos preços da energia ao meio-dia. Esse movimento melhora o business case da geração solar, uma vez que a fonte passaria a capturar preços mais elevados durante o período de maior produção.
Outro efeito relevante seria a redução expressiva do curtailment. De acordo com as projeções apresentadas, o armazenamento de energia pelas baterias poderia reduzir essas perdas em até 50% por volta das 10h da manhã. Isso ocorreria mesmo com uma maior necessidade de geração solar para carregar os sistemas de armazenamento.
Nesse contexto, a tendência seria de expansão significativa da geração solar, indicando uma relação complementar entre as duas tecnologias. As baterias funcionariam como um mecanismo de absorção de excedentes de geração renovável e redistribuição dessa energia ao longo do dia.
Mais térmicas aumentam volatilidade de preços
Em um cenário alternativo, com maior contratação de termelétricas e aumento no preço do gás natural liquefeito (GNL), as simulações apontam efeitos diferentes sobre o sistema.
Nesse caso, haveria um aumento significativo do preço da energia, acompanhado de maior volatilidade ao longo do dia. Os preços mais elevados tenderiam a ocorrer no período noturno, favorecendo a receita da geração eólica.
Esse ambiente de preços também poderia melhorar o business case tanto da energia eólica quanto das baterias. A maior diferença entre preços ao longo do dia ampliaria as oportunidades de arbitragem para sistemas de armazenamento.
De acordo com a consultoria, em um cenário de grande variação diária de preços, as baterias poderiam inclusive operar de forma “merchant”, ou seja, sustentando sua viabilidade econômica apenas com receitas do mercado de curto prazo, sem depender de contratos de capacidade.
Por outro lado, esse arranjo poderia gerar efeitos menos favoráveis para a geração solar. As projeções indicam que a fonte capturaria preços mais baixos, aumentando o desconto entre o valor capturado pela geração solar e o preço médio da energia no sistema.
Além disso, um sistema com maior dependência de termelétricas movidas a gás se tornaria mais suscetível às oscilações do mercado global de GNL e a eventuais choques geopolíticos que afetem o preço do combustível.
Complementaridade entre tecnologias
As análises apresentadas pela consultoria indicam que não existe uma única tecnologia capaz de atender, sozinha, às necessidades do sistema elétrico. Cada fonte oferece benefícios distintos em termos de flexibilidade, disponibilidade e custos.
Nesse sentido, a competitividade nos leilões de reserva de capacidade tende a depender não apenas do custo individual de cada tecnologia, mas também da forma como elas se complementam para garantir segurança de suprimento e eficiência econômica ao sistema elétrico.



