Chile E Paraguai Concordam: Governança Coordenada É Pilar Fundamental Para Avançar Em Direção À Mobilidade Sustentável No Cone Sul

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Durante o Latam Mobility Cone Sul 2026, foi realizado o primeiro painel, intitulado “Integração da Mobilidade Sustentável no Cone Sul: Governança e Articulação para uma Agenda Regional Compartilhada”, reunindo autoridades de destaque do Chile e do Paraguai para debater os desafios e as oportunidades de avançar rumo a sistemas de transporte mais limpos, eficientes e inclusivos.

A mediação ficou por conta de Paola Tapia Salas, diretora de Transferência do Center for Advanced Transportation, Logistics, and Economic Competitiveness (CATLEC). Participaram do debate Eduardo Koffmann (Diretoria de Planejamento do Ministério de Obras Públicas do Chile), Emiliano Fernández (Vice-Ministério de Transporte do Paraguai), Marta Cabeza Vargas (Superintendência de Eletricidade e Combustíveis – SEC) e Natalia Aguilar (Ministério da Habitação e Urbanismo do Chile).

A abertura do painel trouxe uma mensagem de solidariedade e resiliência, lembrando os recentes terremotos que afetaram Colômbia e Venezuela. Os painelistas reforçaram a necessidade de incorporar esses fenômenos ao planejamento da mobilidade sustentável, assim como a inteligência artificial e a cibersegurança como ferramentas estratégicas para o futuro.

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Coordenação Intersetorial: O Grande Desafio Da Governança Pública

A mediadora Paola Tapia Salas lançou a questão central do debate: como construir uma mobilidade sustentável por meio de uma governança coordenada entre diferentes setores? O objetivo é superar a fragmentação típica das políticas públicas, onde cada ministério atua para proteger sua própria área em vez de construir uma visão integrada.

Em sua resposta, Eduardo Koffmann diagnosticou que a rigidez dos marcos regulatórios em países de tradição romana, como o Chile, dificulta a coordenação – ao contrário dos sistemas anglo-saxões, mais flexíveis. Ele anunciou, porém, uma inovação institucional inédita na região: a criação do Comitê Interministerial de Infraestrutura, presidido pelo Ministério de Obras Públicas e com secretaria técnica na Diretoria de Planejamento.

O comitê reúne 12 ministérios e tem como missão alinhar o setor público no desenvolvimento de projetos de investimento, evitando casos como “um hospital sem acesso viário ou habitações sociais sem infraestrutura urbana”. Além disso, busca destravar projetos agilizando a burocracia de licenciamento e, principalmente, construir um pipeline de projetos estratégicos de longo prazo que atravesse diferentes governos.

“Nosso grande sonho é que as necessidades de investimento não dependam de quem grita mais alto na política, mas sim de critérios técnicos, econômicos e estratégicos”, afirmou Koffmann, que também convidou o CATLEC para atuar como observador acadêmico no processo.

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A Experiência Do Paraguai: Estabilidade Macroeconômica Como Base Para A Reforma

O vice-ministro de Transporte do Paraguai, Emiliano Fernández, compartilhou a experiência de seu país, que está em pleno processo de reforma do transporte público com foco claro no bem-estar do cidadão.

Fernández destacou que o Paraguai conta com um patrimônio intangível de peso: a estabilidade macroeconômica, com inflação controlada (3% a 4% ao ano), crescimento sustentado acima da média regional e dívida pública que não ultrapassa 35% do PIB.

Somam-se a isso um ativo estratégico de primeira linha: a Usina de Itaipu – a maior do mundo em geração de energia limpa –, que garante ao país uma matriz elétrica 100% renovável e um custo de energia de apenas 5 centavos de dólar por kWh, bem abaixo da média da região.

“Temos uma vantagem de base importantíssima para impulsionar a eletromobilidade”, enfatizou. Ele anunciou que o Paraguai já conta com 90 ônibus elétricos em circulação e deve adicionar mais 40 em breve – saindo de apenas 2 unidades há dois anos para mais de 120. O país também aprovou, após 20 anos de espera, uma nova lei de transporte e está na fase final de redação da primeira licitação para a incorporação em massa de ônibus elétricos.

Fernández fez um alerta para não perder de vista a equação de sustentabilidade da parceria público-privada, que precisa equilibrar três variáveis: acessibilidade para o passageiro, rentabilidade para o setor privado e sustentabilidade fiscal para o Estado. “Não se trata apenas de comprar ônibus; é um processo de implementação que precisa responder a muitos elementos além da aquisição”, ressaltou.

O Papel Técnico Da SEC: Segurança, Qualidade E Informação Para O Usuário

A superintendente da SEC, Marta Cabeza Vargas, destacou o trabalho institucional que tem permitido ao Chile avançar na eletromobilidade com altos padrões de segurança e qualidade. Ela lembrou que a SEC, órgão vinculado ao Ministério de Energia, incorporou a acessibilidade ao seu mandato legal e criou uma unidade especializada em sustentabilidade para enfrentar os desafios da transição energética.

Cabeza enfatizou que a eletromobilidade precisa ser atraente para o usuário final: “O grande desafio hoje não é infraestrutura nem tecnologia, mas fazer com que o usuário queira escolher a eletromobilidade.”

Nesse sentido, ela destacou ferramentas como o aplicativo Ecocarga – desenvolvido pela SEC em parceria com a Agência de Sustentabilidade Energética –, que permite aos motoristas localizar em tempo real os pontos de carregamento disponíveis em todo o país.

Ela também lembrou que o Chile abriga o maior eletroposto da América Latina e que toda a infraestrutura de recarga passa por rigorosos processos de certificação de segurança. Convidou os participantes a visitar o site da SEC para acessar cursos, guias técnicos e vídeos explicativos sobre instalações de carregamento em residências, edifícios e vias públicas.

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Habitação E Urbanismo: Planejamento Urbano A Serviço Das Pessoas

A subsecretária de Habitação e Urbanismo, Natalia Aguilar, colocou ênfase no papel do Estado a serviço da população e na necessidade de que os projetos habitacionais não sejam soluções isoladas, mas sim articulados com transporte, obras públicas e demais serviços.

“Não basta entregar unidades habitacionais; é preciso oferecer serviços, acesso e melhorar efetivamente a qualidade de vida”, afirmou.

Ela explicou que o Ministério da Habitação ampliou seu foco para além dos setores vulneráveis, alcançando também a classe média, com medidas como o congelamento do IVA por 12 meses e o aumento dos tetos de financiamento para 6.000 UF.

Aguilar reconheceu que a eletromobilidade é um tema relevante para novos projetos urbanos, mas ressaltou que a prioridade da pasta continua sendo a habitação social – sem abrir mão da articulação com outras áreas. Ela também sublinhou que a transformação do transporte precisa caminhar lado a lado com a responsabilidade fiscal, para não comprometer outros investimentos públicos.

Financiamento E Novos Modelos De Negócio: A Chave Da Transição

Na rodada final de perguntas, a mediadora Paola Tapia Salas perguntou aos painelistas sobre os desafios do financiamento e das novas alianças público-privadas.

Eduardo Koffmann abordou o transporte de cargas, onde a decisão de adotar caminhões elétricos é totalmente privada. Ele explicou que, embora o custo por quilômetro do caminhão elétrico seja menor ao longo do ciclo de vida, a norma chilena que limita o peso máximo a 40 toneladas acaba penalizando o veículo elétrico – já que as baterias pesam até 3 toneladas, elevando o custo por tonelada-quilômetro. “Hoje, o incentivo é para não migrar para o elétrico”, admitiu.

Para resolver isso, os ministérios de Obras Públicas e dos Transportes estão conduzindo um estudo para flexibilizar a norma de peso máximo, permitindo que o setor privado opte pelo elétrico por conveniência econômica, e não por imposição estatal.

Emiliano Fernández complementou, insistindo que a transição exige considerar o custo total de propriedade (12 a 13 anos) – e não apenas o preço de compra –, e que o retorno também precisa ser medido em benefícios sociais e ambientais. “A eletromobilidade sai mais barata ao longo da vida do projeto, mas precisamos provar isso com números ao ministro da Fazenda”, afirmou.

Marta Cabeza Vargas encerrou o painel ressaltando a importância da informação para a tomada de decisões e o papel da SEC na certificação da infraestrutura. Já Natalia Aguilar reafirmou o compromisso do Ministério da Habitação com o planejamento urbano integrado que contemple a eletromobilidade sem perder de vista sua missão principal.

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Uma Agenda Regional Compartilhada

O diálogo neste primeiro painel reafirmou uma convicção compartilhada: a mobilidade sustentável é um pilar essencial para o desenvolvimento equitativo e sustentável da América Latina.

As experiências do Chile e do Paraguai mostram que, apesar das diferenças institucionais e de contexto, é perfeitamente possível construir pontes de colaboração que potencializem os avanços de cada país. A criação de espaços de governança coordenada e as reformas estruturais são passos concretos rumo a uma região mais conectada, limpa e justa.

Mas este é apenas o começo. O convite segue aberto para que mais atores se juntem a esse movimento no Latam Mobility México 2026, que acontecerá nos dias 12 e 13 de outubro na Cidade do México.

Lá, governos, empresas, academia e sociedade civil continuarão tecendo a rede de colaboração que fará da mobilidade sustentável uma realidade em todo o continente. O otimismo não é ingenuidade – é a certeza de que, trabalhando juntos, a mudança é plenamente possível.

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