Brasil pode chegar a 10 GW de baterias instaladas em até cinco anos, projeta Voltxs

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O Brasil poderá alcançar pelo menos 10 GW de capacidade instalada em sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS) nos próximos três a cinco anos. A projeção é de Matheus Ivanoski Teixeira, diretor de operações da Voltxs Energia em entrevista à pv magazine Brasil, que identifica no armazenamento a próxima grande onda de investimentos do setor elétrico brasileiro, após a expansão da geração distribuída e centralizada solar.

Segundo o executivo, o crescimento acelerado da geração fotovoltaica trouxe novos desafios para a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN), especialmente em relação aos cortes de geração (curtailment) e às oscilações na rede. Nesse cenário, a flexibilidade proporcionada pelas baterias ganha importância para melhorar o aproveitamento da energia e contribuir para a estabilidade do sistema.

Matheus Ivanoski Teixeira, Diretor de Operações da Voltxs Energia.

“Precisamos de mais inteligência energética”, afirma Teixeira. Para ele, os investimentos em armazenamento representam uma nova oportunidade para empresas, investidores e fabricantes, tanto em projetos de grande porte conectados à rede quanto em aplicações comerciais, industriais e residenciais.

O executivo lembra que o setor solar brasileiro já recebeu mais de R$ 300 bilhões em investimentos, mas avalia que a próxima etapa de desenvolvimento exigirá maior integração entre geração, armazenamento e gestão do consumo.

LRCAP impulsiona projetos de grande porte

Na geração centralizada, uma das principais oportunidades para o armazenamento está associada ao primeiro Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) voltado a baterias. De acordo com Teixeira, a Voltxs cadastrou um projeto de 200 MW no certame e acompanha a evolução do processo.

“O mercado já compreendeu esse potencial: foram protocolados mais de 300 GW de projetos de BESS junto à EPE, um volume superior à nossa capacidade atual de potência instalada no país, que é de cerca de 260 GW”, observa.

O armazenamento poderá operar em diferentes configurações. Uma delas é o modelo stand-alone, no qual as baterias funcionam de maneira independente, carregando em períodos de maior oferta de energia e disponibilizando eletricidade posteriormente. Outra possibilidade é a configuração híbrida, com sistemas de armazenamento associados a usinas solares ou outras fontes de geração.

A escolha depende da estratégia comercial e das condições de conexão de cada projeto. Nos sistemas híbridos, a geração solar permite carregar as baterias durante o dia. Já os projetos independentes dependem das condições de oferta de energia e das diretrizes operativas do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

A Voltxs também está desenvolvendo projetos para aproveitar oportunidades identificadas no mapeamento de capacidade de escoamento da rede divulgado pela EPE em 30 de setembro. A empresa desenvolveu uma plataforma interna que classifica subestações considerando critérios como margem de escoamento, incentivos tarifários e condições de conexão.

Um dos pontos identificados é a subestação de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, que, segundo Teixeira, apresenta margem de escoamento de 1,8 GW e condições tarifárias consideradas favoráveis. A TUST de geração informada pelo executivo é de R$ 19,49, enquanto a de consumo é de R$ 3,67.

A empresa cruza essas informações com um portfólio de mais de mil terrenos arrendados no país para identificar oportunidades de desenvolvimento. A meta para 2027 é alcançar pelo menos 5 GW em projetos no estágio ready to build (prontos para construção), destinados a leilões, autoprodução ou aplicações junto à carga.

BESS avança em aplicações comerciais e industriais

Além dos projetos de grande porte, Teixeira identifica oportunidades crescentes para baterias em consumidores comerciais e industriais. Segundo ele, o mercado começa a apresentar condições de preço e eficiência que favorecem a adoção da tecnologia, em um movimento semelhante ao observado pela geração distribuída solar nos primeiros anos de expansão.

“Agora, o BESS atinge esse ponto ótimo entre eficiência e preço”, afirma.

Entre as aplicações com potencial estão a arbitragem de energia e a redução da demanda no horário de ponta (peak shaving). Consumidores atendidos em alta tensão, que enfrentam tarifas mais elevadas em determinados períodos, podem utilizar baterias carregadas em horários de menor custo para reduzir despesas.

O executivo também aponta oportunidades no agronegócio, na indústria e em instalações comerciais, além de sistemas residenciais associados a usinas solares existentes.

A Voltxs possui mais de 50 MWh em projetos de armazenamento em seu pipeline, com previsão de instalação até 2027, independentemente dos resultados do LRCAP. Segundo Teixeira, a companhia já tem propostas comerciais avançadas para iniciar a implantação desses sistemas.

“A Voltxs sempre buscou o pioneirismo. Atualmente, temos em nosso pipeline mais de 50 MWh de BESS para serem instalados até 2027, independentemente de leilão”, destaca.

A empresa trabalha tanto com a venda quanto com a locação de baterias, além de oferecer assessoria para dimensionamento e estruturação das soluções. Nesse modelo, atua como Energy Advisor, realizando estudos de engenharia tarifária e avaliando o perfil de consumo dos clientes antes de recomendar investimentos.

Eficiência energética exige diagnóstico integrado

Para Teixeira, a adoção de baterias precisa estar inserida em uma estratégia mais ampla de eficiência energética. A análise deve considerar não apenas o volume de energia consumido, em kWh, mas também o custo financeiro da eletricidade, em R$/kWh.

A Voltxs atua em duas frentes. Na parte técnica, identifica oportunidades de redução do consumo por meio de retrofits, substituição de motores, modernização de sistemas de ar-condicionado e iluminação. Na frente regulatória, avalia alternativas tarifárias e mecanismos disponíveis para otimizar os custos de energia.

O armazenamento pode contribuir para os dois objetivos, mas exige dimensionamento adequado. “O BESS surge como uma ferramenta fantástica. No entanto, ele funciona como um ‘canivete suíço’: possui diversas funções, mas se não for bem dimensionado por profissionais capacitados, pode trazer prejuízos ao cliente”, alerta o executivo.

Por isso, antes de recomendar a instalação de baterias, a empresa analisa o histórico de consumo e as condições operacionais de cada unidade, considerando também as perspectivas de expansão ou redução da demanda.

Inteligência artificial auxilia no dimensionamento

A análise de dados também ganhou espaço no planejamento dos projetos. Segundo Teixeira, a empresa utiliza ferramentas de inteligência artificial generativa e plataformas de mapeamento para acelerar estudos que, sem esses recursos, poderiam levar meses para serem consolidados.

“Quem não utilizar essas ferramentas perderá competitividade. No entanto, é preciso um crivo técnico humano sobre os dados”, afirma.

No dimensionamento de sistemas de armazenamento, um dos principais insumos é a chamada memória de massa, que reúne o histórico de consumo do cliente em intervalos de 15 minutos.

A Voltxs trabalha com pelo menos um a dois anos de dados para identificar picos de demanda, avaliar oportunidades de peak shaving e determinar os melhores momentos para carregar e descarregar as baterias.

As informações são processadas com ferramentas de inteligência artificial, que auxiliam na identificação de estratégias de operação. O resultado, entretanto, precisa passar por avaliação técnica humana, segundo o executivo, que considera indispensável combinar análise automatizada com conhecimento regulatório e compreensão das necessidades do consumidor.

Incentivos e nacionalização ainda são desafios

Apesar das perspectivas de crescimento, o executivo aponta questões tributárias e regulatórias que ainda influenciam a expansão do armazenamento.

Um dos pontos mencionados é a diferença de tratamento fiscal entre sistemas fotovoltaicos e baterias comercializadas de forma independente. Segundo Teixeira, enquanto kits geradores solares contam com incentivos fiscais, a aquisição isolada de BESS não dispõe do mesmo benefício, o que pode elevar os custos de importação.

Na avaliação do executivo, essa diferença ajuda a explicar a comercialização de soluções integradas, nas quais baterias são associadas a sistemas solares para enquadramento como kits geradores.

Outro desafio está no desenvolvimento da cadeia produtiva nacional. Teixeira destaca a divisão entre produtos nacionais e produtos abertos prevista para o leilão de armazenamento e cita iniciativas de empresas brasileiras, como WEG e Moura, em parcerias com fabricantes internacionais para nacionalizar equipamentos.

Para ele, essas iniciativas podem favorecer a transferência de tecnologia. O Brasil ainda não produz células de bateria, mas conta com pesquisas conduzidas por instituições como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) e universidades.

O executivo também considera que o país poderia aproveitar melhor os recursos destinados à pesquisa e desenvolvimento (P&D), além de desenvolver sua cadeia de fornecimento a partir do potencial geológico e da disponibilidade de minerais utilizados na fabricação de baterias.

Data centers e sistemas off-grid ampliam oportunidades

Entre as aplicações que devem ganhar relevância nos próximos anos, Teixeira destaca o fornecimento de energia para grandes consumidores, especialmente data centers.

Segundo ele, empreendimentos desse segmento podem enfrentar limitações de capacidade de conexão à rede elétrica em determinadas localidades. Nesses casos, a combinação de usinas solares off-grid com sistemas de armazenamento pode representar uma alternativa para garantir autonomia energética.

Para consumidores de menor porte, como estabelecimentos comerciais e redes de varejo, a expectativa é de consolidação de modelos de compra ou locação de baterias voltados à redução dos custos de energia.

O executivo também aponta a realização de novos leilões de reserva de capacidade como um fator de estímulo ao mercado. Ele menciona oportunidades previstas para o segundo semestre de 2027 e de 2028, ressalvando que os cronogramas podem sofrer alterações em função de decisões regulatórias e governamentais.dem sofrer alterações em função de decisões regulatórias e governamentais.

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